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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Como o monstrinho se recria e procria

Evaristo Galimetto trabalhava há anos numa grande empresa. Bom salário, carreira, subir na vida. Bastava vestir a camisa da firma, gerir o foco, estabelecer objetivos e correr atrás dos sonhos. A chefia, sempre atenta ao funcionário que se destacava competitivamente, reconhecia os esforços e recompensava os resultados.

Um dia, Evaristo Galimetto passa em frente a uma banca de jornal e lê a manchete estampada num dos jornais expostos:

"PASSA A LEI DAS 80 HORAS. EMPRESÁRIOS COMEMORAM. BOLSA SOBE" Na foto, a figura do deputado Acepipe Jordão. Este deu o seu voto assim: "Em nome de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo, do cidadão de bem do Brasil, do meu pai e avô que me garantiram minha humilde fazendinha, eu voto SIIIIMMMM! Chega de vagabundagem! Trabalho não mata ninguém!"

Abaixo dessa notícia: "Vanêssya Gomide fatura título de Rainha Rabuda 2017 e faz selfie que deixa fãs babando".

- Uai - pensa Evaristo Galimetto - não era história pra boi dormir? Quer dizer que passou mesmo?

Num lance de ousadia, Evaristo Galimetto consegue puxar um exemplar do jornal sem o jornaleiro perceber, e lê inteirinho o editorial. Lá ele foi informado de como aquilo era bom para o Brasil.

- FUDEU!, diz em voz alta, o que chamou a atenção do jornaleiro, que veio prontamente atender o frguês:

- Posso ajudar? Quer uma sacolinha pro jornal?

- Não, eu só tava dando uma olhadinha.

- Hunf! Sei a olhadinha!, respondeu gentilmente o jornaleiro. Já estava acostumado com as "olhadinhas" que o povo dava em seus jornais e revistas, deixando as publicações amassadas, dobradas e às vezes até babadas. Aquele povo que molha o dedo com a saliva pra virar a página.

( *** )

Evaristo Galimetto chega na firma e, antes mesmo de pegar uma caneta e umas folhas de sulfite pra levar pra casa, como costuma fazer quando acabam, seu chefe do setor o aborda:

- Você viu? Agora a lei é outra e as coisas vão mudar. Bom pro Brasil.

Evaristo Galimetto olha pro chefe, seu Abílio, e responde:

- E como vai ficar?

- Olha, não conta prá ninguém...A chefia vinha prevendo que a lei passava e já tinha providenciado o "Plano B", digo, era o "Plano A" mesmo.

- E daí?

- Então. Vão mandar todo mundo embora e contratar uma molecada esperta e com gás, e que nunca trabalhou antes. Como essa molecada vai entrar sem saber como era trabalhar antes da lei, então eles vão achar tudo normal.

- Mas...todo mundo?

- Então. Ele pediram pra falar contigo. Você tá garantido, se quiser ficar.

- Oitenta horas?

- Sim, claro. Mas em vez dos outros, que vão ser despedidos sem negociação, é zéfini, você pode ficar. Eles gostam de você. A prova disso é que estão deixando você ficar. O resto é rua.

Evaristo fica emocionado diante daquela distinção toda, daquele tratamento diferenciado, em que os chefes demonstravam apreciar todo o esforço e dedicação do funcionário, despendidos por ele nestes anos todos.

- Na verdade eles precisarão que você fique, já que alguém terá que ensinar e monitorar a molecada. Até nos fins de semana. Pensa na grana das horas extras. Evaristo, parabéns! É só boa notícia para você!

- Seu Abílio, acho que não vai rolar.

- O quê? Como assim?

Em poucos minutos de conversa com o chefe, Evaristo decidira sair. Iria bolar um negócio pra si, trabalhar por conta. Se fosse pra trabalhar 80 horas semanais, e até nos fins de semana, então faria isso, mas pra ele mesmo. "Oitenta horas é exploração!", pensou.

( *** )

E assim aconteceu. Como sabia muito bem fazer churrasco, ele alugou um salãozinho perto de casa e começou a oferecer espetinhos. Deliciosos e baratos. Pertinho ali do Metrô Carrão. 

A notícia correu e o negócio vingou.

Com pouco tempo de vida, o negócio prosperou a ponto de necessitar um espaço maior. E assim Evaristo alugou outro salão, maior. E a clientela chegando. Sua mulher o ajudava da maneira que dava, e assim foram levando a vida. Evaristo, muito orgulhoso e satisfeito. Queria ver a cara dos ex-chefes, se soubessem do sucesso que ele havia conquistado.

- Essa lei veio em excelente hora! Se não chegasse, eu seria peão até aposentar. AGORA é que eu tô ganhando dinehiro. Devia ter feito isso antes.

( *** )

Um dia, percebendo que não dava mais conta sozinho do trabalho, e que precisava de ajuda, colocou um anúncio no jornal do bairro. Assim, ele daria emprego e oportunidade de crescimento para alguém.

Não demorou, e logo um indivíduo apareceu em resposta ao anúncio. Evaristo pediu que esperasse um pouco. Tava com umas carnes no fogo e tinha que dar atenção a elas.

- Tudo bem!, respondeu o sujeito.

Minutos depois, Evaristo foi falar com o candidato, contou como seria o serviço, o que ele precisava que o funcionário fizesse, explicou tudo direitinho. Em resumo, apresentou suas exigências.

- E o horário?,perguntou o candidato.

- Ah, sim. São 80 horas semanais e...

FIM

...




...

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