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sábado, 2 de abril de 2016

"Não atendo petista!" ( conto )



O sujeito está numa padaria de um bairro de classe-média paulistana, bebendo um Steinhagen e assistindo à TV. Como de praxe, a TV está sintonizada no Datena. O apresentador fala sobre a onda de ataques a residências, ocorridos em bairros paulistanos de classe-média. Todos os ataques resultaram em mortes horrendas, incêndios, roubos. Violência inenarrável. Parece coisa de serial killer. O apresentador segue justamente essa linha de raciocínio:
- Parece coisa de serial killer.
E emenda:
- Tanta coisa pra gente importar, vai importar essa porcaria de "serial killer". É só no Brasil. Me ajuda aí, pô!
De repente, caindo de páraquedas, chega um outro e fala, praticamente babando na orelha do cara que bebe o Steinhagen, pra todo mundo escutar:
- Isso é culpa do PT! É coisa do PT!
Por saber que está num bairro de classe-média, ou seja, em sua zona de conforto, o cidadão sabe que pode falar essas coisas, sem correr riscos. Nessa zona de conforto, ele pode falar o que quiser, que ninguém lhe exigirá provas. Se gritar que o PT matou Kennedy, será até aplaudido. 
Bem, mas eu falava sobre o serial killer. Que é outro tipo de psicopata. Mantenhamos o foco num tipo de psicopata apenas. Por enquanto.
Datena muda de assunto e passa a falar sobre o caso da pediatra que se recusou a atender uma criança pelo fato do pai ou da mãe serem petistas.
O chato volta a se manifestar:
- É isso aí! É assim mesmo! Na minha firma eu não contrato petista! E, se tiver algum, eu mando embora.
Termina de falar e olha pro cara do Steinhagen. Este permanece impassível. 
O chato insiste:
- Não tô certo não, amigo?
O cara do Steinhagen nem "tchuns".
O chato não desanima:
- Tem que ser assim mesmo! Não é não, patrão?
Em vez de responder pro chato, o cara faz um sinal pro balconista, e este lhe serve outro Steinhagen.
O chato vê aí nova chance de se manifestar:
- Já sei que você não é petista!
Aí ele conseguiu ter a atenção do Steinhagen (a partir daqui, é assim que ele será denominado, em vez de "cara do Steinhagen"):
- Como você sabe?
- Bem, isso é óbvio: você não tá comendo mortadela, e tá bebendo Steinhagen, em vez de vinho licoroso São Tomé. Ou seja, não pode ser petista.
- Mmm, sei.
O chato estende a mão pro Steinhagen:
- Sou o Felippo. Mas pode me chamar de Italiano, pois minha familia veio toda da Itália. 
Felippo se orgulha da origem italiana, o que equivale a dizer que se orgulha de suas origens ditas européias. Se é que vocês me ententem.
- Aqui nessa padaria é tudo gente fina. Tudo gente distinta. Tudo gente de bem. De boa família. De boa ORIGEM. Esse bairro é assim e vai continuar assim. 
Nota-se que o Steinhagen não vai mais ter paz pra consumir seu drink tranquilamente.
Felippo retoma o papo:
- Se tá tudo mal, é culpa do PT!! Eu não atendo petistas! Não vendo pra petistas! Não emprego petistas! Meus filhos não andam com petistas! Vamos limpar o Brasil! Não tô certo??
Steinhagen responde:
- É, tá certo sim. Meu público-alvo também não tem petista. Eu só trato e negocio com gente de bem, como você. Petista eu deixo de lado, não quero nem saber. 
Os olhos de Felippo até brilham:
- Fico feliz em conhecer gente que tem essa visão, esse pensamento. Aqui não tem mortadela. Na verdade tinha que pôr uma placa aqui no estabelecimento "Não atendemos petistas"! Não é?
Steinhagen responde:
- No caso desse estabelecimento eu não sei. Mas no meu caso, também não atendo petistas. Com esses não faço negócio. Desses eu nem vou atrás. 
O celular de Felippo toca. Sua esposa o chama pra jantar. Felippo se despede de Steinhagen:
- Desculpa aí se falei demais, você tava aí tranquilo na sua. Mas é que tem umas coisas acontecendo no Brasil que me tiram do sério. Aí a gente quer falar, né?
- Tranquilo. Até foi uma conversa proveitosa.
- Não atendemos petistas.
- Não atendemos petistas.
Felippo diz a Steinhagen pra aparecer novamente amanhã, pra continuar a conversa. Steinhagen responde que não será possível, que terá que atender um cliente bem cedo.
- Mas esse cliente não é petista não, né? HA HA HA!, diz Felippo.
- Não, hehehe, não é petista. Com certeza, não. É um cliente novo, mas sei que não é petista. Pelo contrário.
- Ah, sim. Somos "coxinhas", lembrei disso agora. Abraços.
Felippo paga a conta e ruma em direção à casa, cerca de 50 metros da padaria.

Horas depois, Felippo desperta com um barulho que vem da sala. Yvone, a esposa, permanece dormindo. Ele olha pro relógio. São duas da manhã. Ele presta atenção, sem se mexer, prendendo a respiração. Novo barulho. Tem alguém na casa. Ele pega o 38 na gaveta do criado-mudo, respira fundo, sai pela porta na ponta dos pés. Desce a escada.
Chegando na sala, olha com dificuldade ao redor, pois está muito escuro.
Subitamente sente algo nas costas e alguém põe a mão em sua boca:
- Solta a arma e fica quieto, vagabundo.
Sem outra opção, Felippo bota a arma no chão, que o estranho recolhe.
Estranho, não, na verdade, pois ele tira a touca ninja e revela sua identidade:
- Steinhagen?
- Sim. Digo, não é esse meu nome.
- O que você quer? 
- Meu, olha a hora, olha a arma na minha mão, olha a touca ninja que eu tava usando. O que você acha que eu quero? 
- Você é assaltante?
- Entre outras coisas. 
- Mas. mas...
- Não tem mais nem menos. Quero a grana, relógio, celular. Anda logo!
- Por quê eu? Olha, eu te dou o endereço de outro cara. É o Anselmo. Nem gosto muito dele. Vai lá, pô! Pensei que a gente tivesse feito amizade hoje.
- Eu vi esse Anselmo lá na padaria. Os caras comentaram que ele é petista. Não quero saber de petista. Sou que nem você e aquela pediatra lá que o Datena falou. Com petista não faço negócio. Agora chega de papo. Cadê a grana?
Felippo recolhe tudo o que tem de valor, bota numa bolsa que Steinhagen trazia consigo e entrega a ele:
- Pronto. Tá tudo aqui. Cartão, senha, celular. Agora você vai embora, né?
- Como assim? Nem comecei ainda.
- Hã?
- Você não prestou atenção na notícia lá? O Datena falando do "serial killer" que anda invadindo as casas?
- O-o-o-q-q-quê?!
- Pois é, irmão.
- Por favor! Eu tenho família.
- Vou cuidar deles também. Não deixo serviço inacabado.
- Mas eu...
Não deu tempo de terminar a frase, depois da garganta cortada pela navalha de Steinhagen.

A cena da selvageria do ataque fica por conta da imaginação do leitor. Apenas menciono que partes da coxa e da panturrilha das vítimas foram cortadas, em fatias, e deixadas no local, sobre a mesa da cozinha, ao lado de pães franceses. Como se fossem fatias de mortadela. 
Ironia proposital de Steinhagen, autor do massacre. Que, aliás, detesta política e continuará com seus ataques. Sempre com sucesso. Por longos e longos anos.

Morrerá, muito tempo depois, de velhice, sem ser apanhado. E sempre fiel a seus princípios de não atender petistas.

FIM.



...

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