segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os pseudo-liberais brasileiros




Liberdade, todos defendemos. Como cidadão humanista, defendo liberdade plena, autoral, responsável, isonômica.

Sou pela liberação do consumo de cannabis sativa, pela livre-iniciativa, pela total liberalização dos costumes, pela luta contra o trabalho escravo e suas formas contemporâneas (a miséria e a ignorância). Sou pela total liberdade de expressão, pelo direito de manifestação e pelo direito de ir e vir. Pela liberdade religiosa, e pelo direito de não se acreditar em mitos e entidades sobrenaturais. Pela liberdade ao estrangeiro e pelo apoio aos que precisam de ajuda para se libertar de quaisquer constrangimentos.

Liberdade sempre em contexto de equilíbrio e reciprocidade, como pensou o filósofo grego Anaximandro, como pensou Kant, como pensa a filosofia ética. O limite do meu direito é o teu, mas ambos agimos com liberdade.

Isto posto, cabe atenção com o quadro de usurpação e insensatez do movimento ideológico auto-intitulado liberal. No exterior, há variantes, mas no Brasil, predomina o que acima refiro como pseudo-liberalismo. Pseudo, porque fazem aqui uma versão tacanha e interesseira daquele movimento de ideias e programas políticos surgido entre o final do século XVIII e início do XIX; para os pseudo-liberais nativos, a cronologia é a.C., antes de Hammurabi, e a fraude impera. Quem são os pseudo-liberais, o que querem, como agem?

Primeiramente, são quase todos muito conservadores do ponto de vista comportamental. Recusam a liberalização dos costumes, em um ambiente de respeito e tolerância com as opções individuais.

Em segundo lugar, jamais, mas nunca mesmo, se preocupam com o maior ultraje à liberdade que é o trabalho escravo. Este é praticado no Brasil, e combatido por ativistas e pelo Estado, ambos muito atacados pelos pseudo-liberais. Os escravizadores são “empreendedores”: indivíduos e empresas que escravizam no campo (muito) e na cidade (bastante). Para o pseudo-liberal brasileiro, empreendedor é algo acima de santo, e São Empreendedor pode devastar, escravizar, destruir e deve, de preferência, pagar nenhum imposto. Alguém já viu um pseudo-liberal brasileiro denunciando empresas que usam trabalho escravo?

Vamos abreviar para PLB: Pseudo-liberal brasileiro. Quem são?

Trata-se no fundo de uma ideologia empresarial, gente que não quer pagar imposto. O nome correto, que já defendi em artigo, seria “isentário”, contentam-se com isenção fiscal, e chamam isso de liberdade, pois assim pensam contrapor-se ao Estado. Cabe dizer, neste caso, que a fonte ideológica é de empresários covardes, ineptos e/ou oportunistas, que não conseguem planejar e empreender diante de condição inata da ação social humana há 5.200 anos, o Estado e suas exigências. Revelam-se incapazes de planejar e pagar impostos. Querem imunidade fiscal negada a qualquer trabalhador. Esperneiam diante de uma guia fiscal como criança diante da injeção.

Estes covardes são também egoístas do pior tipo. Desconhecem a miséria existente e acham que a pobreza é culpa individual, ou produto de erro estatal. Para estes perturbados, o jovem herdeiro bem nascido em SP é um herói, e o pobre que luta para obter educação de qualidade e se tornar competitivo, uma ameaça.

Os PLBs não têm nenhuma solução para o problema da miséria existente e da desigualdade social. Esta é, desde sempre, a preocupação central de qualquer sociedade decente. Primeiro, por dever humanista: condições adequadas para todos é base ética e moral; segundo, porque a desigualdade produz sofrimento, rancor, tensão, violência e outros transtornos coletivos. Por fim, dando condições a todos, poderemos nutrir e educar uma menina pobre para que ela um dia, cientista, descubra a cura da malária, ou, musicista, encante o mundo. Desnutrida e pobre, esta menina acabará melecando a janela do carrão deste liberal egoísta, que permanecerá fechada. Não há em nenhuma ação, estudo ou elaboração escrita dos PLBs propostas para enfrentar o problema da miséria.

Há entre estes seres primários o mito de que a liberdade econômica gera prosperidade e que esta reverte em bem social compartilhado. É a maior pilhéria político-econômica de que se tem notícia. O capital visa engrandecer-se a si próprio, tende a se concentrar e facilmente torna-se desumano e agressivo contra a sociedade e o meio ambiente. A falta de mecanismo político de equalização das diferenças gera barbárie predatória. Ademais, este plano mítico não tem nada a dizer para a miséria real existente no dia de hoje, e suas metas de médio e longo prazo nunca se realizam, mas crescem ligeiro os benefícios econômicos que visam com as cobiçadas isenções fiscais, privilégios para quem tem o capital. Este mito é utopia ineficiente, ilustrada com casos de laboratório em micro-sociedades como a NZ e outras poucas, nas quais, entretanto, há aquilo que PLBs abominam, ensino público de qualidade, pago com impostos.

Nas páginas do principal instituto de defesa do pseudo-liberalismo brasileiro, o Von Mises, sabem como é tratado o ensino público? “educação paga com direito roubado”. Pode-se deduzir o restante. Lixo puro.

O pior deste lixo ideológico estamos vendo agora. É esta a fonte para ações de destruição social, cultural, científica, política, educacional e técnica sem precedentes.

Não à toa, esta mesma família ideológica recentemente gerou outro monstrengo mutante, o MBL, novo usurpador do termo liberdade, nova ferramenta dos covardes ignaros supracitados, e nova fonte de propagação da irracionalidade em nossa sociedade, com viés dramaticamente fascista.

Esta ideologia analfabeta promete caminho simples praticado com entusiasmo por gente igualmente simplória: alivia o Estado e está resolvido o problema. À falta, pois, de quaisquer soluções produtivas, que ampliem o desempenho econômico da sociedade, que agreguem valor a todos os produtos e serviços, que reforcem a qualificação de todos – ações estas que dependem todas, de maior carga de educação, ciência e cultura -, seguem o receituário medíocre e mesquinho de sempre. Corta, que resolve.

Ademais, estes PLBs hostilizam qualquer medida de correção fiscal, por meio de rigor contra a sonegação ou de cortes em incentivos fiscais. Assim, empresários sonegadores e apadrinhados de incentivos imensos e espúrios são defendidos, em contexto de absurda assimetria. No caso do RS atual, corta-se despesa pífia com fundações científicas, culturais, educacionais e de conhecimento técnico aplicado quando se ampliam os benefícios aos santos empreendedores, a chamada bolsa-empresário, de valores exorbitantes e indevidos, todavia intocáveis.

Logo, no mesmo passo em que denunciamos a estupidez das medidas tomadas pelo governo Sartori no RS, análogas a estultícies praticadas em plano federal, em outros estados e em nossa cidade, Porto Alegre, cabe identificar que a causa real desta onda de ataque bárbaro é a força e a naturalidade que esta ideologia inconsistente adquiriu na sociedade brasileira. De verdade inconteste a pacote pronto nem há um passo, é o mesmo movimento. Há uma fonte do mal e esta tem nome e sobrenome: liberalismo brasileiro. Há outros pseudo-liberalismos no mundo, e há liberalismo virtuoso, mas aqui se trata de plena primariedade cultural e forte agressividade política.

Pior de tudo: com toda esta vileza e com a usurpação de tempo e de meios de ação fundamentais, deixa-se de pensar a verdadeira liberdade e de se produzir as soluções necessárias para o desenvolvimento social. Deixa-se de planejar como libertar quem está preso na escravidão horrível da miséria, deixa-se de cultivar uma sociedade presidida pela ideia de liberdade, deixa-se de aplicar conhecimento para criar o futuro, e celebra-se a hegemonia de feitores rústicos, covardes, incapazes, incompetentes e até mesmo cruéis. Precisamos, pois, redefinir e reconstruir o sentido da liberdade, desmontando os usurpadores do termo (os PLBs), e encontrando soluções em praça pública, sem o “liberalismo” de bombas e helicópteros.

FRANCISCO MARSHALL - O SUL 21

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