segunda-feira, 15 de maio de 2017

COMPETIÇÃO E SELVAGERIA "Meritocracia" é uma merda

Outro dia vi um vídeo interessante - mas não salvei e não consigo lembrar onde ele está. Assisti sem som, então nem sei em que língua era falado; tinha legendas em português.
Era um grupo de crianças jogando "Banco Imobiliário" (acho que agora está sendo chamado de "Monopoly" por aqui também). Só que o jogo tinha adaptações para torná-lo mais realista. Um jogador já começava com um grande patrimônio; os outros não tinham nada. As meninas sofriam um desconto de 30% nos seus ganhos. Alguns poucos tinham uma imunidade que os impedia de ir para a cadeia.
O recado é claro: a sociedade é injusta, os pontos de partida são desiguais, as atribuições de vantagens são desequilibradas; logo, o resultado do jogo é enviesado. Mas eu fiquei pensando sobre essa crítica, que é a mais fácil de ser feita. Ela corre o risco de aceitar os valores dominantes e denunciar a sociedade atual apenas por não realizá-los adequadamente.
Mas a sociedade que nós queremos é simplesmente uma sociedade em que a competição seja justa? Em que os pontos de partida sejam iguais e, daí para a frente, cada um anda por si, de acordo com a sorte ou o talento?
Ou, de maneira mais radical: o único problema da "meritocracia" é que ela não funciona? Se ela funcionasse, estaria tudo bem?
Penso, ao contrário, que é preciso questionar tanto a ideia de competição quanto a ideia de mérito. A melhor sociedade certamente não se limita a dar a cada um o que lhe é devido, mas fomenta a solidariedade entre seus integrantes. A melhor sociedade não estimula que seus membros se vejam como competidores.
E o mérito, que aparece em muitos discursos como sendo um dom quase intangível, é ele também uma construção social e um fruto da sorte. Muitos talentos "inatos" não dão a seus possuidores a vantagem do mérito porque a sociedade não os valoriza enquanto tal. E o "inato", aliás, nunca é o talento, no máximo o seu potencial, uma vez que é preciso um estímulo social para que se manifeste.
Quanto mais inato pode ser considerado, por outro lado, mais é dependente de um acaso inicial. Eu poderia treinar à vontade e nunca teria corrido tão rápido quanto Usain Bolt ou alcançado a amplitude vocal de Kiri Te Kanawa; minha carência de "mérito" está entranhada em minha genética. Sou eu o responsável por ela?
Se o mérito depende da loteria genética, não há mérito em ter mérito. E se depende do ambiente social... também.
Levado ao extremo, o discurso do mérito conduz a uma sociedade aristocrática e ao desprezo pelos mais vulneráveis. Rousseau já observava isso; o Rawls do princípio da diferença, também. Nossa sociedade é hipócrita por se justificar como meritocrática sem sê-lo, mas nossas críticas a ela devem ir bem além disso.


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