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domingo, 29 de maio de 2016

O Brasil monstruoso revelado pela leitura dos comentaristas de sites



Os sites que permitem comentários se tornam a cada minuto lugares impróprios para quem deseja manter sua sanidade e alguma esperança na Humanidade ou em si mesmo.

Vamos considerar, apenas por um momento, que o estupro da adolescente por 30 ou 33 criminosos seja uma farsa. Eu li algo assim, acreditem. Não levo essa possibilidade a sério de forma alguma.

Parece óbvio que quem propõe essa monstruosidade não o faz pensando em nos alertar, mas sim, de colar na vítima adolescente a pecha de mentirosa. Além de "nóia" e "vagabunda", ela também seria "mentirosa", capaz de inventar ter sofrido um estupro coletivo.

Mas vamos admitir, por alguns minutos, que eu e outros milhões de pessoas estejamos sendo feitos de trouxas. Que, na verdade, o que existiu foi um gang-bang consentido, do qual a adolescente, por alguma razão, tenha se arrependido depois de ter participado.

A notícia boa, se é que podemos dizer assim, é que seria uma vítima de estupro a menos no Brasil. Uma gota d'água no oceano (*).

De resto, o que emerge daí, não é nada animador. Pelo contrário. É desesperador.

Li uma entrevista com um músico, décadas atrás. Não lembro em detalhes mas, na época, não sei se por iniciativa da Prefeitura paulistana ou se da Câmara de Vereadores, a suástica nazista foi banida, sendo proibido o uso, o comércio, etc. Perguntado sobre o que achava daquilo, para minha surpresa, o músico gringo ( um punk anti-nazismo, anti-corporações, anti-Reagan ) disse ser contra, com a justificativa de que sem o ornamento ficaria difícil identificar quem são. Uma opinião controversa, mas tem seu mérito.

Assim, nessa linha de raciocinio, por mais que a imensa maioria dos comentários sobre esse estupro ( mesmo que ele não tivesse acontecido ), em qualquer site, blog ou portal de notícias seja horrível, nojenta, asquerosa, brutal, monstruosa e revoltante, pode-se ao menos avaliar com alguma precisão o tamanho do buraco em que estamos (**). Se não se expusessem, em toda sua abjeção doentia, acharíamos que cada um deles é um sujeito ou mulher bacana, pacatos "cidadãos de bem". O espaço dedicado a comentários é a corda em que se enforcam. Muitos deles ali dão ampla razão a quem alega que todo homem é um estuprador em potencial. Se todos os homens somos mesmo [ estupradores em potencial ] eu não sei, mas muitos daqueles comentaristas deveriam ser monitorados pela polícia, como forma de prevenir uma tragédia.

Vamos, pela última vez nesse exercício hipotético, considerar que este estupro é uma farsa. O pensamento mais razoável a respeito disso talvez seria "Olha gente, esse caso não aconteceu, vocês foram enganados. Porém isso não muda nada a realidade das mulheres e dos milhares de estupros que ocorrem no Brasil, notificados ou não."

Mas o pensamento corrente, exposto pelos comentaristas de portais é: "Essa história tá mal contada. Esse estupro é caô, a mina é nóia vagabunda e provocou isso aí e agora quer dar uma de santa, de vitima. Essas mina são assim."

Não poucos deles ainda desdenham e fazem pouco caso dos outros milhares de estupros e das milhares de mulheres vitimas da violência. Ao tentarem negar, minimizar e desmentir esse caso específico da adolescente carioca, parecem desejar fazer o mesmo com todos os outros.

Como diz o ditado, o reconhecimento da doença é o princípio da cura. A doença já se conhece, não é de hoje. Talvez não soubessemos ainda o grau de severidade que acomete o enfermo. Só temos que ter cuidado de proteger o fígado e taparmos o nariz quando fizermos uma incursão por esse mundo sinistro dos comentários de portais.

(*) Desconheço o que diz a lei a respeito da participação de adolescentes de 16 anos em um hipotético gang-bang "consentido", envolvendo dezenas de adultos

(**) Justiça seja feita, isso tem valido para praticamente todo tipo de assunto discutido e comentado.


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