Monitor5_728x90

domingo, 20 de março de 2016

Semântica : "Corrupção" é a palavra que veio higienizar as velhas e antigas demonstrações e expressões de ódios e preconceitos mil.



O FEITIÇO DA "CORRUPÇÃO"

Por dever de ofício (ganho pobremente a vida como pesquisador), acompanho os perfis antipetistas no Twitter e no Facebook há mais de cinco anos. Bem antes, portanto, que a expressão "antipetista" fizesse sentido e começasse a ser usada (eu comecei a usá-la na campanha de 2015). Temos o "crítico do PT" e até a "oposição ao PT", mas, para usar uma contraposição clássica na Teoria Política, o antipetista não considera o PT adversário, mas inimigo. Adversários precisam ser vencidos, inimigos precisam ser aniquilados. Move o antipetista a convicção de que o PT representa o Mal e precisa ser expurgado, cancelado, extinto. Removido "para o quinto dos infernos" como gosta de repetir um amigo.

Pois bem antes da crispação extrema em que nos encontramos, já era muito comum a expressão do ódio ao PT, a Lula, aos programas sociais e a qualquer política social, às pautas voltas para afirmação de direitos de minorias e dos excluídos, aos discursos sobre o reconhecimento de grupos estigmatizados e, por fim mas nem por isso menos importante, já se compartilhava a ojeriza à transformação de pobres e miseráveis em consumidores de bens, serviços e espaços antes reservados à classe média tradicional. Vamos combinar que conservadores, fundamentalistas, homofóbicos, portadores de preconceito de classe, racistas (inclusive os novos "racistas geográficos") e ultraliberais nunca gostaram do PT, de Lula e do que estes "representavam". E não pelas razões certas.

Já os observo muito antes que os rótulos "gayzistas", "esquerdopatas", "lulopetistas", "abortistas", "inimigos da família" fossem trocados por "corruptos". Acompanho a cronologia dos insultos a Lula, o "quatro dedos", "cachaceiro", "peão", "analfabeto" e "apedeuta" muito antes de que tudo se resumisse "ladrão", "corrupto" e "chefe de quadrilha". Tenho o registro de quando Dilma saiu de "poste" e "gorda" para "puta", "vaca" e “sapatão” até que tudo se condensasse em chefe do "governo mais corrupto da história do Brasil". E lembro quando as críticas das candidaturas do PT à presidência partiram do "sem experiência para governar" e evoluíram para “exploradores eleitorais dos dependentes da bolsa esmola" e dos "Nordestinos, este povo bovino", até chegar ao mesmo ponto para onde evoluíram todos os outros rótulos usados para o seu rebaixamento: o partido da corrupção.

Em suma: o ódio ao PT vagabundeou muito de rótulo em rótulo, de palavra-chave em palavra-chave, até pousar na "corrupção" e fazer desta o seu ninho, mas é sempre o mesmo velho ódio, só que mais encorpado. Que fique claro: não tenho dúvida de que foi o próprio PT e o próprio Lula, por mandarem muitíssimo mal no que respeita ao comportamento republicano, que entregaram a régua e o compasso com que os seus “haters” pudessem, enfim, forjar uma base semântica forte para concluir a obra de degradação de ambos. Mas o ódio mesmo que sustenta a oficina de degradação do PT na esfera pública, esse ódio é conhecido e vem de muito longe.

Os rótulos com que se detratavam PT e Lula convergiram, pois, na corrupção. O que serviu, antes de tudo, para higienizar os discursos, os valores e as intenções dos detratores. Assim, para desqualificá-los ninguém mais precisa dizer que detesta os programas sociais do PT que entrega caridade e fideliza eleitores, que detesta o gayzismo e a "ideologia do gênero" moldados para destruir a família. Não precisa mais dizer que preferia o tempo dos militares. Não há mais qualquer necessidade de dizer que se adoraria enxotar essa "gente diferenciada" dos “nossos” aeroportos, centros de compras ou vizinhança, nem mesmo de dizer que o desejo, contido, era afogar nordestinos no Tietê, ou separar o Brasil próspero do Brasil atávico e tropical. “Tudo culpa do PT”. Ninguém precisa mais dizer que se preferia um presidente intelectual da Sorbonne e não um torneiro mecânico.

Para que sujar as mãos, queimar o próprio filme, arriscar a antipatia social? Nem mesmo há necessidade fornecer aquele famoso argumento público que dificilmente vence as resistências liberais ou republicanas e traz mais antipatia ao detrator do que apoios. É bastante que se diga que se é contra a corrupção, que corrupto tem que ir para a cadeia, que o partido que mais se beneficiou da corrupção na história tem que ser banido, que a presidente que comprou a sua eleição com corrupção precisa ser demitida, que Aécio, Bolsonaro, Temer ou Tiririca precisam assumir o Brasil para fazer uma faxina e eliminar de vez a corrupção petista que contaminou tudo. Nas águas do combate à corrupção, emergem os discursos feios, sujos e malvados, para, então, ressurgir, purificados e revigorados, agora na forma da expressão da mais pura indignação moral ante os ultrajes antidemocráticos representado por Lula, por Dilma e pelo PT, a quintessência do Mal. Obra brilhante, meus amigos. Quero ver que gênio da fabricação de imagem vai ajudar o PT descontruir esse feitiço semântico.

WILSON GOMES, no Facebook


...



...

Nenhum comentário :

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Golpe