terça-feira, 22 de março de 2016

Tamanho simbólico de Lula move os esforços do governo em salva-lo e da direita em destruí-lo




No dia da nomeação de Lula para o Ministério da Casa Civil, antes da justiça federal expedir a primeira liminar impedindo a posse, fui à padaria. Conversei com a atendente que aparentava uma origem humilde e apresentava um sotaque nordestino, e ouvi da mesma: “O Lula é esperto, não fez faculdade e foi mais inteligente que esse povo metido que fez”.

No dia 1° de janeiro de 2003, um país historicamente dominado pelas elites e com uma tara elitista viu um operário com segundo grau incompleto, que fala errado e com hábitos populares, como tomar cerveja no bar ou falar de futebol, sentar o traseiro na cadeira da Presidência da República. Ou seja, o povo, cuja o poder emana dele, passava a ser representado por um homem popular. Não era um intelectual, um empresário, um agropecuarista, um petista acadêmico ou tecnocrata, era simplesmente um sindicalista operário.

Um pequeno burguês de classe média alta, como eu, não tem e nunca terá a noção do que isto representa simbolicamente para os operários e trabalhadores brasileiros. Ver uma pessoa semelhante a eles subir a rampa do Palácio do Planalto e colocar a faixa presidencial tem um valor inestimável para as classes menos favorecidas de um país tão desigual quanto o Brasil. É isso que faz Lula ser um fenômeno.

Não cabe aqui dissertar se seu governo foi favorecido por uma conjuntara internacional, se Lula é culpado ou inocente, se o lucro dos banqueiros e das empreiteiras foram os mais altos da história, ou se as reformas que a esquerda sempre sonhou ficaram à margem. Fato que o Brasil melhorou e muito no período Lula. Nunca a distribuição de renda, as conquistas de direitos e a evolução material foram tão grandes. Em outras palavras, o país que sempre foi muito ruim quando governado 500 anos por uma elite escolarizada, passava a ser aceitável ou um pouco melhor na mão de um operário.

A classe média, estudada por Florestan Fernandes, sempre esteve exprimida na correlação de classes brasileira. Ela não tem união como a elite tem em torno de interesses, nem a ideia de comunidade das camadas mais pobres. Paralelamente, o que a separa da classe mais baixa, além do poder econômico, é o status da universidade. Ter um diploma universitário, no Brasil, não passa de um certificado de pertencimento, afinal a produção acadêmica do país beira ao ridículo.

Além do incomodo de ver as classes mais baixas se igualarem no acesso à alguns bens, ter um sujeito sem diploma universitário e primor pelo português coloquial ocupando um cargo como o de Presidente da República faz a classe média entrar em parafuso e manifestar todo o seu preconceito. Você já deve ter ouvido a prova disso em indagações como: “Um sujeito sem o ensino médio governa o meu país? ”, ou, “Eu trabalhei tanto, e um sujeito que cortou o próprio dedo ganha o mesmo do que eu? ”.

Lula é, acima de tudo, um símbolo político de peso para as classes mais baixas e a imagem do operário no poder, o mesmo peso simbólico que Barack Obama tem para os negros de todo o mundo. Como os mais pobres são maioria no país, mesmo que muitos ainda carreguem os mesmos vícios e aspirações elitistas da classe média, o sucesso e a idolatria ao ex-presidente acabam sendo sintomáticos, e isso irrita muita gente.

Lula não está acima da lei. Pelo idealismo do Estado Democrático de Direito, ele tem que pagar pelos crimes que cometeu. Mas tem que haver provas consistentes de cometimento de crimes e os ritos judiciais, que claramente estão sendo atropelados, devem ser cumpridos.

Mas se Lula não está acima da lei, infelizmente, há pessoas que estão. Aécio é “pentadelatado” na Lava-Jato, Cunha tem contas na Suíça, o escândalo do trensalão corre em segredo de justiça, o mensalão mineiro foi julgado em primeira instancia (enquanto o mensalão petista foi julgado no STF), a privataria tucana e o mensalão da reeleição sequer foram investigados, Maluf está na comissão do impeachment, e por aí vai.

Lula está enfraquecido e nas cordas, mas tem uma retórica, um discurso, uma lembrança que remete à um passado glorioso recente e uma imagem ligada ao operário no poder. Apesar de muito difícil, os predicados do ex-presidente são capazes de virar o jogo, assustando assim os tucanos que ainda sonham em ver essa geração de líderes voltando à presidência.

O objetivo claro é destruir Lula, destruindo por tabela o PT e praticamente decretando o impeachment de Dilma. Para tal feito, a direita usa toda sua força que tem no judiciário, com usos e abusos de autoridade.

Os esforços do governo em salvar Lula e da direita em destruí-lo se dá porque a política é muito simbólica, e o ex-presidente tem uma simbologia muito forte no jogo político-eleitoral.

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