segunda-feira, 18 de junho de 2018

A camisa maldita ( conto )



Essa mensagem ou carta foi encontrada em um notebook, ao lado do corpo de um suicida aparentemente com pendores literários. 
É uma espécie de confissão e carta de despedida com um teor muito estranho em forma de conto.
As autoridades mantém absoluta discrição sobre o caso, mas um informante revelou a coisa toda.

"A quem estiver lendo isso

Eu sempre fui um sujeito normal e ponderado, ciente dos meus inúmeros defeitos e raras qualidades.

E sempre tentando melhorar, mais errando que acertando.

Um sujeito normal se equilibrando nessa corda bamba chamada vida.

( Credo, essa foi ruim! )

Estudei, trabalhei, me diverti, confesso que bebi, namorei, casei, tive um filho.

Enfim.

Foi em 2013 que tudo mudou.

Ou melhor, eu mudei.

E pra pior ( VEJO ISSO AGORA! )

Aquelas marchas.

A música nos trios elétricos.

As danças coreografadas.

A união.

As selfies com policiais.

Foi muito lindo.

Discursos contundentes.

O país não podia continuar daquele jeito.

Fui conquistado pelo espírito da mudança.

Não dei, nem tive mais trégua.

Comecei a fazer parte de inúmeros grupos de Whatsapp.

Éramos uma rede.

Uma rede de redes.

Discutiamos a situação do país.

Compartilhavamos alertas.

Mudaríamos o país.

Estavamos decididos.

E havia ela.

A camisa.

Lembro de meu pai, me trazendo uma camisa amarela, quando eu tinha cerca de 10 anos.

Eu nem sabia o que era aquilo.

Mas sabia o que era o sorriso do velho.

Meu velho.

Eu nem gostava de futebol.

Mas para o velho, aqueles caras correndo atrás da bola vestindo a camisa amarela eram como semideuses. Artistas. Como os cantores de ópera e escritores que ele tanto amava. Falava deles como se fossem visitas que iam em casa.

Saudades, velho.

Agora eu sou o velho do meu filho.

Eu não o convenci a usar a camisa amarela por causa de futebol, como meu velho fez comigo.

Eu o levava às marchas. Eu e ele. Ele nos meu ombros.

Pai e filho.

E a amarelinha.

Fiz isso por ele. Pela criancinhas do Brasil, como disse o Pelé uma vez.

Eu estava lá no "Não vai ter Copa".

Que ironia. "Não vai ter Copa" e eu usando o uniforme da Copa.

Da seleção.

Do velho.

Teve Copa, mas não ficou assim não.

Eu estava lá no estádio.

"EI DILMA, VAI TOMAR NO CU!!"

Gostou, velho?

Eu havia tomado gosto pela coisa.

A camisa.

Ela me dava força.

E segurança.

E confiança.

A camisa.

FOI ELA!!!!

A causa disso tudo!

SUA MALDITA!!!!

Eu me transformava.

Minha mulher me avisou:

- Querido, você está estranho!

Ela não sentia o que eu sentia.

Ela nunca vestiu a camisa.

EU VESTI!!!

Eu estou pagando por isso.

MEU DEUS ME PERDOA!

SUA MALDITA!

NÃO, NÃO!! ME DESCULPA.

MALDITA É ELA.

A esposa, não a camisa!

Eu amo a camisa.

Todos nós amamos!!!!

ELA! Nos ama de volta.

Ela nos fortalece contra os inimigos.

Os comunistas. As feministas. Os viados!!!!

Nossa camisa jamais será vermelha.

Né, velho???

Semideuses.

Somos semideuses.

Eu preciso usar a camisa. Ela me protege e me dá força.

Ela me diz o que fazer.

Minha mulher se afastou de mim e levou meu filho.

Eu sou o velho dele.

Ele precisa de mim.

Ele precisa vestir a camisa.

Ela disse:

- Amor, o que aconteceu com você? Você parece um monstro. Eu não casei com um monstro.

"Os comunistas são monstros!", eu respondi a ela.

Ela implorou que eu parasse com aquilo. Me afastasse daqueles grupos "estranhos" e "paranóicos". Que fizéssemos uma viagem. Que ninguém mais falava conosco. Nem vizinhos, nem amigos. Não havia mais visitas.

Eu respondi que ela estava louca.

Um dia eu cheguei em casa e não estavam lá, nem minha mulher, nem meu filho.

Eu fiquei desesperado.

Corri e vesti a camisa.

Me senti melhor.

Fui pro Whatsapp

O pessoal me explicou: ela virou comunista.

Disseram que eu não preciso dela.

E que eu estarei melhor sem ela.

Comunista feminista!

Alguns dos caras do grupo me chamam pra ir ver o jogo do Brasil no bar.

É uma boa.

Eu, os caras e minha linda camisa.

Sem comunistas.

Estamos no bar, e lá tem umas gringas.

Ficamos sabendo que elas são russas.

Ou seja, comunistas feministas.

Alguém sugere pra irmos zuar com elas.

A gente zoa e filma tudo.

- Olá!

- Ola!

Somos simpaticos com elas.

Começamos a ensinar-lhes palavras e a filmá-las falando os palavrões que as ensinamos:

- Buceta rosa!

- Bôcêtah rôza!

hahahahahahahahaha!

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

O video cai na rede. Somos um sucesso.

Batem à porta.

Eu estou assistindo ao vídeo pela 50a. vez.

É minha mulher.

Ela fala sobre o vídeo.

Eu fui reconhecido.

Naquele exato momento, toca o telefone.

É do RH.

Me desligaram da organização.

E minha mulher falando ao mesmo tempo que o RH.

Não sei de mais nada.

Estou sozinho agora.

Sem a camisa, apenas de bermuda, tentando colocar as idéias no lugar.

Acho que não tem mais volta.

Pensei, pensei e pensei.

Não tem saída.

Já sei o que fazer.

Foi a camisa.

Foi ela.

Me seduziu.

Me enlouqueceu.

Como a mascara do Maskara.

Outra personalidade.

Eu não era mais eu.

Eu era outro.

Diferente.

Perverso.

Mau.

Você vai queimar, sua maldita! FOI VOCÊÊÊÊ!!!!!

Eu...eu...eu... Não fui eu, foi ela!!!! Olha o que você fez comigooooo!!!!

A camisa diz que não fez nada comigo, que eu fiz tudo por conta própria.

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHCALAABOCACAMISAAAAAAAAAAAAAAA!

ELA NÃO CALA A BOCA!!! PÁRA! PÁRA!!!!

Eu descarrego o pente sobre ela e ela continua falando.

CALA A BOCA MEU DDEUS CALAALAALALALALALALA NAO ESTOU OUVINDOOOOOO!!!!!

CANSEI!!!!

Eu taco fogo na maldita!

Queima!

As chamas também são amarelas!

O amarelo é lindo.

Não, ele não é lindo.

Ele é mau.

Amarelo mau!

Mas...

Eu também sou mau.

Já sei o que fazer.

Pra me livrar do amarelo.

Ja me livrei da camisa.

Só falta uma coisa.

Vai ser agora.

Te amo amor, te amo filho.

Me perdoa.

Assinado: o ( seu ) velho"

Os vizinhos ouviram o barulho do tiro e chamaram a policia.

Explicaram o que sabiam.

Casado, com filho, mas a mulher foi embora e levou junto a criança.

Eriberto ( era o nome do vizinho ) apresentara mudança de comportamento já fazia um tempo. Tornara-se sombrio. Não havia como conversar.

Mais alguma coisa?, perguntou o policial.

- Ele não usava nenhuma outra camisa a não ser a amarelinha da seleção.

Alguma superstição, talvez?

Ninguém sabia ao certo.

Ele não falava muito a respeito e nem gostava quando alguém fazia observações sobre esse hábito.

Respondera mal a um vizinho que uma vez brincou:

- Essa camisa vai sair andando sozinha, heim, Eri?

A polícia levou o notebook e encontrou o conteúdo perturbador da carta de Eriberto, cujo conteúdo reproduzi acima.

FIM


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