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sábado, 16 de julho de 2016

Presidente Bashar al-Assad da Síria, entrevista à NBC News: "Terrorismo na Síria aumentou e se firmou com os EUA e só caiu quando chegaram os russos"


"Perguntas tolas, enviesadas ou pervertidas, de jornalista idiota. Mas respostas ótimas"
(Moon of Alabama, 14/7/2016, 7h, pelo Twitter)

Jornalista: Sr. Presidente, obrigado por receber a NBC News, para responder algumas perguntas importantes.
Presidente Assad: Os senhores são muito bem-vindos em Damasco.

Pergunta 1: Há algumas semanas, o senhor disse a deputados sírios que retomaria cada polegada do território da Síria. O Departamento de Estado dos EUA interpretou seu comentário como "delirante." O senhor está ainda muito longe de vencer essa guerra, não? E ainda mais longe, de retomar cada polegada da Síria. 

Presidente Assad: Na verdade, o Exército sírio conseguiu muitos avanços recentemente, e esse é o objetivo de qualquer exército ou qualquer governo. Não me parece que a opinião dos EUA nessa questão tenha qualquer importância. Não manifesta qualquer respeito à lei internacional, nem à Carta da ONU. Não mostra respeito à soberania de um país que tem pleno direito de assumir o controle da própria terra.

Pergunta 2: Mas de quanto tempo o senhor acha que ainda precisa para ganhar esta guerra?

Presidente Assad: O senhor está falando de algo que se relaciona com vários fatores. O fator mais importante é por quanto tempo os que apoiam e mantêm os terroristas continuarão a apoiá-los e mantê-los, especialmente Turquia, Qatar e Arábia Saudita, com o aval de alguns países ocidentais, inclusive dos EUA. Se os terroristas não forem apoiados e financiados, não precisaremos de mais do que uns poucos meses.

Pergunta 3: Alguns meses... O senhor sabe, estive aqui dez vezes e sempre ouvi os governantes dizerem "em um mês retomaremos Homs", em seis meses, outro lugar. E sempre demora mais que isso. Falando com realismo: faltam ainda anos, não é?

Presidente Assad: Exatamente por isso, eu disse que tudo depende de quanto apoio os terroristas receberão, quantos serão recrutados pela Turquia com dinheiro da Arábia Saudita, para que mais e mais terroristas venham para a Síria. O objetivo deles é prolongar a guerra o mais que possam. E têm tido sucesso. Quero dizer: depende do que o senhor está perguntando. Se quer saber quanto demorará, como conflito sírio, isolado, posso dizer que não demorará mais que alguns meses. Mas se nosso conflito sírio não estiver isolado, como hoje não está, sofrendo com a interferência de muitos poderes regionais e internacionais, nesse caso demorará muito mais, e ninguém tem a resposta para a sua pergunta. Ninguém sabe como a guerra vai-se desenvolver.

Pergunta 4: Há um ano, a guerra tinha desenvolvimento muito diferente. O senhor fez um discurso em que disse que estavam sem soldados, que relutantemente tiveram de ceder algumas áreas. Depois disso, o que mudou? Foi a Rússia, que entrou na guerra? A Rússia é a verdadeira razão da virada pela qual passa a guerra, não? Que a Rússia tenha-se aliado ao senhor?

Presidente Assad: Sem dúvida, o apoio que os russos deram ao exército sírio, sim, fez a balança pender contra os terroristas.

Pergunta 5: É o fator crucial?

Presidente Assad: Sim, é, sem dúvida. Ao mesmo tempo, Turquia e Arábia Saudita enviaram mais tropas depois da chegada dos russos, mas, apesar disso, os russos foram o fator crucial, como o senhor disse.

Pergunta 6: Significa que o senhor deve muito ao presidente Putin.

Presidente Assad: Muitos se posicionaram ao nosso lado, russos, iranianos e até chineses. Cada um a seu modo, em termos políticos, militares ou econômicos, porque nunca é qualquer fator isolado. Não se pode falar só de poder de fogo ou recursos humanos. É questão multifatorial. Todos esses países apoiaram a Síria, ao lado de outros países que apoiaram em menor grau.

Pergunta 7: O Presidente Putin exigiu algo da Síria? Qual é o acordo?

Presidente Assad: Quando decidiu atender ao nosso pedido de ajuda? Não, não pediu nada.

Pergunta 8: Nada?

Presidente Assad: E por uma razão muito simples: em primeiro lugar, as políticas dos russos são construídas sobre valores. Isto é muito importante. A segunda coisa, o interesse dos russos é também interesse dos sírios, porque todos aqui estamos combatendo contra os mesmos terroristas que atacam na Rússia, os mesmos que atacam na Europa, nos EUA, em todo o mundo. Mas a diferença entre o Presidente Putin e outros funcionários ocidentais é que ele sempre viu isso com clareza. Outros governantes, na Europa e no ocidente em geral, não, não veem. É por isso a ação dos russos na Síria é baseada em valores e, ao mesmo tempo, considera sempre o interesse do povo russo.

Pergunta 9: O senhor fala frequentemente com ele?

Presidente Assad: Quando há algo a falar, sim, claro que falamos. Ou através de especialistas e autoridades sírias e russas.

Pergunta 10: Quantas vezes, por exemplo, este ano, o senhor falou com ele?

Presidente Assad: Não contei. Mas, sim, falamos muitas vezes.

Pergunta 11: E como o senhor descreveria seu relacionamento com ele?

Presidente Assad: Relacionamento sincero, muito honesto, de mútuo respeito.

Pergunta 12: Mas ele nada exigiu do senhor, é isso?

Presidente Assad: Nada, absolutamente nada.

Pergunta 13: Porque há suspeitas de que a Rússia estaria trabalhando em acordo com os EUA, e o secretário Kerry está reunido com Vladimir Putin hoje [5ª-feira, 14/7] em Moscou. Acredita-se que podem estar chegando a algum tipo de acordo que talvez traga más notícias para o senhor.

Presidente Assad: Em primeiro lugar, sobre a primeira parte de seu comentário, se o presidente Putin quisesse pedir, ele pediria que nós combatêssemos terroristas, porque este é interesse do presidente e da Rússia. Segundo, quanto ao que o senhor diz sobre reuniões de russos e americanos em que discutiriam a questão síria... São boatos que se espalham para dar a impressão de que eles, não nós, estariam decidindo o que acontecerá na Síria. Muitas vezes, as autoridades russas já disseram claramente que a questão síria é assunto para o povo sírio decidir. Ainda ontem, o ministro Lavrov disse claramente que não podem sentar-se com os americanos para definir o que os sírios querem fazer. Esta é questão síria. Só o povo sírio pode definir o futuro do seu país e como resolver seu problema. O papel da Rússia e dos EUA é oferecer o ambiente internacional, para proteger os sírios de qualquer intervenção. 

O problema aí é que os russos são honestos, mas os americanos não cumprem nada do que nos prometam. Mas não estão reunidos para decidir sobre o que temos de fazer, nós mesmos, como sírios.

Pergunta 14: Então, só para ficar claro: nem o ministro Lavrov nem o presidente Putin jamais falaram com o senhor sobre transição política, sobre um dia em que o senhor deixar o poder? É questão de que jamais se cogitou?

Presidente Assad: Nunca, porque, como eu disse, essa é questão que cabe ao povo sírio resolver. Só o povo sírio define quem será o presidente, quando assumirá e quando deixará a presidência. [Putin, Lavrov] Jamais me disseram uma palavra sobre isso.

Pergunta 15: E o senhor não está nem um pouco preocupado com a reunião entre o secretário Kerry e o presidente Vladimir Putin, que decidam que o senhor pode ter de deixar o poder?

Presidente al-Assad: Não, por uma razão: porque a política dos russos não se baseia em conversas de gabinete e 'negócios', mas em valores. Por isso ninguém tem notícias de acertos entre russos e norte-americanos, por causa de princípios diferentes. A política norte-americana só tem a ver com negócios, sem considerar valores. Com os russos é diferente.

Pergunta 16: Mas é claro que não é só a Rússia quem bombardeia os inimigos da Síria: também os EUA. O senhor considera bem-vindos os ataques aéreos dos EUA contra o ISIS?

Presidente Assad: Não. Porque não são legais. Em primeiro lugar, porque são ilegais.

Pergunta 17: Mas os ataques russos tampouco são legais, não é?

Presidente Assad: Os russos foram convidados, atenderam pedido que fizermos a eles. Foram formal e legalmente convidados pelo governo sírio. Qualquer governo tem pleno direito de convidar qualquer outro país para ajudar em qualquer problema. Os russos, portanto, estão legalmente na Síria. Os norte-americanos não, nem eles nem seus aliados, nenhum desses exércitos está legalmente na Síria. Isso, em primeiro lugar. Em segundo lugar, desde o início da intervenção russa, o terrorismo está, pode-se dizer, em regressão. Antes, e durante a intervenção ilegal dos EUA e aliados, o ISIS estava em expansão e o terrorismo só crescia e estava entrando em novas áreas na Síria. Os norte-americanos não são sérios. Não posso dar boas vindas à falta de seriedade e a uma presença ilegal em nosso país.

Pergunta 18: Milhares de missões, centenas de ataques aéreos... E os EUA não são sérios na Síria?

Presidente Assad: A questão não é quantos ataques. A questão é: o que conseguem? Essa é a questão. A realidade é eloquente e, desde o início dos ataques dos norte-americanos o terrorismo só fez ampliar-se e firmar-se, não o contrário. Com os russos ativos, o terrorismo regrediu. A realidade é essa. Temos de falar sobre fatos, não sobre alguma ação que os norte-americanos empreendam pro forma. 

Pergunta 19: Então, ataques aéreos norte-americanos são ineficazes e contraproducentes?

Presidente Assad: Sim, quando fazem aumentar o terrorismo, são contraproducentes, sem dúvida. Está correto.

Pergunta 20: De quem é a culpa? É erro militar, ou se trata de o presidente Obama simplesmente não ser, digamos, cruel o suficiente?

Presidente Assad: Não, nada disso. Em primeiro lugar, não se trata de ser cruel; trata-se de ser genuíno. Tem a ver com as reais intenções, tem a ver com ser sério, com ter vontade. Os EUA não têm vontade de derrotar os terroristas; gostariam de controlá-los e usá-los como carta no jogo, como fizeram no Afeganistão. Trata-se dessa vontade, que deve refletir-se no aspecto militar da questão. Se o senhor quiser comparar, dez ou doze ataques aéreos dos aliados americanos na Síria e no Iraque são militarmente nada, comparados com mais de 120, 130 ataques aéreos russos em algumas áreas na Síria. Mas essa ineficácia militar é manifestação da fraca vontade política.

Pergunta 21: Havia uma vontade política, como o senhor diz, para removê-lo do poder. Era a vontade de Washington. Agora, parece ter mudado. O senhor tem alguma ideia de por que os EUA mudaram de ideia, aparentemente, sobre o seu futuro?

Presidente Assad: Não, porque o problema com as autoridades norte-americanas é que mascaram as intenções, falam numa direção, mas agem noutra. Nunca se pode saber quais são suas reais intenções. O que eu tenho certeza é que os EUA não têm boas intenções para com a Síria. Talvez sejam jogadas, táticas, manobras. Mas acredito que, mudar, eles não mudaram suas intenções.

Pergunta 22: O presidente Obama queria vê-lo fora do governo. Agora, é ele que está de saída, e o senhor permanece. O senhor o derrotou?

Presidente Assad: Não, não é disputa entre eu e ele. É entre o presidente da Síria e forças que querem destruir a Síria, principalmente, os terroristas dentro da Síria agora. Só aí podemos ganhar como sírios; se conseguirmos nos livrar desses terroristas, se pudermos restaurar a estabilidade na Síria, só aí há vitória para nós. Em nenhum outro caso se trata de vitória.

É verdade que os norte-americanos não tiveram sucesso em seus planos, que foi um fiasco. Mas não significa que nós ganhamos a guerra. Tenho de ser realista e preciso, tenho de escolher bem as palavras a esse respeito.

Pergunta 23: Mas um dos principais objetivos do presidente Obama, que era removê-lo do poder, claramente falhou. Ou não?

Presidente Assad: Sim, eu disse que falhou, mas isso não significa que eu tenha vencido, porque para ele a guerra é mudar o meu regime, mas para mim a guerra não é permanecer onde estou. Não estou guerreando alguma guerra "minha", para ficar. Minha guerra é para preservar a Síria. Não me importa se fico ou não, se os sírios decidirem que não devo ficar. Pouco me importo com o que os outros presidentes queiram; só me importo com o que os sírios querem. Se eles querem que eu fique, eu fico; se querem que saia, eu saio. É outra coisa, completamente diferente.

Pergunta 24: O senhor sente que os EUA compreenderam fundamentalmente mal a sua guerra com o ISIS, contra o que se pode chamar de um inimigo comum?

Presidente Assad: Mais uma vez: não é um inimigo comum, porque, para nós, é genuína a nossa luta contra o ISIS, mas também contra al-Nusra e cada afiliado à organização Al Qaeda dentro da Síria. Todos eles são terroristas. Então, se o senhor quiser falar não só sobre o ISIS, mas sobre todos os grupos terroristas: nós queríamos nos livrar dos terroristas, queríamos derrotar os terroristas. E os EUA queriam gerir esses grupos, a fim de derrubar o governo sírio. Por isso lhe digo que não se pode falar de interesse comum, a menos que os norte-americanos realmente quisessem combater os terroristas para derrotá-los. Mas não foi o que fizeram. Estavam no Iraque em 2006, e não tentaram derrotar os terroristas.

Pergunta 25: Mas os EUA são muito sinceros e honestos sobre combater o ISIS. ISIS é uma ameaça para ao território americano. Como o senhor pode dizer que EUA não são sérios sobre combater contra o ISIS?

Presidente Assad: Porque o ISIS foi criado no Iraque em 2006, enquanto os EUA, não a Síria, estavam no Iraque. Cresceu sob a supervisão da autoridade norte-americana no Iraque, e nada foi feito contra o ISIS naquele momento. Então, por que o combateriam agora? Não há por quê, e os EUA não combatem o ISIS hoje. Os terroristas só fazem expandir-se sob a supervisão dos aviões americanos. Lá de cima, é possível até que estejam vendo o ISIS operando os campos de petróleo e exportando petróleo para a Turquia. E nenhum avião deles atacou algum comboio do ISIS. Como acreditar que estariam mesmo contra o ISIS? Eles não veem? Não viram? Como é possível que só os russos tenham visto tudo desde o primeiro dia, e já logo tenham atacado aqueles comboios? Na verdade, a intervenção russa desmascarou as intenções americanas sobre ISIS, e, claro, também sobre outros grupos terroristas.

Pergunta 26: Há três anos, o presidente Obama fez uma ameaça contra o senhor. Traçou uma linha vermelha, depois voltou atrás e não atacou a Síria. O que o senhor acha disso? É sinal de presidente fraco?

Presidente Assad: Esse é o problema dos EUA. Passaram anos promovendo que bom presidente teria de ser sanguinário, cruel, e teria de fazer guerra. É a definição dos norte-americanos. Se não for assim, o presidente é fraco, o que raramente é verdade. Todos os governos dos EUA, desde a 2ª Guerra Mundial se equivaleram nas ações de atiçar fogo em conflitos em todas as partes do mundo. E com o passar do tempo, os governos dos EUA foram-se tornando mais e mais piromaníacos. A diferença agora entre as administrações está só nos meios, nunca no objetivo. Um deles manda as próprias tropas, como Bush; o outro compra e paga mercenários substitutos; o terceiro cria exércitos 'locais', que guerreiam 'por procuração', etc., mas o núcleo é o mesmo, nada mudou.

Pergunta 27: Mas voltemos àquele momento, há três anos, foi sinal de EUA fracos e de presidente fraco?

Presidente Assad: Não, porque se o senhor quiser falar sobre o núcleo, que é a guerra de ataque contra a Síria, atacaram, sim, a Síria, mediante seus 'procuradores' locais. Não combateram contra oISIS, não pressionam a Turquia ou a Arábia Saudita, no sentido [de conseguir que] "parem de enviar dinheiro e pessoal e todo o apoio logístico aos terroristas".

Eles poderiam ter feito isso, e não fizeram. Então, na verdade os EUA estão em guerra contra a Síria, mas de outro modo. Não enviaram soldados norte-americanos, não atacaram com mísseis, mas pagam mercenários para que façam tudo isso. Foi isso que eu quis dizer. Quer dizer, é a mesma coisa.

Pergunta 28: Foi surpresa para o senhor, que não tenham atacado?

Presidente Assad: Não, não. Não foi surpresa. Mas acho que o que estão fazendo agora teve o mesmo efeito. Assim, entre mercenários e entre mísseis, o novo meio pode ser mais eficaz para eles. Então, não, não posso dizer que fiquei surpreso.

Pergunta 29: Pergunto-lhe como o líder que o senhor é: ao desenhar uma linha vermelha e não fazer o que disse que faria, a credibilidade dos EUA sofreu não só no Oriente Médio, mas em todo o mundo?

Presidente Assad: Mas, sendo bem franco com o senhor, essa credibilidade nunca existiu para nós, pelo menos desde o início dos anos 70. Desde que se restauraram nossas relações com os EUA, em 1974, nenhum governo dos EUA jamais mereceu verdadeira credibilidade, verdadeira confiança. Nunca existiu. Não posso dizer se foi prejudicial à credibilidade dos EUA, porque já não tinham credibilidade. Não acredito sequer nos aliados dos EUA. Minha avaliação é que a credibilidade norte-americana, não por causa do que o senhor mencionou, mas por causa da sua política em geral, suas políticas principais, nunca atingiram ponto mais baixo. É assim que vemos.

Pergunta 30: O ponto mais baixo de todos os tempo da credibilidade dos EUA no mundo?

Presidente Assad: De modo geral, sim. Com relação à política em geral, não sobre a Síria. Sim.

Pergunta 31: O senhor dá boas vindas ao fim do mandato do presidente Obama?

Presidente Assad: Nada significa para nós, porque se o senhor alterar a administração, mas não mudar a política, nenhuma mudança significará alguma coisa. Então, trata-se de política, e na Síria nunca apostamos em presidente [dos EUA] sair ou presidente chegar. Não apostamos. Porque o que eles dizem nas campanhas é diferente do que fazem depois de eleitos.

Pergunta 32: O senhor falou sobre presidentes, que seriam sempre iguais, sem mudar as políticas, mas haverá novo presidente nos EUA no próximo ano. O senhor tem esperança de novo relacionamento? O senhor acredita que seja possível?

Presidente Assad: Sim, claro. Sempre esperamos que o próximo presidente dos EUA seja muito mais sábio do que o anterior, menos piromaníaco como eu disse, menos militarista, presidente menos aventureiro. Esperar, esperamos, mas nunca aconteceu. Quero dizer, a diferença é mínima, marginal. Então, continuamos esperando, mas não apostamos nessa esperança.

Pergunta 33: Então, haverá um novo presidente. Há duas opções principais: um dos candidatos é Donald Trump. O que o senhor sabe do Sr. Trump?

Presidente Assad: Nada. Só o que eu ouvi na mídia, durante a campanha. Mas é como já disse: ninguém deve perder tempo ouvindo o que eles dizem em campanha; depois de eleitos, tudo muda. Aí, sim, será o momento para começar a avaliar o presidente, após a campanha, não durante a campanha.

Pergunta 34: E o senhor, aqui em Damasco, o que a mídia diz sobre o Sr. Trump?

Presidente Assad: Há conflito entre os norte-americanos, mas nós não prestamos muita atenção a ele. Quer dizer, mesmo essa retórica entre os, digamos, candidatos, muda durante a campanha. Então, o que o senhor ouve hoje, amanhã já não é relevante. Não podemos construir nossa política sobre política do dia-a-dia.

Pergunta 35: Mas o senhor está acompanhando esta eleição?

Presidente Assad: Não, realmente não. Porque, como eu disse, não faz sentido acompanhar algo que não se pode considerar conectado à realidade. Só haverá conexão com a realidade depois da posse. Até agora, é só retórica. Não é preciso perder tempo com retórica.

Pergunta 36: Simplesmente retórica. Quer dizer que, por exemplo, falando do Sr. Trump; algo que ele diga, o senhor não acredita que possa ser a política de um presidente Trump?

Presidente Assad: Não, não podemos acreditar. Se Trump ou Clinton ou qualquer um. Estou falando em geral, não é sobre os nomes. É um princípio para cada presidente americano em cada campanha.

Pergunta 37: Ele fez poucos comentários sobre a Síria ou o Oriente Médio, mas é descrito como um "cara durão". Isso preocupa o senhor?

Presidente Assad: É uma avaliação da pessoa. Ele não é obrigado a ver-me como "bom sujeito". A única coisa que conta para mim é o que os sírios pensam e desejam, não um norte-americano, pessoalmente, presidente ou candidato escolhido. Absolutamente não é importante para mim. Não faz parte do meu mapa político, digamos.

Pergunta 38: Uma das coisas que ele disse e foi muito claro sobre ela é que seria muito mais duro contra o ISIS. Seria boa ideia, na sua avaliação? Porque o senhor acaba de dizer que o presidente Obama não é sério.

Presidente Assad: Não é o caso de ser mais duro. A expressão "ser duro" nada significa na realidade, na vida real, nesta região. O senhor tem que combater contra o ISIS de maneiras diferentes. 

O ISIS não é o único bando de milicianos que é preciso atacar com os armamentos mais fortes. Não é como o senhor está dizendo. A questão do terrorismo é muito complicada, relaciona-se à ideologia. Como alguém pode ser duro contra a ideologia do ISIS? A questão é essa. Como o senhor pode ser duro em relação à economia deles, ao modo como distribuem dinheiro e doações? Como se lida com isso?

Pergunta 39: Acho que o Sr. Trump está falando sobre resistência militar. Ele quer...

Presidente Assad: Não é suficiente, não é suficiente. É preciso pensar, usar a inteligência. Ser resistente não basta para ser sobreviver. Primeiro de tudo, é preciso querer, desejar; é preciso ser genuíno; e também é preciso ser inteligente; então ser durão e militarmente ativo, é importante, mas é a última opção, se já se satisfez o primeiro critério.

Pergunta 40: Pelo que o senhor sabe do Sr. Trump, ele é suficientemente inteligente?

Presidente Assad: Eu não o conheço. Quando sentar com ele cara-a-cara, se acontecer, poderei avaliá-lo. Até agora só o vi pela TV, e o senhor sabe que na TV tudo se manipula, aprendem-se trejeitos, o que dizer, como dizer. O problema não é esse.

Pergunta 41: O senhor tem gostado do que tem visto, do Sr. Trump, na TV?

Presidente Assad: Como já disse, não acompanho eleições norte-americanas porque não aposto nela. Não acompanhamos.

Pergunta 42: Trump parece respeitar o presidente Putin. Isso dá esperanças ao senhor Trump talvez seja homem com quem o senhor poderia negociar?

Presidente Assad: Se for genuíno, se não estiver mentindo, acho que pode estar dizendo a coisa certa, porque todos os seres sobre a Terra, concordem ou não com o presidente Putin, têm de respeitá-lo, porque é homem muito respeitável. Respeita-se ele mesmo, respeita o próximo, respeita os valores e interesses do seu próprio povo e é honesto e genuíno. Então, como seria possível não respeitar alguém que tenha essas características? Se não está mentindo, seu candidato pode estar correto, na minha opinião. É o que posso dizer. 

Pergunta 43: O Sr. Trump também fez comentários sobre os muçulmanos, e não permitir muçulmanos nos EUA. Isso o perturbou, o irritou?

Presidente Assad: Sim. Na Síria, especialmente porque somos um país 'caldeirão' feito de muitas, muitas religiões e seitas e etnias, entendemos que nossa diversidade é uma riqueza, não o contrário. O problema quem o cria é o governo, o modo como reage, e as forças influentes na sociedade, que transformaram o problema num conflito. Se todas aquelas pessoas puderem viver numa sociedade em real integração, com harmonia, a diversidade é riqueza e interessa a qualquer sociedade, inclusive aos EUA.

Pergunta 44: Então, na sua opinião, o Sr. Trump não deveria ter feito esses comentários sobre os muçulmanos?

Presidente Assad: Ninguém deve usar discursos discriminatórios em país algum. Evidentemente, não acredito nesse tipo de retórica.

Pergunta 45: O Sr. Trump não tem experiência em política externa. Isso preocupa o senhor?

Presidente Assad: Mas e quem teria essa experiência antes de ser presidente? Obama ou George Bush ou, antes ainda, Clinton? Nenhum deles tinha qualquer experiência. Este é um dos problemas com os EUA. Seria preciso encontrar alguém com real e longa experiência, anos, de política. Mas não porque tenha tido assento no Congresso por alguns anos, ou por ter sido ministro das Relações Exteriores, por exemplo. Nada disso significa experiência. No caso de estados, a experiência em estados deve ser de muito muito mais tempo. Assim sendo, não me parece que a maioria dos presidentes dos EUA sejam bem versados em política.

Pergunta 46: Então, ter na Casa Branca um homem com nenhuma experiência em política externa não seria necessariamente perigoso, na sua opinião?

Presidente Assad: Alguém que não tenha experiência é perigoso em qualquer posição, na Casa Branca ou no Palácio Presidencial na Síria ou qualquer outro país. É situação naturalmente perigosa para o país, em geral. É claro que nos EUA, uma grande potência, pode ser ainda mais perigoso e ter impacto sobre o resto do mundo. Mas não é só questão de experiência. No final, se há instituições, elas podem ajudar. A questão crucial é a intenção, o objetivo. Pode ser presidente carregado de rica experiência, mas com objetivos belicistas, intenções destrutivas e tal? De fato, são muitos fatores a considerar. A experiência é apenas um deles.

Pergunta 47: Alguém com mais experiência em assuntos externos é Hillary Clinton. O senhor a conhece, em certo sentido. Quais as consequências, se Hillary Clinton ganhar a eleição?

Presidente Assad: Sou obrigado a repetir a mesma resposta. Tudo dependerá da política. Que política ela adotará? E se ela quiser provar que é durona e levar os EUA a outra guerra ou se escalar nas guerras já existentes? Aí, tudo será péssimo para todos, inclusive para os EUA. Será bom se ela estiver andando noutra direção. E mais uma vez: nos concentramos nas intenções, antes de considerar a experiência. A experiência é muito importante, mas a intenção é o fator mais crucialmente decisivo para qualquer presidente. Quero dizer, pode-se perguntar-lhes, eles podem dizer sinceramente ao povo norte-americano e ao resto do mundo quais suas reais intenções com as suas políticas? Vão escalar guerras ou trabalharão a favor de mais entendimento no mundo?

Pergunta 48: Bem, uma diferença entre eles é claramente que Hillary está ainda mais decidida a livrar-se do senhor. Pelo menos essa é a sua posição declarada. Trump diz que ele está focado noISIS, para isolar o senhor. É clara diferença entre os dois. Hillary Clinton... Bem, vou-lhe perguntar: será que Hillary Clinton seria maior ameaça para o senhor, que Donald Trump?

Presidente Assad: Não, porque desde o início desta crise, ouvimos o mesmo mote "Assad tem de sair", de praticamente todas as autoridades ocidentais, em diferentes níveis, seja líder ou autoridade estrangeira ou qualquer outro funcionário. Nunca nos importamos com isso. O senhor não pode falar disso como se fosse alguma ameaça. É interferência em nossos assuntos externos e não respondemos esse tipo de coisa. Contanto que eu tenha o apoio do povo sírio, pouco me importa quem fale, e mesmo que seja o presidente dos EUA. Digam o que quiserem. Para nós, nada muda. Por isso digo que tudo que Clinton e Trump e Obama digam é, para mim, nada. Não existem no nosso mapa político e não perdemos tempo com essa retórica, ou mesmo que sejam demandas.

Pergunta 49: Mas se Hillary Clinton como presidente estabelece uma zona de exclusão aérea sobre o seu território, no norte da Síria por exemplo, faz uma enorme diferença.

Presidente Assad: Claro. Este é o ponto onde o senhor pode falar de ameaça, por isso eu disse que a política é o mais crucial para nós. Quando começaram a apoiar os terroristas com tais e quais projetos ou plano ou passo, aí exatamente é onde se pode encontrar mais caos no mundo. Essa é outra pergunta: os EUA têm interesse em ter mais caos pelo mundo, ou os EUA têm mais interesse em ter estabilidade em todo o mundo? Aí está outra questão. É claro, os EUA podem gerar caos. Há 50-60 anos, vivem a gerar caos pelo mundo. Não é novidade. Será que tornarão o caos ainda pior, mais prevalente Eis outra pergunta, mas nada tem a ver comigo. Não é pergunta sobre o presidente. É questão sobre toda a situação mundo, porque não se pode separar a situação na Síria, da situação no Médio Oriente, e quando o Oriente Médio não está estável, o mundo não pode estar estável.

Pergunta 50: Permita-me perguntar-lhe mais sobre até onde o senhor gostaria de nova relação com os EUA. O ISIS tem quartel-general em seu país, em Raqqa. Se o senhor soubesse que ISISestivesse prestes a atacar os EUA, o senhor advertiria os EUA?

Presidente Assad: Por princípio, sim, porque eles podem atacar civis, e eu não posso culpar os inocentes nos EUA pelas más intenções das suas autoridades. Não seria o mais certo a fazer. E como já disse muitas vezes, não considero os EUA como inimigo direto, uma vez que não ocupam o meu país. Mas, ao mesmo tempo, esse comentário não é, digamos, realista, por uma razão: porque não há nenhuma relação entre nós e os EUA. Este tipo de informações ou de cooperação no campo da segurança exige cooperação política. Não temos nem uma, nem outra. Então, não seria possível.

Pergunta 51: Falei várias vezes com o seu vice-ministro de Relações Exteriores, Dr. Fayssal Mikdad. E ele falou-me dos perigos da Síria, da crise explodindo, não apenas no Oriente Médio, mas em todo o mundo, e aconteceu exatamente assim. Com o ISIS forçado a retroceder, ou quebrado, existe o perigo de que seus combatentes espalhem-se?

Existe o perigo de que, se o senhor derrotar ISIS, os EUA se tornem mais vulneráveis ao terrorismo?

Presidente Assad: Não. Se derrotarmos o ISIS, estaremos ajudando o resto do mundo, porque os terroristas vindos de mais de cem países, inclusive de países ocidentais, se não forem derrotados eles vão voltar ainda mais fanáticos, mais extremistas e mais experientes, para atacar nos seus países de origem. Ao derrotá-los aqui, estamos ajudando todos os outros países, inclusive os EUA.

Pergunta 52: Mas combatentes do ISIS podem deixar Raqqa e, como vimos com ataques terroristas na Europa, vêm para a França, para a Bélgica. Eles poderiam ir também para os EUA e atacar. Esse é um risco real, não é?

Presidente Assad: Sim, estou falando disso mesmo. Disse que se nós os derrotamos aqui, se os derrotarmos de modo que não haja volta, estamos ajudando. Mas se saem daqui, se fogem, se continuar a haver esse mesmo terrorismo, começam a ser 'exportados' para a Europa, como já aconteceu na França recentemente. O que o senhor disse é correto, e é o que quero dizer. Se nós os derrotarmos aqui, é onde podemos ajudar os outros. Se eles voltarem, serão um perigo para o resto do mundo.

Pergunta 53: Como em todas as guerras, aqui também há dois lados. Suas forças foram acusadas de fazer coisas terríveis. Estive aqui muitas vezes e eu vi algumas dessas coisas terríveis, como resultado de ataques aéreos de suas forças. O senhor acredita que um dia tenha de enfrentar um tribunal internacional?

Presidente Assad: Primeiro de tudo, tenho de fazer meu trabalho como presidente. Quando se é atacado por terroristas, quero dizer como país, é preciso defender o próprio país, que é o meu trabalho de acordo com a Constituição. Estou fazendo o meu trabalho, e vou continuar a fazê-lo, não importa o que apareça pela frente. Temos de ser bem claros sobre isso.

Defender o país não pode ser posto no mesmo nível de discussão que o futuro do presidente, se enfrentará ou não tribunais criminais ou se enfrentará a morte. Não importa. Quem não queira enfrentar os riscos reais da luta, não pode ser presidente da Síria. Tem de ceder o lugar a outro.

Pergunta 54: Mas a razão pela qual há quem diga que o senhor deve enfrentar um tribunal de crimes de guerra é que o senhor está claramente usando todos os meios. (...) Isso é verdade?

Presidente Assad: Primeiro de tudo, qual o critério dessas pessoas para 'decidir' o que se deve usar contra terroristas? Não têm critério algum. Dizem qualquer coisa, sem saber, sem provas. Falam por falar. É opinião irrelevante, que não interessa a ninguém. Não têm nenhum significado do ponto de vista legal e são irrealistas. Em segundo lugar, se se fala de armas indiscriminadas... nenhum exército do mundo usaria armamento indiscriminado numa situação onde os dois lados praticamente se misturam.

Pergunta 55: Com todo o respeito, Sr. Presidente, eu vi uma bomba jogada de um helicóptero. É armamento indiscriminado.

Presidente Assad: Vamos dizer que, tecnicamente, o problema não é lançar bombas de aviões ou helicópteros. A questão não é essa. O que importa, se o senhor quiser falar sobre precisão, digamos que estamos usando armamento precisamente discriminados, exatamente como os EUA usamdrones e os mísseis de mais alta precisão no Afeganistão. Quantos terroristas mataram até agora? Civis, sim, mataram muitos, muitos civis e inocentes.

Pergunta 56: Ainda que seja verdade, não torna correto o que quer que o senhor faça.

Presidente Assad: Não, não, não. Quero dizer, em primeiro lugar, que o tipo de armamento que os EUA estão usando nada tem a vem com o que o senhor mencionou. Não se trata de usar armamento de mais alta precisão, ou não. Esse critério não existe. É apenas uma parte da mais recente campanha de mídia. Estou falando em termos legais. Tínhamos pleno direito... [o jornalista o interrompe]

Pergunta 57: Com todo respeito, não é só campanha de mídia. A ONU, como o senhor bem sabe, tem falado sobre isso. Grupos de direitos humanos têm falado sobre isso, não apenas uso discriminado de armas contra civis, mas a ONU falou esta semana sobre os problemas em Aleppo, em Darayya, muito próximo daqui, do uso de fome como arma de guerra, cercos. Isso está acontecendo agora perto de nós, não é?

Presidente Assad: Depois falaremos sobre o cerco. Agora, é importante deixar bem claro que o único amamento que os estados não podem usar em guerra é armamento banido pela lei internacional. O resto que você queira ou precise usar contra o terrorismo, é armamento legal e legítimo. Podemos usar qualquer armamento para derrotar os terroristas.

Pergunta 58: E o senhor sabe que há uma acusação contra o senhor porque teria usado armas químicas - o que o senhor nega.

Presidente Assad: Não usamos. Até hoje já se passaram três anos e ninguém jamais encontrou qualquer prova. São palavras vazias, acusações sem sentido.

Pergunta 59: Há muitas provas, mas o senhor as rejeita.

Presidente Assad: Não, não. Não é verdade. Não há prova alguma, nenhuma. Só imagens de internet que qualquer um, com uma cam... [o jornalista o interrompe]

Pergunta 60: ... fotográfica, especialistas, testemunha oculares... 

Presidente Assad: Nada. Nada disso. Há uma delegação da organização internacional de armas químicas. Vieram para a Síria, examinaram tudo e não encontraram prova alguma. Recolheram tudo que quiseram, tudo, amostras, o que quiseram, tentando reunir provas, mas nada encontraram. Não há nenhuma evidência. Não usamos armas químicas, nem haveria lógica em usá-las.

Pergunta 61: Vamos falar sobre os métodos de suas forças estão usando perto daqui que está cortando uma área e sitiando, e há milhares de civis muito próximos aqui, que estão passando fome. O senhor reconhece isso?

Presidente Assad: Vamos supor que o que o senhor diz seja correto. Vamos supor. O senhor fala de áreas sitiadas pelo exército há anos. Não são meses, são anos. Não têm comida nem itens básicos, porque são nossos inimigos, querem nos matar e não admitimos que tenham o que falta aos cidadãos sírios, mas fazem guerra há anos, contra nós, há dois anos, bombardeiam os nossos com morteiros e matam civis. Significa o quê, essa sua narrativa? Que nós 'deixamos' que eles tenham armas para nos matar, mas não lhes damos comida? Não é racional. É argumento irrealista.

Pergunta 62: É o que diz a ONU. A ONU diz que, por exemplo, em Madaya, só teriam conseguido quatro comboios de ajuda em todos estes anos.

Presidente Assad: Mas e como conseguiríamos impedir que tivessem comida, e não os impediríamos de ter armas para nos atacar? Que sentido faria isso? A contradição é visível. Ou cercamos tudo, ou permitimos tudo. Isso, em primeiro lugar. Em segundo lugar, a prova de que isso não é correto é que o senhor tem todo o vídeo sobre os comboios provenientes da ONU e que chegam àquelas áreas. A ONU lhes garante mantimentos. Caso contrário, como sobreviveriam durante anos, se estão sob cerco? Há anos, eles repetem a mesma narrativa, repetindo, repetindo, anos a fio, mas estão todos vivos. Como sobreviveriam sem comida?

Pergunta 63: Como o senhor sabe, alvejar civis em uma guerra é crime de guerra e apenas recentemente, a família de Marie Colvin, jornalista americana, iniciou processo nos EUA acusando senhor e seu governo de a ter matado a tiros. O senhor sabe Marie Colvin; era minha amiga.

Presidente Assad: Sim, uma jornalista, sei.

Pergunta 64: Suas forças atiraram em Marie Colvin e nos colegas dela com a intenção de matá-la?

Presidente Assad: Não. Muito simplesmente, não. Para começar, as forças do Exército não sabiam sequer que Marie Colvin existia, porque ninguém jamais ouvira esse nome. Estamos em guerra. Ela entrou ilegalmente na Síria, trabalhou com grupos terroristas e, porque entrou ilegalmente no país, passou a ser responsável pelo que lhe acontecesse. Isso, em primeiro lugar. Em segundo [pela terceira vez o jornalista interrompe]

Pergunta 65: Ela é responsável por sua própria morte?

Presidente Assad: Sem dúvida. Somos responsáveis pelas pessoas que entrem legalmente no país. Essa senhora entrou ilegalmente no país e frequentou grupos terroristas. Não sabíamos dela, não a autorizamos a entrar no país, não a mandamos para grupos terroristas. Não sabíamos sequer que ela existia.

Pergunta 66: Como o senhor sabe, isso não explica por que mísseis atingiram a casa em que ela estava em Homs.

Presidente Assad: Não, não. Não se sabe se foi morta por míssil, se foi míssil, que míssil, de onde veio, ou como. Não há indícios de nada, nem provas de nada. Só alegações, porque é área de conflito, e estamos em guerra. O senhor sabe o que é fogo cruzado. Quando se é apanhado num fogo cruzado, não se pode saber quem matou quem. Há alegações, e mais nada. Em segundo lugar, centenas de jornalistas estiveram na Síria, entraram e saíram pelas vias legais, cobriram a guerra contratados por grupos terroristas, não pelo governo, e não foram mortos. Porque mataríamos essa senhora? Não. Não aconteceu assim. Isso em segundo lugar. E em terceiro lugar, dezenas de jornalistas que trabalham para o governo e apoiam o governo morreram. Fomos nós que os matamos? Claro que não. Aqui, estamos em guerra. O senhor algum dia ouviu falar de guerra boa? Não há. É guerra. Pessoas morrem. Sempre morrem muitos inocentes, e em muitos casos nem se consegue saber como morreram.

Pergunta 67: O senhor percebe a impressão que dá, Sr. Presidente, é de um homem que sente que não tem responsabilidade pelas coisas terríveis que são feitas em seu nome contra o povo sírio. O senhor tem um ar de "oh bem, isso realmente não importa."

Presidente Assad: Todos temos de suportar a responsabilidade pelas decisões que tomemos. Mas não somos responsáveis pelo que não fazemos e por responsabilidades que não são nossas.

Pergunta 68: Mas algumas das decisões que o senhor tomou resultaram na morte de centenas de milhares de pessoas.

Presidente Assad: Que decisões?

Pergunta 69: Atacar certas áreas, lançar campanhas, ataques aéreos, o uso de certas armas.

Presidente Assad: As duas únicas decisões que tomamos desde o início da crise foram, a primeira, de defender nosso país contra os terroristas, e foi decisão acertada. A segunda é dialogar incansavelmente, com todos. Dialogamos com todos, incluindo alguns grupos terroristas que queriam depor armas e conseguimos. Somos muito flexíveis. Não tomamos qualquer decisão de atacar qualquer área que não inclua terroristas que bombardeiem cidades adjacentes.

Pergunta 70: O senhor já viu imagens, fotografias, vídeos de crianças, por exemplo, em áreas controladas pelos rebeldes? E eu me pergunto se o senhor já viu essas fotos, o que o senhor sente? Tristeza, desgosto, nada?

Presidente Assad: Minha Pergunta é como o senhor sabe que crianças que viu na internet estão onde se diz que estariam?

Pergunta 71: Sr. Presidente, esse tipo de resposta só reforça a visão das pessoas, de que o senhor está fugindo do que é sua responsabilidade.

Presidente Assad: Não, não, não me parece. Não.

Pergunta 72: Que realmente o senhor não se importa com as pessoas do outro lado, que suas forças matam.

Presidente Assad: Responda-me se o senhor pode culpar o presidente Bush, agora, por um milhão de iraquianos mortos pelas suas forças na guerra do Iraque desde 2003. Acha que pode?

Pergunta 73: Não estamos falando do presidente Bush. Estou aqui para perguntar-lhe...

Presidente Assad: Não, não. Também não estou falando de Bush. Trata-se do princípio. É o mesmo princípio. O presidente Bush atacou país soberano. Eu estou defendendo o meu país. Se o senhor quiser aplicar o mesmo padrão, a discussão avança. Mas se o senhor precisa desse duplo padrão, tudo muda.

Pergunta 74: O senhor ainda não me dá a impressão de que, na verdade, se importe muito.

Presidente Assad: Não, não, não está certo. Estou falando com o público americano, e é preciso demarcar uma analogia entre as duas situações, porque o senhor usa uma lógica bifurcada para explicar as coisas. Não é apenas a minha resposta. O presidente Bush atacou país soberano; nós estamos defendendo nosso país. Bush matou povo iraquiano no Iraque, nós estamos nos defendendo, principalmente contra os terroristas que estão vindo de diferentes lugares do mundo. Significa que os sírios estamos no nosso direito. E não faz sentido algum tentar falar de alguma guerra limpa, sem baixas, sem civis mortos, sem inocentes mortos. Isso não existe. 

Pergunta 75: É assim que o senhor explica a guerra, por exemplo, para os seus filhos, à mesa do café. Estou certo [irônico] de que são muito... 

Presidente Assad: Claro que sempre falarei da realidade, dos fatos, não falarei de crianças mortas sem nome, sem rosto. Falo sobre crianças que são filhos dos pais, netos dos avós, que moram numa casa, numa cidade. O senhor só faz repetir frases de efeito e propaganda de campanhas 'midiáticas', de imagens muitas vezes falsas, distribuídas pela internet. Falar é falar sobre fatos. Não posso falar sobre acusações sem provas, sobre suposições.

Pergunta 76: O senhor já chorou sobre o que aconteceu para a Síria?

Presidente Assad: Chorar ou não chorar não significa que ali esteja um homem bom, ou mau. Tampouco significa que se sofra ou não. O que faz diferença é a dor da paixão, do sofrimento que está em sua alma, não é questão de contar lágrimas. Isto, para começar. Em segundo lugar, como presidente, o que conta é o que você faz, não o que você sente. Como fazer para proteger os sírios? Quando se tem um incidente, um incidente ruim, e acontece um por dia, todos os dias, o senhor se põe a chorar ou se põe a trabalhar? A minha pergunta é sempre o que posso fazer para ajudar. Pergunto-me como posso proteger outros sírios e evitar que tenham o mesmo sofrimento.

Pergunta 77: O que o senhor vai fazer daqui em diante? O senhor vai só seguir adiante, adiante, adiante? O senhor e seu pai estiveram no poder durante quarenta e seis anos, não é mesmo?

Presidente Assad: Não. Ele foi um presidente, eu sou outro. O que o senhor diz não corresponde à verdade. Meu pai foi eleito pelo povo sírio, e eu fui eleito depois que ele morreu. Ele não me nomeou para a presidência. O senhor não pode pôr as coisas nesses termos, que são errados. Estou no poder há 16 anos, não há 45 anos.

Pergunta 78: O senhor está no poder há dezesseis anos, a minha pergunta é: o senhor vai continuar presidente para sempre, sempre, sem parar?

Presidente Assad: Não sei lhe dizer. Essa é pergunta que o senhor terá de fazer ao povo sírio. Se eles não me querem, saio imediatamente, hoje. Se me querem, eu tenho de ficar. Depende deles, quero dizer, se eu me opuser à vontade dos sírios, não consigo produzir, não posso ter sucesso... Mas acho que não tenho intenção de fracassar.

Pergunta 79: Como o senhor acha que a história vai lembrar do senhor?

Presidente Assad: Como eu espero que a história lembre-se de mim. Não sou adivinho. Espero que a história veja-me como o homem que protegeu seu país do terrorismo e da intervenção, e salvou sua soberania e a integridade do território sírio.

Pergunta 80: Porque o senhor sabe o que o primeiro rascunho da história está dizendo, que o senhor é ditador brutal, homem com sangue nas mãos, mais sangue em suas mãos, até, do que nas mãos de seu pai.

Presidente Assad: Não. Sou obrigado a recorrer, outra vez a um exemplo didático: se um médico precisa cortar a mão para livrar o corpo de uma gangrena, ninguém dirá que o médico é brutal. Fez o trabalho dele, para salvar o resto do organismo. Se você protege seu país contra a ação de terroristas e se mata terroristas, você não é brutal: você é um patriota. Isso é como o senhor olha para si mesmo, e é assim que as pessoas querem olhar para o senhor.

Pergunta 81: Então, o senhor se vê como patriota [irônico]?

Presidente Assad: Eu não consigo ser objetivo ao olhar para mim. O que importa é como os sírios me olham. Essa é a opinião verdadeira, que realmente conta, não a minha. 

Jornalista: Sr. Presidente, muito obrigado por responder perguntas da NBC e por ter tempo para falar comigo. Muito obrigado.

Presidente Assad: Obrigado.+

14/7/2016, SANA, Damasco (transcrição, aqui traduzida) e vídeo (44"08)


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