domingo, 13 de maio de 2018

A ação da "Mãe PM" analisada de forma equilibrada por profissional de segurança pública e não por bolsonazistas imbecis e reaças canalhas





"Eu nem ia ligar meu computador hoje por causa do meu fim de semana de intenso trabalho, mas vi que não dá pra esperar para esclarecer alguns pontos aqui sobre a mãe PM que atirou num assaltante armado em frente à escola. 

#AvisodeTEXTÃOComboFamíliaPlus

Não vou tentar mudar opinião de ninguém, mas esclarecer alguns pontos que muitos leigos não se dão conta (porque quando eu era leiga eu também não me dava conta), mas que precisam ficar claros. E tentarei ser sobretudo pragmática:

1) Policiais militares, civis e federais (e mais recentemente os Guardas Municipais) andam armados quando fora de serviço por força de lei. Sim, policial é policial inclusive em sua hora de folga.

2) Exatamente por isso, pela obrigatoriedade do porte de arma 100% do tempo, o policial é obrigado a agir em momento de injusta agressão, isto é, em legítima defesa de outrem, nos termos da lei penal "Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.", ou seja, cometer um crime para repelir injusta agressão é causa excludente de ilicitude (não é crime).

3) Policial armado à paisana, em dia de folga, que vê um crime e não reage contra está cometendo um crime: a omissão no dever de agir.

4) Policiais portam armas para se defenderem e defenderem as outras pessoas. Ele pode tirar a arma do coldre para exibí-la para amigos ou inimigos ou coagir ilegalmente alguém? NÃO.

5) Antes de serem admitidos na organização policial, policiais aprendem e TREINAM tiro (muito ou pouco depende da instituição policial) para, na sequência, se habilitar pela Polícia Federal a ter o direito de portar uma arma. Se esse policial fizer alguma merda no serviço ou fora dele, se tiver um BO contra si (por qualquer motivo), tem seu porte suspenso até que os fatos sejam esclarecidos. Essa é a teoria. Uma instituição de segurança pública minimamente séria faz isso.

6) A profissão de policial é de inegável risco. Policiais tem que treinar e usar as técnicas aprendidas pois sua maior missão é VOLTAR VIVO/VIVA PARA CASA. Para isso bate-se tanto na tecla da OBEDIÊNCIA ÀS TÉCNICAS POLICIAIS (que é assunto extenso). E não tem jeito: se não aplicar as técnicas aprendidas com rigor as chances de dar merda para o policial aumentam exponencialmente.

6) Sobre puxar o gatilho para se defender e ser bem sucedido: isso NÃO É questão de qual armamento se usa, mas absolutamente uma questão de TÉCNICA e de oportunidade, de chance, de ANTECIPAÇÃO DE UMA AÇÃO contra si, ou seja, o que chamamos de FATOR SURPRESA. Há policial que morre com fuzil nos braços. Há um monte de policial que é assaltado e que tem a arma roubada pelo assaltante porque não tem tempo de agir. Por outro lado, há assaltantes que assaltam apenas com uma faca de cozinha e são bem sucedidos tanto no roubo quanto quando querem matar alguém com ela. O fator surpresa sempre está do lado de quem consegue agir primeiro (dá pra aplicar aqui o conceito de shock and awe).

Dito isso, vamos às considerações específicas da mulher policial mãe que agiu contra o assaltante:

1) Do ponto de vista da técnica de operação de arma de fogo, a ação dela foi PERFEITA: agiu com oportunidade, antecipou a ação adversa e fez o fator surpresa estar a seu lado.

2) Deu 2 ou 3 tiros, a depender de quem conta a história (dois no peito e um na perna, ou um no peito e um na perna), neutralizou a injusta agressão vinda do assaltante, protegeu-se atrás do carro até ter certeza de que a área estava segura para ela, DESARMOU o assaltante (gente, vocês não sabem o quanto isso é importante!); (e o vídeo não mostra, mas) CHAMOU O SOCORRO MÉDICO, o que denota o profissionalismo da ação dela.

3) A policial vai responder na justiça por HOMICÍDIO DOLOSO. Tenho certeza de que a defesa dela será bem amparada por testemunhas (espero!) e pelas imagens que correm a internet. E confio no juízo do juiz que vai julgá-la.

4) Ela é heroína? NÃO, ela é uma trabalhadora assalariada da segurança pública e trabalha pra poder ter o que comer.

5) É pra comemorar a morte do rapaz assaltante e tripudiar sobre a imagem dele? NÃO! O assaltante é indivíduo típico que dá errado por todas as questões sociais e raciais que já estavam contra ele antes de ele nascer.

6) O assaltante assumiu o risco de morrer quando tomou a decisão de assaltar. Sim, consciente ou inconscientemente, ele assumiu. A julgar pelas imagens tratava-se de indivíduo adulto, portanto já com algumas condições de refletir sobre o que faz (diferente de um adolescente). E o fato de decidir assaltar com uma arma de fogo mulheres e crianças que esperavam entrar na escola dá uma medida do que passava na cabeça dele. Compreender razões sociais que levam alguém a cometer um crime não exclui avaliar a periculosidade desses indivíduos quando portam alguma arma.

7) O ponto anterior (6) não nos autoriza a desejar a morte desses indivíduos, mas sim que o Estado assuma seu papel de respeito aos direitos humanos de todos e não apenas da parcela branca e bem remunerada da população.

8) É pra defender arma na mão da população pra combater o crime e matar assaltante que assalta criancinhas na porta de escolas? NUNCA! NÃO! NEM PENSE NISSO! Aliás, minha introdução aí em cima sobre o papel do policial e a técnica policial é justamente para explicar que ARMA NÃO É BRINQUEDO E NÃO PODE ESTAR NAS MÃOS DA POPULAÇÃO, mas estar apenas nas mãos de POLICIAIS. É na polícia e na justiça que nossa sociedade tem que confiar, e não em machão imbecil que grita "bandido bom é bandido morto".

9) Policial é trabalhador. E ser de esquerda só reforça que a nossa visão tenha que ser nesse sentido, o de disputar espaço e o discurso que hoje é tomado pela direita reacionária. Eu tento colocar algumas coisas às claras aqui pra todo mundo porque acho que existe um fosso proposital, aberto e mantido pelos reaças, entre a população e as instituições policiais.

Lembremos que a polícia é instrumentalizada pela elite brasileira para manter a base da pirâmide calada e obediente. Se quisermos avançar no campo político ideológico a esquerda tem que disputar essa classe profissional, sem preconceitos, sem pedras na mão. Lembremos que o pensamento de esquerda jamais estará nas polícias se gente de esquerda não se habilitar a trabalhar como policial.

Enfim, tenho que ir trabalhar e não posso mais ficar aqui escrevendo."

P.M. ( nome fictício )

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