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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Escola Sem Partido: parte de um projeto mais que conservador, retrógrado!

Em mais uma das teses conspiratórias de que o Brasil está sofrendo uma tentativa de dominação comunista do Foro de São Paulo, difunde-se o projeto Escola sem Partido, cuja o objetivo é evitar o que se chama de “doutrinação ideológica” nas escolas. A ideia chega a um nível de estupidez de culpar o educador Paulo Freire, um dos maiores do mundo, pelo que eles chamam de parte de um projeto de poder “bolivariano”.

Antes de qualquer coisa, o autor que vos escreve não é pedagogo, portanto, tomará muito cuidado ao tratar do tema. Porém, não poderá se abster por conta da leitura que fez do Paulo Freire e dos impactos políticos e sociais que o Escola Sem Partido tenta impor.

No livro ‘A Pedagogia do Oprimido’, o que se vê é uma tentativa do autor de transportar os diversos conhecimentos dispersos para a realidade concreta do aluno, afim de estabelecer uma visão crítica, e, em nenhum momento, há um objetivo metodológico de uma doutrinação ideológica. O próprio autor disserta sobre o tema:

“Não há outro caminho senão o da prática de uma pedagogia humanizadora, em que a liderança revolucionária, em lugar de se sobrepor aos oprimidos e continuar mantendo-os como quase “coisas”, com eles estabelece uma relação dialógica permanente. ” (Freire, 1987)

A maior preocupação do projeto Escola Sem Partido é com o famoso tipo de professor que faz um maniqueísmo sobre a matéria dada em sala de aula. Esse tipo existe e, na maioria das vezes, tangencia o método de Freire, já que seu objetivo é apenas transmitir ou impor uma ideologia para o estudante, algo muito diferente da proposta de diálogo da pedagogia humanizadora. A tentativa de fazer com que os alunos comprem uma ideia seria difundir ainda mais a chamada concepção “bancária” de educação, tão condenada por Freire, aquela à qual o professor apenas deposita conhecimento na cabeça do aluno. E é aí que está o grande problema que o Escola Sem Partido apenas reforça.

Hoje, o método de educação utilizado nas escolas do Brasil, ao contrário do que pensam os conservadores brasileiros, não se assemelha com as ideias de Paulo Freire. A concepção é quase jesuíta ou positivista: a do professor que transmite conteúdo e a dos alunos que apenas recebem, ou, a de educador e educando. Em outros países, a teoria de Freire é muito bem recebida, como na Finlândia e no Japão, por exemplo, onde o é considerado um dos patronos da Educação, além de, no mundo inteiro, ser um dos educadores mais citados em estudos acadêmicos.

Sim, o método Paulo Freire é baseado em Marx! E daí? O nosso calendário é cristão, nosso sistema político é baseado no liberalismo, o lema da nossa bandeira é baseado no positivismo, e tantas outras coisas que formam a nossa sociedade e o nosso estado são baseadas em escolhas ideológicas.

Sim, o método Paulo Freire tem uma vertente revolucionária! E daí? A famosa frase de Freire nunca foi tão atual: “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”. A partir do momento em que o professor é impedido de apresentar ao aluno pontos de vistas distintos da realidade concreta, está se reafirmando a ideologia dominante, ou seja, a escola se torna um local de doutrinação ideológica do status quo.

Aprender a história factualmente, ou seja, decorando as datas e acontecimentos, a geografia através do simples conhecimento de cidade, estado, país, continente, relevo e clima, ou a língua portuguesa apenas pelo entendimento da norma culta são formas de reforçar a ideia do sistema vigente. Essa metodologia de assimilar conteúdo e o reproduzir é um reforço da ideologia que o sujeito deve aderir ao que está aí, não questionar e aplicar seus conhecimentos no mercado de trabalho para a manutenção da produtividade capitalista. Ou seja, a velha concepção “bancária” de educação, do educador e do educando, a serviço da doutrinação ideológica dominante.

Não é só uma doutrinação ideológica liberal, como também é terceiro mundista. Se pensarmos nas revoluções tecnológicas a partir da década de 80, as quais o Brasil ficou fora de todas, é nítido e notório que elas não surgiram pela simples assimilação de conteúdo, mas sim, pela manipulação do conhecimento. Rejeitar o método Paulo Freire ou impedir qualquer educação emancipatória, que faça o indivíduo pensar por si só, é automaticamente transforma-lo em um robô que apenas reproduz habilidades e, por tabela, condenar toda uma sociedade ao subdesenvolvimento.

Também é importante citar que, com a visão retrógrada e neoliberal apresentada pelo governo Temer, há uma grande possibilidade do projeto Escola Sem Partido ser um “balão de ensaio” para a terceirização da educação. Entidades como Instituto Airton Senna, Fundação Roberto Marinho, Fundação Bradesco, entre outras já aplicam o conceito amplamente difundido do Banco Mundial de educação. Se a nova visão da educação for essa e o projeto já é neoliberal, então não haveria surpresa se, num futuro próximo, a nova gestão ensaie uma proposta para acabar com a escola pública.

Por fim, propostas como voto distrital, aumento da jornada de trabalho, terceirização, rompimento do Brasil com os BRICs e o Mercosul e, agora, o Escola Sem Partido são demonstrações de que o Brasil está num caminho de retrocesso, pois, enquanto o mundo inteiro avança num sentido contrário, nós procuramos reafirmar (pré) conceitos antigos do status quo.


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