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quinta-feira, 16 de junho de 2016

CRÔNICA: Assuntando com os santos


Nas festinhas juninas da escola havia aquelas rodas de cantos. Eu cantava "eu pedi ao São João, meu querido São João, que me desse um Patrimônio" e estragava tudo. Desde tenra infância eu já mostrava que seria um lixo, uma causa perdida com a qual Santo Expedito jamais quis se envolver. 

Por eu ter errado de propósito a letra, São João não me presenteou com o "Patrimônio" solicitado. Mas, por outro lado, nem com o "Matrimônio", como consta na versão original. Afinal, "isso é lá com Santo Antonio". Mas vai que o João quisesse me devolver a zuêira e chegasse pro Antonio: "Deixa comigo, ele vai ver só. O dele tá guardado". 
No fim das contas, saiu barato pra mim. 

O São Longuinho é um com quem dá prá conversar. Quando eu declamo "São Longuinho, São Longuinho, me devolve rapidinho", ele não se incomoda de ser acusado de apropriação indébita e logo eu encontro o objeto perdido. 

Um que eu tinha certa curiosidade era o São Cipriano. Cheguei até a comprar seu famoso livro de capa preta e vermelha, e me preparei para fazer as invocações malignas constantes na obra. Porém, toda vez que eu ia botar a mão na massa surgia alguma coisa pra atrapalhar. A água do aquário começava a ferver e borbulhar, me tirando a concentração. Os ponteiros do relógio de parede passavam a andar no sentido anti-horário. Depois que uma garrafa de vinho caríssimo se tornou água decidi que era melhor não mexer com aqueles assuntos. Relógio andar pra trás tudo bem, mas mexer com minhas bebidas foi o cúmulo. Taquei fogo naquela obra maldita, antes que ela fizesse meu Black Label, guardado para ocasiões especiais, virar álcool Zulu. Crianças, não mexam com o desconhecido. 

O que torna a imagem dos santos algo bastante interessante é o fato de que vários deles foram mesmo, com o perdão do trocadilho, "santos do pau oco", muito antes dessa expressão pejorativa surgir. Eram do pau oco, se emendaram, se despojaram dos bens, fizeram caridade, milagres e, hoje em dia, alguns têm até igrejas e datas em sua homenagem. 

Por outro lado vemos pretensos santarrões que, na verdade, são feitos de pau oco. Muitos deles até carregam fotos, santinhos e orações em suas carteiras, dentro do plástico. Tamanha cara de pau decorre de saberem da biografia pregressa dos personagens venerados: 

"Esse aqui", diz um, mostrando um papel, "eu tenho a maior simpatia e identificação. Jogava, bebia, roubava, fornicava com cabra, mas virou uma figura de valor reconhecido, tem até nome em escola pública e em rua. Ele mudou pra melhor, então eu também posso. Eu tenho jeito na vida. Mas não por enquanto. Ainda não quero mudar meu proceder. Na hora certa..." 

- Mas deputado, esse papel é um santinho da campanha do Fulano para vereador em 1988... 

- Pois é. 

- E seu voto? 

- Eu voto SIIIMMMM! 

E dá aquele sorriso que sairá nas capas de jornais no dia seguinte. Nasceu outro santo.

...

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