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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

[ Parte 5 ] Versão farsesca da morte de Celso Daniel vira livro, cometido por jornalista ( sic ) da Veja



O jornalista Silvio Navarro caiu na rede de sustentação da farsa que colocou o bandido Dionísio de Aquino Severo na rota do assassinato do prefeito Celso Daniel. Obra falsa do delegado Romeu Tuma Júnior, Dionísio foi o grande lance que determinou a prisão temporária de Sérgio Gomes da Silva, primeiro amigo do então prefeito de Santo André.


Não se pode perder de vista que a introdução de Dionísio de Aquino Severo foi um lance importantíssimo para deslocar o assassinato do terreno exclusivo da operação de sequestrados pés de chinelo da Favela Pantanal, em Diadema, para as instâncias administrativas do Paço Municipal de Santo André. Não fosse o enxerto de um personagem estranho aos acontecimentos, a esburacada bifurcação do caso Celso Daniel para o terreno político-administrativo jamais teria prosperado.

Dionísio de Aquino Severo foi plantado na cena do crime na versão do Gaerco (Grupo de Apoio Especial Regional para Prevenção e Repressão ao Crime Organizado) criado pelo governador Geraldo Alckmin para combater a narrativa do PT de que o assassinato de Celso Daniel passava obrigatoriamente pelo quadro de criminalidade insustentável na Região Metropolitana de São Paulo.

Dionísio de Aquino ganhou uma configuração toda especial porque fugiu espetacularmente de Guarulhos junto com outro presidiário, Ailton Feitosa. A cinematográfica evasão de helicóptero ocupou o noticiário de emissoras de radio e televisão no dia anterior ao sequestro de Celso Daniel.

A conclusão do inquérito sobre a morte de Dionísio de Aquino Severo foi antecipada por mim em janeiro de 2007 e confirmou a primeira versão da Polícia Civil e Polícia Federal que investigaram e encerraram o caso Celso Daniel em 2002. Mais tarde, novas investigações da Polícia Civil retiraram Dionísio de Aquino do lugar que lhe tentaram impor.

O inquérito específico da morte de Dionísio de Aquino Severo correu à parte da apuração do assassinato do prefeito Celso Daniel. Dionísio foi morto pouco tempo depois de o corpo de Celso Daniel ser enterrado. Ele integrava o CRDB (Comando Revolucionário Democrático Brasileiro), facção criminosa adversária do predominante PCC (Primeiro Comando da Capital).

Tuminha em cena
Logo após o assassinato apareceu em cena o delegado Romeu Tuma Júnior com a versão de que Severo Aquino lhe teria afirmado informalmente participação no sequestro de Celso Daniel. Romeu Tuminha é inimigo político declarado do Partido dos Trabalhadores. Recentemente escreveu um livro sobre mazelas da administração federal petista e reservou um capitulo risível ao caso Celso Daniel. Tuminha era delegado-titular da Seccional da Polícia Civil de Taboão da Serra.

Para os policiais do DHPP, a versão de Tuminha não resistia aos fatos apurados. Dionísio Aquino inventou a relação com o caso Celso Daniel para tentar evitar o esfaqueamento que o vitimou. Os policiais reuniram provas suficientes de que a ação que culminou no assassinato do prefeito foi idealizada por bando de criminosos da Favela Pantanal, em Diadema.

As investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal logo após o assassinato em 2002 jamais constataram qualquer vínculo de Dionísio Aquino com os sequestradores de Celso Daniel. Grampos telefônicos que nortearam investigações e prisões não detectaram também qualquer relação entre os bandidos e o Paço Municipal de Santo André. Houve sim indícios de possíveis irregularidades administrativas, o chamado caixa dois, em diálogos trocados entre integrantes do governo municipal. Mais tarde, a Justiça de Santo André condenou os envolvidos, entre os quais Sérgio Gomes da Silva.

Sapo versus cobra
Ouvi em novembro de 2005 em entrevista para a revista LivreMercado o delegado estadual Armando de Oliveira Costa, do DHPP. Ele afirmou categoricamente que as diferenças entre as duas facções criminosas que atuavam em São Paulo -- o PCC e o CRDB -- eliminavam qualquer possibilidade de aproximação entre Dionísio de Aquino Severo e o bando que atacou Celso Daniel e Sérgio Gomes da Silva. “Sapo não anda com cobra” – afirmou o policial com então 30 anos de experiência.

Apesar de tudo isso, foi a suposta proximidade com Dionísio de Aquino Severo que levou Sérgio Gomes da Silva à prisão por oito meses. Sérgio Gomes foi denunciado pelos promotores criminais de Santo André na sequência de martelar ininterrupto de acusações. Jornais, revistas, sítios de Internet e emissoras de rádio e televisão viraram caixas de ressonância da artificialização de ambiente de “clamor popular” que levou o juiz de Itapecerica da Serra, Luiz Fernando Migliori, a decretar prisão preventiva.

Em abril último o jornal El País, da Espanha, na versão digital em português, ouviu o delegado Marcos Carneiro Lima, que trabalhou na Divisão Antissequestro da Polícia Civil de São Paulo entre os anos 1990 e 2000. Trabalhou também na Corregedoria da Polícia e no DHPP. Depois, como delegado geral em São Paulo, comandou a Polícia Civil.

Apenas coincidência
Ele considera coincidência o fato de Celso Daniel ter sido sequestrado em 18 de janeiro de 2002 e no dia anterior Dionísio de Aquino Severo escapar do presidio de Guarulhos. “A primeira vez que o prendi – disse o delegado, referindo-se a Dionísio – em 1998, ele me disse que ia fugir. Tinha dinheiro guardado, era um sujeito articulado. Tanto que o prendi no Litoral, Praia Grande, onde tinha até um programa de rádio. Mas ele estava articulando uma facção de contraponto ao Primeiro Comando da Capital, e estava jurado de morte. Por isso ele fugiu, com a ajuda do filho dele, que deveria tê-lo resgatado uma semana antes, mas bebeu demais e perdeu o horário. Ele não tinha nada a ver com o sequestro. E precipitaram essa relação, o que foi um erro crasso da polícia, trabalhando teorias como se fossem verdadeiras” – afirmou o delegado.

O delegado vai mais longe: “Quando o Dionísio foi preso, dizia que sabia de muita coisa sobre o caso Celso Daniel e que só responderia em juízo. Mas diz isso para ganhar tempo. Com medo do PCC. Daí se comete um erro crasso do sistema judiciário, de deixá-lo detido num lugar onde havia outros presos. Uma pessoa de cadeira de rodas se levanta e o mata. Era um preso ligado ao PCC”.

Fora do roteiro
Ouvi em abril de 2006 numa entrevista exclusiva o delegado federal José Pinto de Luna, um dos destacados pela Polícia Federal para apurar o assassinato do prefeito Celso Daniel. Entre as questões abordadas constou a suposta participação de Dionísio Severo de Aquino no crime. “Em nenhum momento aparece o Dionísio. Em nenhum momento. As gravações estão aí com o pessoal da CPI dos Bingos. Está disponível para quem quiser ouvir. Em nenhum momento aparece nada vinculando o Dionísio ao crime. Repito: até onde investigamos, não aparece nada”. Afirmou o delegado.

Insisti na pergunta. Ele foi enfático outra vez: “Aventamos somente uma hipótese: e se esse pessoal que prendemos estivesse alheio à outra parte da quadrilha, no caso do Dionísio. Uma suposição para tornar o enunciado mais claro: o Dionísio conhece o Edson a quem encomenda o sequestro e o Edson compartimenta essa operação com os outros. Poderia haver uma compartimentação? Poderia. É possível que o Itamar, o Bozinho e o John, que também estava na Blazer, estivessem alheios a que aquele carro conduzia o prefeito de Santo André? É possível. Mas, espere aí: se eles vão sequestrar um cara do Ceasa e a operação não dá certo, e eles dizem, em seguida, “vamos pegar aquele carro importado que está ali” e os caras já sabem que é o do prefeito de Santo André, teria de haver uma comunicação do Edson e isso não houve. A intenção de abordar aquele carro foi do Bozinho e do Itamar. Eles resolveram abordar o carro em que por acaso estava o Celso Daniel. Ninguém os orientou nesse sentido. Por isso, a possibilidade de compartilhamento está descartada” – afirmou José Pinto de Luna, o delegado federal.


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