sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Brilha uma estrela



Morador da Zona Oeste paulistana, João Paulo soltou fogos:

- Se fudeu Lulladrão!!

Como típico coxinha de classe-média paulistana, ele era um habitual eleitor tucano, pato da FIESP e outras qualidades duvidosas que não cabe aqui enumerar, e teve orgasmos com a reiteração da condenação de Lula. 
- Doze anos é pouco. Tinha que amarrar num poste e...

João Paulo se encontrava numa choperia onde se distribuiu gratuitamente chopes, como comemoração pelo placar no tribunal.
- Vai pra Papuda, vagabundo HIC!!

Ele espionava o Facebook:
- Olha os mortadela kakakakakakakaka HIC!

De tanto escrever "kkkkkk" ele passou a rir dessa forma na vida real.
- Chora petralha kakakakakakaka! Que linchamento o quê!

Era seu dia de glória.

Como torcedor de futebol, ele adaptou para o resultado do julgamento do ex-presidente uma antiga frase que ouvia muito:
- Sem triplex é mais gostoso. HIC!

Sim, é isso mesmo. Ele se ligou que havia algo de estranho nessa história de triplex. Não estava convencido que o bem pertencesse ao ex-presidente. Mas não estava nem aí. Talvez aquela fosse a última chance de botarem o petista atras das grades.
- Sem triplex é mais gostoso, Nove Dedos. Linchamento o caralho!
O chope estava muito bom, mas era hora de ir pra casa.

João Paulo caminhava em direção a casa, e ia pensando:
- Se fudeu, Lullarápio. 

Seu pensamento ia acelerado. Ele nem prestava atenção ao que acontecia em volta. O entusiasmo não deixava.

De repente, seus pensamentos chegaram aos anos 80:
- Como era mesmo a musiquinha desse vagabundo? HIC!

Ele se referia a um antigo jingle de campanha.
- Ah, caralho, lembrei... "Brilha uma estrela..." hahahahah HIC! Vai ser a estrela da Papuda, baiano vagabundo. 

A musiquinha não arredava.
- Lulala...brilha uma estrela HAHAHAHA!

E João Paulo prosseguia seu caminho.

E cantarolava. A melodia fácil e grudenta. O verso simples e poderoso. Como aquelas músicas que tocam no rádio e nos acompanham pelo resto do dia na cabeça.

João Paulo não percebeu, mas já estava cantando em voz alta.

A empolgação e os vários chopes estavam atuando na causa.

- Lulalá, brilha uma estrela.

Ele passou perto de um grupo de marombeiros, frequentadores daquelas academias de maromba e artes marciais da Rua Clélia.

O grupo de marombeiros, todos coxinhas como ele. Reaças de responsa.

- Ih, que que esse petralha tá fazendo aqui?
- Mortadela do caralho.
- Só de olhar a gente vê que é petista.
- Ih, tio, o cara tá até cantando a musica do Lulladrão.
- Vagabundo do caralho. Vamo lá esculachá esse comunista.

João Paulo já chegava perto de casa. Ainda cantava os versos do jingle petista:
- Lulalá, brilha uma estrela...

Foi atingido por trás.

- Cadê o Lula agora, vagabundo??

Depois pela frente.

- Chama o Lula, filho da puta!

Em seguida, por todos os lados.

- Vai pra Cuba, cusão!

A última coisa que viu, antes de desmaiar pelo espancamento, foi uma imensa estrela.

Magnifica, enorme, imponente.

E toda vermelha.

Vermelho do sangue que já escorria pelo rosto e cobria seus olhos.

A polícia tomou a frente do caso.

Câmeras de segurança próximas foram analisadas.

Testemunhas foram ouvidas.

Todas as testemunhas foram taxativas.

Elas disseram que escutaram gritos de "Lula, Lula!" e gente cantando "Brilha uma estrela!"

E alguns reconheceram João Paulo.

- Ih, esse aí até fez campanha pro Serra.

A polícia concluiu que ele foi espancado por um grupo de petistas raivosos, revoltados pelo resultado do tribunal.

A imprensa, extasiada, passou meses falando sobre o caso do tucano que foi espancado por militantes petistas. Finalmente os editorialistas do Estadão conseguiram ter uma ereção.

Os marombeiros ficaram sabendo da cagada que cometeram, mas prometeram entre si não abrir o bico.

Afinal, a culpa do espancamento de João Paulo estava recaindo sobre os mortadelas.

Em casa, João Paulo se recupera dos graves ferimentos, e deve ter alta em quatro semanas.

O diabo é que a musiquinha do Lula não sai de sua cabeça.

- Lulalá...brilha uma estrela... Porra, como faz pra isso parar??


FIM


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