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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Toni Cunha e Carniça ( ficção )



Toni Cunha e Carniça (*) se conheciam desde crianças, jogavam bola e bebiam KiSuco juntos.

O Cunha, que, se nunca foi rico, tinha a vida mais confortável entre todos da turminha da rua, e só foi trabalhar quando quis, estudou em escola estadual, quando esta era seletiva. Carniça estudou na escola municipal.

Apesar de todos na rua andarem juntos, havia grupinhos. Quando iam jogar ATARI na casa do William, Carniça não era chamado. Quando tinha campeonato de botão, todos participavam. Todos empinavam pipa na rua, juntos. Quando a onda voltou a ser a bicicleta ( as "ondas" iam e voltavam ) Carniça ficava de fora, já que nunca teve uma. Quando a onda das pipas retornava, Carniça tava lá, junto da turma. No verão, tinha um clubinho com piscina pra onde a molecada ia. Digo, a molecada cujos pais pagavam a mensalidade. Não os pais de Carniça, claro. Os mais remediados da rua às vezes se juntavam na casa de alguém que tinha uma Regan. Carniça gostava de vê-los se refrescando, tanto que passava pra lá e pra cá, na calçada, olhando a festa. Até que desistia e ia para casa.

Cunha se especializara em contar piadinhas. Era o cara que tinha os disquinhos do Ari Toledo. Cunha adquirira gosto especial por contar piada de preto, de bicha e de baiano. Às vezes, nas noites de verão, a molecada ficava na porta de alguém. Cunha contava as piadas. Muitas delas eram repetidas, mas ninguém se importava. Riam a valer, com sinceridade. Carniça também ria. Até os adultos que porventura estivessem por ali paravam para escutar. Muitos deles também riam muito. Ninguém censurava os jovens quando contavam piada de preto e de baiano. Só não podia falar palavrão. Depois, alguém decidia que iam falar de histórias de fantasma, de lobisomem. Carniça contava as histórias que escutava no rádio. Cunha - que, ao contrario de Carniça, ia sempre no cinema - contava histórias como a do carro que criava vida e saia matando as pessoas.

Uma coisa que, desde cedo, Carniça notou: ele e seus irmãos nunca eram chamados para as festinhas na rua. Algo que nunca entendeu, já que todos andavam juntos. Às vezes ficava sabendo que os pais do aniversariante não quiseram. Noutras, era o próprio amiguinho aniversariante quem não chamou.
Mas sabe como são as crianças, esquecem logo. No dia seguinte já estavam brincando todas juntas. Embora os que foram convidados contavam, com riqueza de detalhes, como tinha sido a festinha. Bolo. Brigadeiro. Carne louca e guaraná.

( Em certo momento futuro, ele fará uma espécie de inventário mental involuntário, contabilizando intuitivamente a quantidade de ocasiões em que isso aconteceu, e descobriu que na maioria esmagadora das vezes ele foi deixado de fora. Mas isso ainda não lhe configurava algo significativo. Ao menos não na percepção racional de Carniça. Ele apenas ainda não tinha se dado conta do que aquilo lhe causava, emocionalmente. Também viria o dia em que ele acabaria descobrindo o que a recusa em chamá-lo singnificava PROS OUTROS, ou seja, quais as razões deles para aquilo. Teve ocasiões em que ele e seus irmãos foram os únicos da rua a não serem chamados. Mas, como dito, foi um inventário involuntário. Tanto que isso não o afetou nem mudou nada nele. Só que as informações ficaram guardadas em seu cérebro e fariam parte de seu ser, tanto os eventos em si como o próprio inventário deles. Não havia porque esquecer. E não havia como. ).

Por morar em residência própria - que seria herdada por ele, anos depois - Cunha nunca teve grandes problemas financeiros. Se tivesse que vender picolé ou chocolate na rua era para juntar grana para ir ao cinema ou pra comprar um par de tênis mais caro que aquele marromeno que os pais lhe davam, JAMAIS para ajudar em casa, ao contrário de Carniça e seu irmãos que, se o faziam, era por questão de sobrevivência. Para pagar o aluguel, por exemplo.

Assim, Cunha, desde cedo pôde fazer certas escolhas. Diversas, talvez centenas de escolhas aparentemente simples, prosaicas e supostamete incapazes de decidir fortemente o destino de uma vida. Carniça também teve que fazer certas escolhas, diversas escolhas. No entanto, muitas vezes não havia escolha a ser feita. Era aceitar e pronto. Noutras palavras, o Cunha teve, em várias vezes,, o direito de escolher. Carniça, quase nunca.

Mesmo no rol das obrigações juvenis, Cunha tinha algo a diferencia-lo. Carniça estudou em escola municipal. Cunha, na estadual. Carniça e seus irmãos não cumpriam os requisitos que lhes daria o ingresso nesta. Cunha levava lanche de casa, aprontado com esmero pela mãe. Carniça e seus irmãos comiam a merenda escolar. E repetiam o prato. Cunha era o primeiro a garantir a lista de material escolar novinho e cheiroso. Carniça e seus irmãos várias vezes precisavam ganhar materiais da escola. Uma vez a tia de Carniça levou um monte de materiais que o primo deles não usava mais.

Carniça ainda estava na escola quando arrumou o primeiro emprego de meio-período.

É seu primeiro emprego remunerado, já que ele e seus irmãos ( quem estivesse livre no momento ) às vezes tinham que ajudar o pai nos trabalhos de carpintaria, marcenaria, pedreiro. Quando o pai estava em uma fábrica, não tinha disso. Quando perdia o emprego e fazia coisas em casa, ora precisava de ajuda nas tarefas, ora nas entregas, que eram feitas a pé. O pai de Carniça não tinha carro, e nem sabia dirigir. Quando a entrega era muito grande ou pesada, o pai de Carniça conseguia que algum amigo fizesse o carreto. Mas Carniça tinha que ir junto, pra ajudar a descarregar. Às vezes Carniça tinha sorte e ganhava um Guaraná ou um chocolate.

Cunha estudava e, depois, ia pra escola de inglês, paga pelos pais.

Com seu emprego de meio-expediente Carniça também teria dinheiro para pagar o inglês, se não fosse o fato de que este dinheiro iria para o bolso dos seus pais, que usavam para comprar mantimentos, pagar as contas da casa, o aluguel. De vez em quando dava para comprar uma camiseta ou calça novos. Que deveriam ser usados no trabalho ou em época de Natal.

Enquanto o Cunha pôde, tranquilamente, terminar o primário ( os pais até pagavam aulas particulares para as matérias nas quais ele não ia bem ), dando atenção específica a isto, Carniça já tinha que dividir suas responsabilidades e atenção entre escola e trabalho. Tanto que, como office-boy, ele usava seu tempo no busão ou nas filas para estudar, ler um livro. Uma merda, claro. Por sua vez, quando precisava focar nos estudos, Cunha ia pro quarto ou pra biblioteca do bairro, lugares calmos e adequados.

Carniça termina o primário e seu emprego de meio expediente se torna "full-time". Havia a promessa de que ele poderia ser promovido, daqui alguns anos, a auxiliar de escritório. Mas tinha que esperar. Não que fosse um tormento. Carniça gostava da rua. Na verdade, ele preferia. Por vezes ele se comparava com o pessoal do escritório e tinha pena deles. Claro que, no fim, o salário maior influenciaria na escolha de Carniça. Ele precisava mesmo ganhar mais. Sua familia precisava disso. Mas, no íntimo, Carniça achava que ser office-boy era mais legal. Ele pensava na relativa liberdade que sentia dispor. E nos fliperamas. Mas, verdade seja dita, mesmo com um salário maior, Carniça não passaria a ter muito mais dinheiro. Ao contrário, sua contribuição em casa aumentaria. Enfim, não havia porque se preocupar com a questão ainda. Faltavam anos praquilo se tornar uma coisa real.

Com seus 16 anos, Cunha e Carniça continuam levando uma vida parecida com a que sempre levaram até então.

Como Cunha podia se dar a certo luxo, ele começou a fazer o segundo grau, sem precisar casar ou conciliar isto com um trabalho, nem mesmo um de meio expediente. Fez um profissionalizante, à sua escolha. Escolheu contabilidade. Não se pode negar, ele estudava a sério. Fez também datilografia, pago pelos pais, assim como o inglês.

Apesar de muito jovem, às vezes Carniça já se sente cansado. Oito horas na rua, por mais que ele goste, o deixam mais sem energias que quatro horas num banco escolar. Ele diz isso aos pais, que o cobravam para se matricular pro segundo grau. Ele precisa dar prosseguimento aos estudos. Ele pede um tempo. Afinal, está levando dinheiro para casa e isso é o que deveria importar a todos. O pouco que consegue reservar para si ele não gasta em bobagens, até guarda na poupança. Sem projeto algum, apenas guarda por guardar. Ele alega, em sua lógica juvenil, que era "impossível" trabalhar e estudar, e fazer bem as duas coisas. Pela primeira vez na vida, aos pais ele compara sua situação com a de Cunha. Mas não foi por mal. Era para ser apenas um exemplo de alguém que estuda apenas, sem precisar trabalhar, e que conta com o apoio dos pais para isto. Seu pai responde: "Ele não precisa pagar aluguel. Na verdade, o pai de Cunha recebe dinheiro de aluguéis por aí". Carniça ainda não compreende. Acha que é questão de boa vontade. Por quê seus pais o obrigam desde cedo a trabalhar, afinal?

Os pais discordam numa coisa, mas concordam noutra. Se fosse possivel, eles gostariam mesmo que Carniça apenas estudasse. Mas a realidade material da familia é quem sempre dá a última palavra. Enfim, Carniça seguirá apenas trabalhando, embora algo o incomode: ele já intui que aquilo foi uma vitória relativa.

Passados três anos, a promoção ainda não veio. O salário permanece praticamente o mesmo. Mas Carniça ainda não tem intenção de procurar outra coisa.

E, finalmente, decide voltar à escola. Terá mais três anos de bancos escolares pela frente.

A turma da rua ainda era a mesma, mas já possuem novos hábitos e rotinas que convivem razoavelmente com as de sempre. Ainda jogam bola na rua. De vez em quando juntam uma grana e alugam uma quadra de salão. Um ou outro tem uma namoradinha, outro acolá joga videogame. Às vezes vão no boteco, mas ninguém ali ainda bebe álcool, só guaraná e coca-cola.

Logo, Cunha, assim como Carniça, passa a ter opiniões sobre assuntos além do universo juvenil, do qual iam se afastando. Já não se tratava de opinar se BMX era melhor que Caloi, se o carro da Supermáquina falava mesmo ou se era truque, ou quem era a menina mais bonita da rua.

Quando Cunha narrava o que escutara no programa do Afanásio Jazadi e dizia concordar com a truculência dele, aquilo incomodava Carniça. Mas tudo bem, era só uma opinião que não ia mudar a vida de ninguém. Ainda eram jovens e a divergência pontual de ideías não tinha o poder de afastar ninguém. Além disso, haveria tempo para que estas "divergências pontuais" se somassem a outras e, conjuntamente, se tornassem finalmente a base do pensamento de cada um deles. Naquele momento, a "divergência pontual" se encerrava na figura de um tapão na orelha, de brincadeira.

Na temida época de se apresentar pro serviço militar. nenhum dos dois amigos foi convocado. Cunha conseguiu, por intermédio de um amigo do pai, ser dispensado. Carniça não passou e não soube o motivo. Ele era raquitico, mas conhece raquiticos que serviram. Tinha asma, seria por isso? A pésima dentição? Arrimo ele não era. Enfim, não quis nem saber.

Cunha termina a escola e conta a Carniça que o pai lhe arrumará um emprego no escritório de um amigo. Cunha ganhará mais do que Carniça ganhava. Afinal, já manjava um pouco de contabilidade. Cunha finalmente começa a trabalhar e fica com o dinheiro do salário para si. Carniça ainda não. Não tarda, e logo Cunha compra um carro, com o dinheiro do trabalho dele. Carniça comprou uma calça nova, para trabalhar. Cunha comprou uma calça e um tênis novo, pra ir nas festas. Cunha começa a fazer cursinho.

Tempos depois os amigos se encontram na rua, conversa vai, conversa vem, e Cunha diz a Carniça que seu chefe é todo elogios e que, em breve, vai pintar uma chance boa lá no escritório para ele. Uma das moças se casará e isto abrirá uma oportunidade com salário maior.

- Já pensou - diz Cunha - não tenho nem dois anos lá, pinta uma chance dessas e eles pensam em mim? Tem que ser bom, mesmo!

Os anos de trabalho de Carniça, no entanto, nada siginificavam. Seu esforço, resultados práticos e experiência apenas o levaram a ser cada vez mais elogiado pelos chefes e só. De fato, como eles lhe diziam, nunca houve melhor office-boy naquele escritório. Em vez da promoção prometida há tempos, ele pede um aumento. Eles ficam de pensar. Antes disso, que tal se ele se esforçasse mais? Assim, ele passa a ajudar - "aprender", diziam os chefes - também nas tarefas do escritório. Apesar disso, como os irmãos do Carniça estão todos já trabalhando em algum subemprego, finalmente sobra uma merrequinha do salário para ele. Mas não pode abusar.

( Futuramente, já demitido daquele estabelecimento, Carniça descobriria que aquele "aprendizado", que era específico PARA AQUELE escritório, não lhe serviria como argumento para arrumar emprego de auxiliar, já que em sua carteira de trabalho havia o registro explícito de "office-boy" e nada mais. )

Carniça sai do escritório às 5 e volta para casa, que é próxima tanto do escritório como da escola. Descansa, come um lanche, toma um banho, e ruma para o colégio. Que, dessa vez, é estadual. Mas já não é a mesma coisa de antes. Como no primário, também agora, Carniça se sai bem nos estudos. Com uma diferença em relação ao primário: ele não se esforça tanto. As notas no boletim não indicam isso. Quem as visse acharia que ele era um CDF, o que estava longe da realidade. Ele só queria o diploma. Naquele momento, era apenas questão de cumprir uma formalidade. Como participar de uma gincana.

Cunha, que fez cursinho, passa no vestibular, para um dos cursos mais disputados da época, ganha elogios e um pequeno aumento do chefe, como presente por ter passado no vestibular, o que seria útil e decisivo às pretensões de ambos ali na empresa.

Carniça é demitido por "responder mal" ao chefes, depois de ter cobrado o aumento de salário ou a promoção, o que viesse antes. O aumento nunca veio, assim como a prometida promoção.

Cunha é promovido e compra uma garrafa de whisky, como presente para si. Carniça vai chorar as mágoas de sua demissão bebendo Cavalinho no boteco do Bahia.

Carniça finalmente recebe o diploma de segundo grau. Mas não tem dinheiro para pagar faculdade particular e a pública está fora de cogitação. O jeito é continuar se dedicando ao trabalho, quando estiver em algum. Quem sabe as coisas mudam, vai se saber.

ANOS SE PASSAM

Um outro dia qualquer, se encontram numa lanchonete do bairro. E começam a botar a conversa em dia. Falam da família, de como o bairro mudou, dos empregos, de futebol, da velha turma etc. Cunha se surpreende ao saber que Carniça nunca faz faculdade:

- Você tirava boas notas, eu lembro, todo mundo falava isso.

- É, concluiu Carniça.

E tome cerveja. Embora nenhum dos dois ainda leve isso tão a sério, chegam até a virar amigos no Orkut, depois de tantos anos sem se verem. Lindo isso, como essa tecnologia, essa modernidade, ela une e reúne as pessoas.

Depois de anos, uma velha amizade se renova. Marcam de se encontrar outras vezes.

Numa dessas ocasiões, até por falta de assunto naquele momento, Cunha conta dos esquemas que a firma dele fazia, ora enganando fornecedor, ora enganando cliente. Sem contar das vezes que a firma, que às vezes prestava serviço pros governos, acabava metendo a mão mesmo era em verba pública. O Cunha não contava isso em tom de denúncia, mas de regozijo. Até porque ele, o Cunha, TAMBÉM fazia uns esquemas dele dentro da firma. Ele contava os casos com um profundo ar de autosatisfação. Carniça escutava mas nem comentava. Não seria a primeira vez em que lhe contavam coisas assim. Trabalhava de balconista numa loja e vez ou outra ouvia confissões parecidas. Não gostava dessas histórias, mas, fazer o quê? Bater boca e perder o emprego?

VEM O FACEBOOK
Os amigos de Orkut e de infância migram para o Facebook. A partir daí, embora não ainda saibam, estaria determinado o fim da amizade. O Orkut não teve condições de fazer isso, mas a plataforma do Zucker teve esse poder. Claro que a culpa não é da plataforma em si, mas talvez do momento em que isso aconteceu. De repente, Cunha começou a redescobrir seu talento para contar as piadas que faziam a alegria da molecada de sua infância. AQUELAS. Percebeu que havia um imenso campo, propicio a isto. E obteve sucesso. Para sua imensa satisfação, conseguiu uma legião de novos amigos. Muitos deles, talvez a maioria, adorava repassar adiante as piadas de Cunha. Este, por sua vez, além das piadas e de comentários sobre politica, adorava postar as fotos que demonstrassem seu sucesso. Assim, às imagens de sua visita à uma das haburguerias gourmet mais caras da cidade, ele acrescentava comentários sobre "mortadela" e "comer calango". Sob a foto que tirou quando foi a Nova York, a legenda: "Hot-Dog na 5a avenida é mais chique do que pão com mortadela em Itaquera"
Cunha versava sobre os direitos das pessoas ( "Muitos. Dever que é bom ninguém quer" ) e amava contar como subiu na vida. "Com o proprio esforço", contava. Teve milhares de "Curtir" quando contou a história de que "vendia chocolate aos 12 anos". 
Só que Carniça, que sempre lia as postagens do amigo - e vice-versa - corrigiu-o, dizendo que ele vendia os chocolates e pegava o dinheiro para ir ao cinema. "Não lembra que era assim?", perguntou a Cunha. Este detestou ter sido corrigido por Carniça.

Depois desse dia, começou uma espécie de "guerra não declarada" entre os amigos. Um escrevia algo sobre o desemprego, outro ia lá e falava que a culpa era do governo. Outro falava sobre impostos e era contestado, com a informação de que os ricos quase nada pagavam.

Ficou nisso por meses e anos.

Por fim, Carniça bloqueou de vez o Cunha quando este, em época eleitoral, além de novamente falar sobre sua própria meritocracia, omitindo as partes mais significativas, resolveu reclamar da corrupção no Brasil. Aí não tinha mais jeito.

FIM

(*) Sim, o nome é ligeiramante inspirado em "Tonico e Carniça", clássica obra da igualmente clássica Coleção Vagalume

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