sexta-feira, 13 de abril de 2018

O ÓDIO: Como alguns pobres e remediados fazem para não parecerem pobres e remediados ou não se verem como tal


O PASSADO ESCRAVISTA NOS MARCA NO ÓDIO

Juro que não entendia o vizinho raivoso, a manicure ou o garçom do bar da esquina destilarem ódio contra o Lula, pobres possuídos pelo ódio de classe que não é a sua. O que está bastante claro era que não é pela corrupção que eles babam de ódio. Os corruptos estão aí soltos nas instituições desse país e o único ex-presidente encarcerado com a desculpa da corrupção pós redemocratização foi o Lula. Roubaram tanto, antes e depois dele, com a impunidade inerente ao cargo. Lula não. Foi celeremente processado e encarcerado. Algo de diferente ele tinha. Ou representava.

Nem vou aqui falar de seus erros, tantos que cometeu na sua equivocada conciliação de classes para ser traído pelas alianças e nomeados do judiciário logo a seguir. O ódio deles também não é por isso. Acho que é por ele ter se atrevido a entrar na casa grande e melhorado um pouco que seja as condições da senzala. Mas porque a raiva se ele nem tirou os privilégios das elites? O que deu nesse povo todo para tanta raiva?

Estou lendo “Brasil, uma biografia” de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling e acho que encontrei uma pista. Muito lá atrás, nos primórdios do Brasil escravista. As autoras ressaltam que no Brasil “a escravidão foi mais que um sistema econômico: ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez de raça e cor marcadores de diferença fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência, e criou uma sociedade condicionada pelo paternalismo e por uma hierarquia estrita”. Segundo as autoras, a escravidão moldou o caráter da sociedade brasileira desde cedo. Para não ser escravo você tinha escravos. Era a identidade social explícita. Portanto, entre nós, o escravo não era propriedade apenas dos senhores do capital, importantes na reprodução econômica social. A escravidão moldava a vida em sociedade. Entre nós, “padres, militares, funcionários públicos, artesãos, taberneiros, comerciantes, pequenos lavradores, pobres e remediados, e até libertos possuíam escravos”.

Esse foi o traço mais marcante da nossa sociedade escravista. O próprio escravo liberto tinha que possuir escravos para reafirmar sua identidade de liberto. Pobres e remediados possuíam escravos para não serem identificados como tais. Pequenos lavradores, artesãos, comerciantes, taberneiros inscreviam no escravo a sua aspiração de ascensão social. Os militares e burocratas do sistema mostravam sua opção servil de classe possuído escravos como a elite a quem serviam. Até o clero mostrava sua opção pelos ricos sendo proprietários de almas cativas, escravas do Senhor.

Numa sociedade que foi se constituindo assim é possível entender os dias de ódios em que vivemos. Um escravo que nem fez um quilombo, mas ameaçou ao se sentar na mesma mesa com os senhores da casa grande. Que seja punido e volte para a senzala de onde nunca deveria ter saído. Senão perdemos o contorno dos possuidores de escravos e eles próprios.

Portanto, agora quando você estiver com sua vizinha raivosa, com o motorista de táxi babando ódio, com a manicure e o garçom tentando ficar ao lado do cliente a que servem, imagine que eles foram os possuidores de escravos lá no começo de nossa história. E percebamos que cada um deles possui o seu escravo imaginário, que carregam presos a correntes, representados por um Outro pobre diferente deles. De quem eles precisam da identidade para ter a sua.

E talvez aí entendamos o ódio que não parece ter sentido algum. É a inscrição da nossa história na formação de nossa sociedade complexa.


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