domingo, 1 de outubro de 2017

O afastamento de Aécio. Artigo de Jasson de Oliveira Andrade


A decisão do Supremo, por 3 votos a 2, em afastar o senador Aécio Neves (PSDB-MG) está causando uma controvérsia entre o Senado, que deseja anular o afastamento, com a Justiça. Bernardo Mello Franco, em artigo publicado na FOLHA comenta o impasse: “A reação ao afastamento de Aécio Neves é muito mais do que uma tentativa de salvar a pele do tucano. O Congresso vê o caso como uma chance de ouro para medir forças com o Judiciário e impor algum tipo de freio à Lava Jato. (...) Além de suspender o mandato do mineiro, a primeira turma do Supremo determinou seu recolhimento noturno. A medida inflamou os parlamentares que acusam o tribunal de extrapolar na interpretação da lei. (...) Eles argumentam que a Constituição só permite a prisão de congressistas em flagrante de crime inafiançável. (...) O problema é que o Código de Processo Penal define o recolhimento como medida “diversa da prisão”. Por isso, os ministros que votaram pela punição entendem que não cabe consulta alguma aos senadores. (...) A salvação de Aécio interessa em primeiro lugar ao PSDB e ao governo Temer, que conta com ele para arquivar mais uma denúncia contra o presidente.” Ou seja, para salvar a própria pele!

Eu não votei em Aécio, mas o considerava um político honesto. Enganei-me. A propina que recebeu de Joesley não foi para pagar o advogado, como cinicamente diz. O dinheiro foi entregue em malas, através de seu primo Fred. Isto foi filmado e ninguém pode negar. Nunca se viu empréstimo desta maneira. NUNCA! Luís Roberto N. Ferreira (Santos,SP), em carta ao Painel do Leitor (FOLHA), escreveu: “Falta hombridade ao senador Aécio Neves ao tentar se escudar em justificativas indefensáveis para declarar-se inocente. Quem, em sã consciência, acredita que uma operação regular de empréstimo pessoal no montante de R$ 2 milhões seria realizada por meio de malas de dinheiro?” Já Clovis Rossi, também na FOLHA, foi mais incisivo: “O caso Aécio não é jurídico, mas de ausência de caráter.” O Senado poderá reverter a punição. No entanto, essas verdades não serão apagadas da vida política de Aécio!

UM ANDRADA PARA SALVAR TEMER - A FOLHA noticiou em manchete: “Aliado vai relatar denúncia contra Temer na Câmara – Escolha de Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) foi comemorada no Planalto”. O jornal informa que o deputado tucano é “aliado do senador Aécio Neves” e que sua escolha “ampliou o racha interno no PSDB”. Sobre o deputado, a FOLHA diz: “Advogado e professor, integra uma tradicional família de políticos, a linhagem de descendentes de José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos principais articuladores da independência do país”. Tem 87 anos e votou ao lado de Temer na primeira denúncia. A sua escolha se deve a essa posição anterior dele, bem como para dividir o PSDB. O líder da bancada pediu que não se escolhesse um tucano como relator, mas os governistas não atenderam o pedido!

Bernardo Mello Franco, no artigo “Andrada está com os 3%” (FOLHA, 29/9), comentou essa escolha: “A nova pesquisa CNI-Ibope revelou que apenas 3% dos brasileiros aprovam o governo de Michel Temer. Neste seleto grupo está o deputado Bonifácio de Andrada, do PSDB de Minas Gerais. (...) Aos 87 anos, o tucano vai relatar a nova denúncia contra o presidente. Seu voto é mais previsível que a chegada do Natal em dezembro. Andrada defenderá o arquivamento das acusações por organização criminosa e obstrução da Justiça. Foi o que ele fez em agosto, quando a Câmara rejeitou a primeira denúncia contra Temer. Ao dar o “sim” ao Planalto, o deputado disse votar “a favor das instituições e do progresso do Brasil” (...) No décimo mandato seguido na Câmara, Andrada já está acostumado a abraçar causas impopulares. Em 1984, ele faltou à votação da emenda das Diretas, ajudando a ditadura militar a derrubá-la. No ano seguinte votou em Paulo Maluf [contra Tancredo] no Colégio Eleitoral. Mais recentemente, discursou contra o afastamento de Renan Calheiros, a prisão do deputado Celso Jacob e o cumprimento de um mandado de buscas no Senado. (...) Antes da votação da primeira denúncia, perguntei (sic) a Andrada se havia chance de surpresas. Ele disse que Temer podia dormir tranquilo e defendeu os colegas que negociavam benesses (sic) com o governo. “Os deputados não são santos porque o povo também não é santo”, ironizou”. Com esse passado e com essa ironia, nada se pode esperar do parecer dele: É um Andrada para salvar Temer!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

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