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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A uberização da vida




A tecnologia e o trabalho vivem, nos últimos séculos, uma relação pontuada por uma série de episódios surpreendentes, quase sempre marcados pelo conflito.

Desde o início da era industrial, no século XVIII, os operários de fábricas são assombrados pelo espectro de sua substituição por máquinas. Naquela época, havia boatos, na Inglaterra, sobre o lendário general Ned Ludd, que incitava a invasão das tecelagens e a destruição das máquinas para conter o desemprego em massa.

Nunca saberemos ao certo se Ned Ludd realmente existiu. Contudo, o termo ludismo passou a ser incorporado pela literatura sociológica e filosófica como designando a revolta contra a tecnologia. Nas últimas décadas já se fala até em neo-ludismo,
um movimento radical que defende a reversão da humanidade para um estado pré-tecnológico.

É provável que ocorra algo semelhante a uma revolta ludita hoje em dia, se algumas promessas da tecnologia se concretizarem. Uma delas é a substituição dos motoristas profissionais pelo piloto automático do Google. Se isso ocorrer, presenciaremos a maior onda de desemprego dos últimos séculos. O fantasma, dessa vez, seria a inteligência artificial.

No entanto, já existe uma outra revolução em curso, que chega liderada pelo aumento crescente dos aplicativos. Além de nos disponibilizar serviços no esquema 24/7 (24 horas por dia, sete dias da semana), a internet começa, agora, a preencher nichos de tempo livre com trabalho. Chamo a esse fenômeno de uberização.

Frequentemente, o Uber é um aplicativo associado com a substituição dos taxis nas grandes cidades, mas é muito mais do que isso. Inicialmente, o projeto do Uber era organizar caronas solidárias nas grandes cidades. No entanto, alguns empresários perceberam que poderiam aproveitar o fato de que, hoje em dia, praticamente todas as pessoas dirigem carros e que, se essa força de trabalho fosse aproveitada e organizada por um aplicativo, os motoristas amadores poderiam, praticamente, assumir o mercado preenchido pelos taxis, bastando, para isso, fazer “bicos” em horas vagas.

Em pouco tempo, o Uber se tornou uma daquelas empresas arquibilionárias do vale do silício, cujo endereço é apenas alguma caixa-postal de algum paraíso fiscal caribenho.Com ele, vieram outros aplicativos para preencher com trabalho as horas vagas de muitas outras atividades profissionais. A advogada que está com poucos clientes pode compensar essa situação se souber fazer maquiagem. Há um aplicativo para chamá-la nas vésperas de eventos. Ela não precisa ser uma maquiadora profissional e, por isso, sabe-se que ela cobrará a metade do preço. Se você tem uma moto, pode maximizar seu uso fazendo entregas aos sábados em vez de deixá-la ociosa na garagem do seu prédio. Todo mundo está disposto a fazer “bicos”, e todo mundo, também, fica feliz quando pode pagar menos por um serviço.

A uberização é o trabalho em migalhas. Ela começa com a profissionalização do amadorismo, pois todos podemos ser motoristas, jardineiros ou entregadores nas horas vagas. Contudo, o inverso, ou seja, o rebaixamento de profissionais a amadores, já está acontecendo. Muitos profissionais qualificados estão se inscrevendo em aplicativos que os selecionam para prestar serviços a preços reduzidos em determinados horários ou dias da semana. É possível que, em pouco tempo, o trabalho qualificado se torne parte do precariado.

Ainda é difícil prever os resultados da uberização do trabalho. A relação contínua entre empregados e patrões tenderá a desaparecer, sobretudo no setor de serviços. A babá de seu filho, quando você for ao cinema com sua esposa, será escalada por um aplicativo e, dificilmente, será a mesma pessoa em todas as ocasiões. Não haverá mais o taxista de confiança ou o garçom que te reconhece sempre que você entra em um determinado restaurante.

Com a uberização, a liberdade e a coação se tornam coincidentes, pois todos se tornarão patrões de si mesmos. A dialética senhor-escravo, tão cara aos hegelianos e a seus herdeiros marxistas, desaparecerá. Pois todos seremos sempre ao mesmo tempo senhores e escravos. Exploraremos a nós mesmos de forma implacável.

A demarcação entre tempo livre por oposição ao horário de trabalho será ainda mais diluída. Todos se sentirão culpados por tirar uma soneca após o almoço de domingo em vez de aproveitar o tempo fazendo uma corrida de táxi para alguém que precisa ir ao aeroporto para viajar, provavelmente, a trabalho.

Na Antiguidade, os gregos desprezavam o trabalho. No mundo cristão, sobretudo com a reforma protestante, ele passou a ser associado com dignidade. Não ter emprego, não ter trabalho passou a corroer a autoestima de muitas pessoas. O homem contemporâneo ainda associa trabalho com dignidade, embora, paradoxalmente, esteja aceitando trabalhos cada vez mais indignos para sobreviver.

O sociólogo sul-coreano Byung-ChulHan aponta, no seu livro A sociedade do cansaço (Vozes, 2015), que não é por acaso que enfrentamos uma pandemia de depressão. De um lado, há metas inatingíveis, e de outro, apenas oferta de trabalho precário.

A precariedade da vida tende a se tornar um padrão. As novas gerações já sabem que o sonho da estabilidade ficou para trás. Como trabalhadores efêmeros e também consumidores efêmeros, a ideia de uma vida melhor no futuro, como resultado de uma carreira, tende a desaparecer.


João de Fernandes Teixeira é PHD pela Univesity Of Essex (Inglaterra) e se pós-graduol com Daniel Dennet nos Estados Unidos. É professor tirular na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).




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