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domingo, 24 de julho de 2016

Desmontando o editorial safado e picareta d'O Globo, contra o ensino universitário gratuito, linha por linha. Por Gustavo Castañon



EDITORIAL DO GLOBO CONTRA A UNIVERSIDADE PÚBLICA: MENTIRAS E SOFISMAS DO PRIMEIRO AO ÚLTIMO PARÁGRAFO.

Vou aqui desmontar essa farsa linha por linha. Começando pelo título.

“Crise força o fim do injusto ensino superior gratuito”

A crise força é o fim do injusto sistema tributário brasileiro e do saque da dívida pública que roubou ano passado 43% do orçamento, baseado nos juros mais altos do mundo. Sistema esse do qual a família Marinho é uma das principais beneficiárias.

GLOBO: “Os alunos de renda mais alta conseguem ocupar a maior parte das vagas nos estabelecimentos públicos, enquanto aos pobres restam as faculdades pagas”

A maior parte das vagas é ocupada por alunos de classe média, que também não teriam, em grande parte, condições de pagar por essas vagas. Mas agora, com a política de cotas, praticamente metade das vagas federais está sendo ocupada por alunos de classe média baixa e baixa. Além disso, é o estado que, infelizmente, subsidia grande parte das vagas nas universidades privadas.

GLOBO: “Numa abordagem mais ampla dos efeitos da maior crise fiscal de que se tem notícia na história republicana do país, em qualquer discussão sobre alternativas a lógica aconselha a que se busquem opções para financiar serviços prestados pelo Estado. Considerando-se que a principal fórmula usada desde o início da redemocratização, em 1985, para irrigar o Tesouro — a criação e aumento de impostos — é uma via esgotada.”

Afirmações peremptórias sem qualquer fundamento:
1) Não é a maior crise fiscal da história (e temos notícias de todas)
2) Ridícula afirmação peremptória de que aumentar imposto é via esgotada para financiar o Estado. É inadequada se for aumentar impostos para a classe média e empresas. É fundamental aumentar, e massivamente, a taxação de ricos no Brasil que basicamente vivem no paraíso mundial dos oligarcas sem pagar impostos e muitas vezes só vivendo do saque da dívida pública montados nas heranças que receberam sem mérito algum.

GLOBO: “Mesmo quando a economia vier a se recuperar, será necessário reformar o próprio Estado, diante da impossibilidade de se manter uma carga tributária nos píncaros de mais de 35% do PIB, o índice mais elevado entre economias emergentes, comparável ao de países desenvolvidos, em que os serviços públicos são de boa qualidade. Ao contrário dos do Brasil.”

Sim, o Estado precisa ser reformado. Ele precisa duplicar de tamanho se queremos serviços equivalentes, a nossa riqueza, aos dos países europeus. O funcionalismo brasileiro é mínimo, é menos da metade da proporção da população empregada no Estado dos países nórdicos, a taxa tributária brasileira é baixa se comparada com qualquer país da Europa, e não equivalente. Ela é equivalente à dos EUA, que não tem estado do bem estar. Além disso, nossa riqueza, nossa renda per capita, é menor, brutalmente menor. Resumindo, somos cinco vezes menos ricos, cobramos menos impostos dessa riqueza, temos menos gente no funcionalismo público e 43% de nosso orçamento vai para financiar a fortuna dos parasitas rentistas, Marinhos incluso. E esses saqueadores do erário ainda cobram o mesmo padrão de serviços de países europeus.

GLOBO: “Para combater uma crise nunca vista, necessita-se de ideias nunca aplicadas. Neste sentido, por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social? Pagará quem puder, receberá bolsa quem não tiver condições para tal. Funciona assim, e bem, no ensino privado. E em países avançados, com muito mais centros de excelência universitária que o Brasil.”

Quando qualquer pessoa com mais de quarenta anos lê alguém com mais de quarenta anos falando de “crise nunca vista” sabe instantaneamente se tratar de um canalha. Mas é verdade, a crise que o Levy, com essas ideias, e os bandidos do PMDB provocaram com as molecagens políticas e orçamentárias é grave. Podemos aplicar as ideias nunca aplicadas no Brasil de fazer rico pagar imposto. Nada que uma nova alíquota de 40% no imposto de renda, imposto sobre lucro e sobre fortunas não resolva. Ou melhor que isso. Nada que uma taxa de juros real de somente dois por cento não resolva.
Na Inglaterra e EUA funciona como o Globo quer, no resto da Europa, não. Não é isso que faz a excelência dos cursos anglófonos. No entanto, apesar de excelentes, são de acesso extremamente excludente e criam uma sociedade totalmente controlada pelo capital. O aluno pobre de alto rendimento acadêmico, ao invés de receber sua educação como um direito, acaba tendo que mendigar o financiamento de seu futuro a fundações controladas por oligarcas bilionários que a partir desses instrumentos controlam suas vidas, sua voz e o sistema universitário.

GLOBO: “Tome-se a maior universidade nacional e mais bem colocada em rankings internacionais, a de São Paulo, a USP — também um monumento à incúria administrativa, nos últimos anos às voltas com crônica falta de dinheiro, mesmo recebendo cerca de 5% do ICMS paulista, a maior arrecadação estadual do país.”

Como é que a única universidade latino americana entre as 100 melhores do mundo pode ser um monumento à incúria administrativa? E no que privatizá-la resolveria isso? Não é difícil imaginar o resultado da incompetência privada no Brasil, como transformou a energia mais barata e renovável do mundo em uma das mais caras ao consumidor final, como criou a telefonia e a internet mais cara do mundo, mesmo com subsídios públicos ( e faliu, como a Oi ). O que teríamos na universidade pública é o que temos na universidade privada hoje: nem é preciso imaginar. Incompetência administrativa, subsídios públicos (proune, bolsas de pós), mensalidades escorchantes e péssimo, péssimo simulacro de educação.

GLOBO: “Ao conjunto dos estabelecimentos de ensino superior público do estado de São Paulo — além da USP, a Unicamp e a Unifesp — são destinados 9,5% do ICMS paulista. Se antes da crise econômica, a USP, por exemplo, já tinha dificuldades para pagar as contas, com a retração das receitas tributárias o quadro se degradou. A mesma dificuldade se abate sobre a Uerj, no Rio de Janeiro, com o aperto no caixa fluminense.”

O ICMS é só uma das fontes de receita do estado e a Unifesp é federal. São informações sem nexo para confundir o leitor e fazê-lo acreditar que 10% de seus impostos vão para bancar universidades. No Brasil, o orçamento da educação inteira, incluindo a básica e a média não atinge 4% do orçamento. E muito, muito pouco. Se a UERJ está em crise é porque a universidade é, historicamente, a primeira a sofrer cortes quando os orçamentos estão em crise. E o orçamento do Rio está em crise porque o preço do barril do petróleo caiu brutalmente deprimindo o valor dos royalties, tem uma quadrilha apoiada pelos irmãos Marinho no poder há dez anos, e porque a ação do juiz Moro, bancado pela Globo, quebrou a indústria de petróleo e de construção naval brasileira sediadas basicamente no Rio.

GLOBO: “Circula muito dinheiro no setor. Na USP, em que a folha de salários ultrapassa todo o orçamento da universidade, há uma reserva, calculada no final do ano passado em R$ 1,3 bilhão. Mas já foi de R$ 3,61 bilhões. Está em queda, para tapar rombos na instituição. Tende a zero.”

Vejam o desplante da manipulação. Universidade é basicamente recursos humanos. Em qualquer universidade o orçamento é basicamente salário. Se o orçamento não está suportando deve haver uma reforma administrativa que racionalize cursos, salários ou aumentar os recursos dedicados ao orçamento. O que não se deve pressupor, é que uma instituição, que no alto dessa crise, ainda tem uma reserva de 1,3 bilhões, é uma instituição falida! É um escárnio!

GLOBO: “O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares.”

Safados, picaretas, monstros, esse é o ponto máximo do cinismo, apontar a universidade pública, um dos poucos instrumentos que permite à classe média brasileira manter seu nível de vida e à classe baixa ascender socialmente através dos programas de cotas, como “mecanismo concentrador de renda do Estado”. Enquanto isso, protegem em seus editoriais e telejornais a política mais insana de juros da história e vetam, neste mesmo editorial, o uso do instrumento mais eficiente de desconcentração de renda do Estado: o tributário.

GLOBO: “Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos.”

Falso, falso, falso! Sempre foi denunciado até que os governos do PT criaram o Prouni para as privadas, e o sistema de cotas nas públicas, o mesmo sistema contra o qual o mesmo jornal se bate em outros editoriais. E na hora que interessa ao argumento, também admite que o ensino privado no Brasil é de baixa qualidade. Mas é exatamente nisso que a Globo quer transformar todo ensino no Brasil!

GLOBO: “Levantamento feito pela “Folha de S.Paulo”, há dois anos, constatou que 60% dos alunos da USP poderiam pagar mensalidades na faixa das cobradas por estabelecimentos privados. Quanto aos estudantes de famílias de renda baixa, receberiam bolsas.”

Você, seu babaca de classe média direitista, é que está nesses 60%, seu merda. “poder pagar” pra eles é quando você ainda pode comer e morar depois que deixa todo o resto de seu salário na universidade. Você que apoia a direita. É você, e depois seus filhos, que vão pagar por isso. Porque os filhos da elite não estudam aqui, a maioria estuda ou nas PUCs ou no exterior.

GLOBO: “Além de corrigir uma distorção social, a medida ajudaria a equilibrar os orçamentos deficitários das universidades, e contribuiria para o reequilíbrio das contas públicas.”

O que corrigirá essa distorção social é triplicar o orçamento da educação básica no Brasil e permitir educação pública de qualidade universal, o que corrigirá essa e outras distorções sociais no Brasil é fazer os ricos pagarem impostos. O que reequilibrará as contas públicas é parar de pagar aos irmãos Marinho e outros oligarcas parasitas metade de nossos impostos na forma de juros.

Eu estou muito cansado de ter condescendência democrática com uma instituição que nunca respeitou a democracia, que não tem qualquer pudor de usar todo poder que tem, inconstitucional e usurpado na ditadura, para aumentar a riqueza de seus donos e destruir nosso futuro, nosso patrimônio, nosso Estado.

Eu tenho profunda amargura que familiares e amigos queridos dediquem sua vida de trabalho, o melhor de suas inteligências e esforços a uma organização que só trabalha para destruir não só tudo o que é bom e decente no Brasil, mas também qualquer esperança de termos algo bom e decente nesse país.

Tenho vergonha de quem trabalha na Globo. Não sei como podem ter isso em suas consciências, mesmo os direitistas. Não podemos, no entanto, ser mais condescendentes com essa emissora e aqueles que a constroem. Está na hora de cobrar a fatura de tanta destruição.

Nossa geração tem que acabar com esse verdadeiro império do mal. É nosso dever com nosso país e as gerações futuras.

GUSTAVO CASTAÑON, no Facebook

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