terça-feira, 13 de junho de 2017

Brasil Motivacional 2018



Planeta: Terra

País: Brasil

Cidade: São Paulo

Ano: 2018

Um país em crise. Pessoas vendendo o almoço pra comprar um cafezinho. Empresas demitindo ou fechando as portas. Boatos de canibalismo nas grandes cidades.
Nesse cenário, é fácil imaginar que todos estejam perdendo. Nada mais longe da realidade. Embora às vezes possa ser possível uma espécie de situação "ganha-ganha" ou se imagine que nessa crise o jogo esteja "perde-perde", o fato é que o jogo é do tipo "ganha-perde". Pouquíssimos ganhando e a esmagadora maioria perdendo.

Mas vamos deixar o sentido figurado um pouco de lado.

O Gestor entra no escritório. Tem algo importante a comunicar aos Colaboradores.

- Peço a atenção de todos!
- Diga, por favor!, responde Ataliba, famoso puxa-saco da firma. Ou melhor. Da Companhia.
- Como vocês sabem, houve uma reunião entre a Diretoria e os Acionistas, e foi decidido que haverá outro programa motivacional.
- Ih, outro!, resmunga Natal.
- Puxa, que legal!, diz Cauã, um dos Estagiários.
- Estamos em tempos de crise. Esta filial não atingiu os resultados estabelecidos para este ano fiscal. Aparentemente nossos Colaboradores não agiram proativamente com determinação e foco em resultados.
- Eu li no jornal de Economia que isso foi devido a investimentos errados no mercado financeiro, principalmente grandes perdas com o hedge.
- Deixe suas opiniões para a reunião semestral, Abílio!
- Como vai ser esse programa motivacional?
- Ótima pergunta, Ataliba.
Ataliba estufa o peito, todo orgulhoso.
- Vocês sabem que o alcance da Companhia se dá em vários setores da economia nacional.
- Sabemos.
- Uma das ramificações, digo, que representa a diversificação em nossa cesta de investimentos é o setor da segurança pública.
- Você quer dizer: cadeias privadas.
- Exato. Temos um programa pioneiro de reabilitação e sociabilização dos presos.
- E daí?
- Nós selecionamos um dos internos da Casa de Ressociabilização Cidadã de São Judas do Vale. O senhor Edson Catamatta.
- Catamatta... Catamatta... Esse nome não me é estranho!, diz Valdeir.
- LEMBREI!!! - responde Odair - É o "Tacanha"! Aquele psicopata que mato...
- O SENHOR EDSON - interrompe o Gestor - está participando do programa de reabilitação e ressociabilização, patrocinado pela Companhia, e foi selecionado para participar de nosso programa motivacional, num papel muito importante. Seus talentos serão muito úteis.
- Como assim?, pergunta um.
- Vocês nos fazem trabalhar 12 horas por dia e acham que essa charlatinice motivacional vai resolver alguma coisa?, reclama outro.
- Pois bem. A participação no programa motivacional renderá pontos dentro da Companhia. Quem quiser progredir aqui dentro deverá pensar seriamente em participar. 
- Continue.
- Esta filial deficitária foi aquela que desequilibrou os resultados globais da Companhia, prejudicando o faturamento projetado.
- Coisa de 50 mil reais apenas.
- ISTO, SENHOR ANÌBAL, é uma Companhia que visa o lucro, não uma casa de caridade. Perder dinheiro é heresia.
- Sim, senhor.
- Afinal, interrompe Ataliba, sempre que a Companhia defende os interesses da Companhia e dos Acionistas, ela está automaticamente defendendo também os interesses dos Colaboradores. Defender a Companhia é defender os Colaboradores. Quando a Companhia cresce, todos nós crescemos.
- Muito bem, Ataliba. Assim, esta filial foi escolhida para servir de exemplo às demais. É aqui que entra o programa motivacional.
- Vai ter coaching e coisa e tal?
- O senhor Tacanha, ou melhor, o senhor Edson será nosso coaching convidado.
- O QUÊ??
- O que sabe ele?
- Do que consiste esse programa, afinal?

Uma semana depois, todos os Colaboradores compareceram bem cedo ao Escritório, pois teria início o programa motivacional.

O Tacanha...ops, o senhor Edson Catamatta botaria em prática seus conhecimentos aprendidos no período de encarceramento.

Cada funcionário foi avaliado.

E cada um teria suas faltas e deficiências profissionais destacados pelo RH.

E essas faltas e deficiências seriam tatuadas na testa de cada Colaborador, pelo senhor Edson. Que aprendeu a tatuar na cadeia, usando pregos, tinta de caneta e giz de cera.

Assim, Aníbal, da Expedição, que tinha o costume de sempre entrar atrasado, receberia em sua testa a inscrição "Atrasildo e Vassilão".

O problema é que Tacanha, ou melhor, o senhor Edson, era semi-analfabeto.

A tatuagem do Ataliba ficou "Sou Pucha Çaco e Vassilão".

Cada sessão de tatuagem com cada Colaborador foi filmada e as filmagens todas foram editadas e compiladas em um DVD, que seria enviado a cada filial, e o filme projetado em uma exibição coletiva em cada uma das filiais.

Para coagir, ou melhor dizendo, motivacionar cada Colaborador a dar o melhor se si para a Companhia.

Os Colaboradores tiveram que assinar um contrato cedendo os direitos de imagem à Companhia, que poderia comercializar estas imagens da maneira que melhor lhe interessasse.

Pois cinquenta mil reais não é dinheiro de se jogar fora.

Ainda mais nessa crise braba.

FIM


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