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quarta-feira, 16 de março de 2016

Lula ministro?! O que isso significa?, por Wilson Gomes

Começou o campeonato nacional de interpretações sobre os porquês e para quês de Lula ter assumido a Casa Civil do governo Dilma. Interpretar fatos políticos é divertido e não custa nada, então todo mundo pode entrar na farra, inclusive os meninos jornalistas, analistas, comentaristas e palpiteiros de bar. E de redes sociais, claro.

Em alguns casos, as posições já estão ocupadas no xadrez político, e as alternativas de movimento interpretativo podem ser facilmente previstas. Poderia a oposição dizer outra coisa que não adotar uma das versões seguintes? (I) Lula foi feito ministro para evitar o imediato ajuste de contas com a Justiça, refugiando-se no colinho do Foro Privilegiado; (II) É um abraço de afogados: um ex-presidente sem legitimidade e lutando para não afundar resolve servir de boia para um governo que faz águas por todos os lados; (III) É um retrocesso na moralidade pública, um descalabro, um escárnio, um acinte, uma afronta, uma...(ufa, esgotei o meu repertório de indignação de velhos).

A oposição e os antipetistas não têm escolha, há três casinhas hermenêuticas a serem ocupadas e, pronto, todo mundo tem que caber nelas. No máximo, pode-se usar todas elas. Aposto que Merval, que não é de economizar em fúria e adjetivos, vai em todas ao mesmo tempo, de barba e bigode.

No governo, há muitas alternativas, mas todas procurarão não mencionar ou admitir que Lula estava nas cordas. No máximo, admitirão que (IV) Lula estava sendo objeto de uma perseguição, sem precedentes, do medonho aglutinado Moro-procuradores-polícia federal-mídia e, agora, deu a volta por cima. A versão triunfalista celebrará (V) o retorno sebastianista de Lula ao Planalto: o tão esperado ‪#‎Lula2018‬ virou um surpreendente ‪#‎Lula2016‬.

Fora do ambiente mais propriamente petista, haverá outras versões com boas probabilidades de disputar o mercado hermenêutico. A primeira, a ouvi de um amigo, empresário e nada afim ao petismo: (VI) enfim, alguém aparece uma pessoa capaz de governar este país, superar o impasse político e permitir que a roda da economia, emperrada a um ano, comece a rodar - chega da farra política, vamos trabalhar. Outra, na mesma linha, (VII) tenta afirmar Lula não como o sujeito fraco que corre a buscar refúgio no governo do assédio do Ministério Público, mas como o o sujeito politicamente muito forte capaz de destravar a política de Brasília e tirar Dilma do cheque-mate em que ela se meteu.

As interpretações em que Lula está por baixo - (I) Lula fujão, (IV) Lula protegendo-se do assédio - parecem ter saído na frente, desde antes da confirmação de que ele assumiria um Ministério. Até grande parte da imprensa internacional parece ter comprado a tese (I). O principal problema da hipótese é que "foro privilegiado" não tem significado, ao menos para PT, sequer algo perto de impunidade. Bem antes de Moro aparecer no cenário, coube ao STF (que não é um curral de cordeirinhos, como a hipótese supõe) o processo do mensalão, onde tudo começou. Demais disso, e por incrível que possa parecer a alguns, Moro não é o único magistrado neste país capaz de condenar políticos.

O segundo problema é que para obter o privilégio de um foro superior, teria bastado a Lula assumir a Secretaria Geral da Presidência, como se chegou a anunciar - lugarzinho mais tranquilo, simpático e menos trabalhoso. Com a Casa Civil, ele se coloca no centro da máquina política do governo e, de fato, dada a sua estatura e as atuais circunstâncias políticas, está mais próximo de um Primeiro Ministro do que de um refugiado da Justiça.

As apostas, de repente, ficaram muito altas. Politicamente, é tudo ou nada. Enquanto isso, o mercado das interpretações e o mercado financeiro compartilham, surpreendentemente, uma característica: estão enlouquecidos. Em política, há tudo, menos tédio. Boa noite, amigos.

WILSON GOMES, no Facebook

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