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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

[ Parte 1 ] Versão farsesca da morte de Celso Daniel vira livro, cometido por jornalista ( sic ) da Veja


Acaba de sair o primeiro livro voltado exclusivamente ao assassinato do prefeito Celso Daniel. Poderia ser meu, mas ninguém topa enfrentar a opinião pública que consolidou a versão farsesca exaustivamente martelada por integrantes do Ministério Público de Santo André. Azar da verdade. Ovação à ficção.

O jornalista Silvio Navarro, editor do site da revista Veja, provavelmente terá portas abertas para dar continuidade a uma carreira de 12 anos, depois de formar-se na Universidade Metodista de São Bernardo. Ele ressuscitou o caso Celso Daniel após 14 anos de muita baboseira. Reproduziu exatamente o que a demanda de ignorantes tanto anseia. Agora o que temos é uma besteiragem pronta a ganhar espaço nas estantes e bibliotecas. Somos uma sociedade condenada às estripulias também literárias.

Silvio Navarro seguiu rigorosamente o roteiro de quem prefere o conforto e o horizonte promissor a enfrentar obstáculos de quem ousa contrariar a manada, respaldado por minuciosas investigações policiais. O jornalista transformou quase 250 páginas em repetição pasteurizada de muitas (mas nem todas) as barbeiragens dos grandes veículos de comunicação do País (e nos desdobramentos, da mídia em geral) sobre o caso.

Silvio Navarro foi aos arquivos e requentou o material jornalístico com o caradurismo de quem sugere ao leitor que investigou detalhadamente o caso durante todo o processo de acertos e desacertos. Só poderia mesmo se dar mal.

Verniz intelectual
É fato que Silvio Navarro deu ao caso certo verniz intelectual, mas faltaram ingredientes para fazer de uma maçaroca de suposta literatura algo palatável como ferramenta de pesquisa séria. Acautelem-se curiosos de boa alma. O diabo não mora apenas nos detalhes do livro de Silvio Navarro. Está escancaradamente em muitas páginas.

A dúvida que perpassa quem leu o livro num único folego (como o autor, também sou obcecado pelo caso Celso Daniel) é se Silvio Navarro agiu com desonestidade intelectual. Não faltam condimentos do vatapá de desconfiança que embrulha o estômago de quem leva jornalismo a sério, mas uma acusação como essa não é pouca coisa. Há elementos que recomendam essa avaliação porque não são equívocos pontuais. Desenvolveu-se uma cadeia de suprimentos escorregadios do ponto de vista da informação.

É possível, entretanto, que o autor não tenha tido suficiente preparo técnico e organizativo para escrever sobre assunto tão candente e controverso. Também pode ter sido movido pelo combustível ideológico, de antipetismo politicamente alvissareiro nestes tempos, mas repugnante a quem preza a verdade dos fatos.

Silvio Navarro possivelmente se lançou à empreitada considerando ao considerar o quanto fortaleceria os laços com coleguinhas da mídia que pensam como ele e que, claro. O mundo do jornalismo também é feito de alinhamentos diversos. É possível que Silvio Navarro nem precise disso, levando-se em conta o nível da produção jornalística do País. Ele escreve corretamente no sentido jornalístico.

Quem sabe Silvio Navarro ao escrever sobre o caso Celso Daniel tenha sido levado pela multiplicação de todos os vetores expostos acima?

Depuramento crítico
Tudo é passível de especulação em torno do livro que une dois polos inconciliáveis do caso Celso Daniel. O autor não teve depuramento crítico para indicar que se embrenhou numa seara com o compromisso de contemplar todas as fontes necessárias. Traduzindo: Silvio Navarro comportou-se com tamanho improviso estratégico a ponto de exalar, a cada página, vocação quase descontrolável ao engajamento compulsório com figurinhas carimbadas nas artimanhas de criminalizar uma das vítimas do sequestro -- Sérgio Gomes da Silva, vilão preferido dos ignorantes, dos desinformados e também dos deformados.

Não sei quantos capítulos vou contrapor a página de “Celso Daniel, política, corrupção e morte no coração do PT”. Quando comprei o livro na tarde de domingo na Livraria Saraiva do Shopping Metrópole, em São Bernardo, imaginava que até a noite de ontem teria consumido páginas suficientes para emitir, neste texto, juízos de valor preliminares e, portanto, passíveis de remanejamentos.

Como terminei a leitura no começo da tarde de ontem, e tive o cuidado de sempre de fazer anotações no próprio volume impresso, não tenho dúvidas sobre o que alinhavar de forma definitiva. Por isso, talvez uns 10 capítulos, em datas erráticas, serão suficientes para escarafunchar as deficiências do livro.

Para que os leitores tenham ideia mais precisa do que está a esperar pelo jornalista Jaime Navarro, reproduzo alguns tópicos que listei à parte das anotações nos espaços em branco do livro, na medida em que mergulhava na obra. Reparem com atenção nos núcleos conceituais que reservei:

Contradições interpretativas.

Omissões protetivas às fontes.

Incidência exagerada de tangenciamento temático.

Indução deliberada à criminalização de um inocente.

Manipulação de informações.

Improvisação ou incompetência na hierarquização e focalização das informações.

Detalhismo romanceado sem riqueza técnica.

Tentativa inútil de esconder as fontes viciadas.

Pasteurização da narrativa para compensar buracos negros.

Industrialização de dúvidas em contradição com as certezas inescapáveis.

Industrializando fantasias
Se a intenção de Silvio Navarro (todas as resenhas do final de semana levam a esse desenlace) é transformar o livro de Celso Daniel em filme, provavelmente teremos mais uma etapa de conluios ao ajuntamento de duas peças de mosaicos diferentes que as investigações policiais, ou seja, especialistas na matéria, cansaram de provar e comprovar serem incompatíveis. O assassinato do prefeito Celso Daniel não correu jamais na mesma raia do esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André.

Mas essa verdade irrebatível para quem entende alguma coisa de investigação séria não foi levada em conta (muito pelo contrário, serviu de plataforma de embarque ao sensacionalismo da vertente de crime conjunto) pelo jornalista Silvio Navarro.

Como se explica tamanho descuido? Simples, muito simples: o jornalista que comanda o site de Veja preferiu a conexão de fatos mal-apurados pela grande mídia e um ficcionismo ditado pela associação mais que esperta, embora também ingênua, de verdades e bobagens.

Talvez o único sinal de sensatez (é possível que tenha sido obra do acaso) que o livro destila é a indução de levar o leitor a acreditar em cada página impressa. Trata-se de uma mistureba de fatos e abstrações com força suficiente para cristalizar a confiança de que foram rigorosamente obedecidos critérios de pluralidade e veracidade e, portanto, de responsabilidade informativa.

Com as costas largas
Quando se tem as costas largas da mídia para oferecer ao público algo tão grosseiramente frágil, tudo é possível. Não foi assim, afinal, que o Ministério Público de Santo André, mais precisamente os homens que o governador Geraldo Alckmin escalou na região para melar as investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal, chegou ao que tanto queria, menos à prisão de Sérgio Gomes da Silva, exceto durante sete meses?

O que queriam, afinal? Retirar o crime da esfera exclusivamente policial, de desmilinguamento do setor de Segurança Pública na metrópole paulista naquele começo de novo século (essa é uma verdade que o livro aponta, mas sem considerações indispensáveis) e deslocá-lo à esfera da administração pública na forma de inacreditável e inverossímil assassinato da galinha dos ovos de ouro. Tudo como retaliação à politização do assassinato por um PT obcecado pela presidência da República e que, por isso mesmo, conhecia e compartilhava todos os passos republicanos e não-republicanos do grupo que controlava a gestão de Celso Daniel.

No espaço de “Agradecimentos” de “Celso Daniel, política, corrupção e morte no coração do PT”, o autor entrega a rapadura da agenda traçada para produzir o livro. Salvo um ou outro nome possivelmente citado para despistar, numa verdadeira Operação Tabajara, está identificada uma leva de profissionais de comunicação que, faça chuva de verdade ou faça sol de mentiras, não dá sossego ao Partido dos Trabalhadores.

Quem apontar que tamanho descuido tem vigoroso parentesco com deduragem involuntária não merece castigo. O autor do livro poderia livrar-se do desmascaramento público. Afinal, aqueles nomes de jornalistas na página de agradecimentos são a expressão comprobatória de parte das fontes a quem recorreu para requentar com tempero razoavelmente sofisticado um assassinato sem qualquer vínculo com a gestão pública de Santo André.

Os membros do Ministério Público e o atrapalhadíssimo delegado Romeu Tuminha completam a lista de prioridades consultadas pelo jornalista de uma nota só – a nota da criminalização de um inocente a quem identifica em todas as intervenções pelo codinome forjado pela força-tarefa do Ministério Público de Santo André. Sérgio Gomes da Silva era “Sombra” para alguns poucos da cúpula petista em Santo André. Não havia conotação pejorativa alguma. Sérgio Gomes da Silva era espécie de irmão siamês de Celso Daniel.


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