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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Precisamos falar sobre os programas policialescos, por Leonardo Rossatto




Semana passada, rolou uma cena horrível perto de casa: um menino de 13 anos de idade foi tentar pegar a “rabeira” de um caminhão, em uma bicicleta, e não conseguiu se equilibrar. O descuido foi fatal — o caminhão acabou passando por cima do menino, que morreu na hora.

Em pouco tempo, o que já era horrível se tornou grotesco: começaram a surgir helicópteros e carros de reportagem, quase simultaneamente com os veículos de resgate, que ainda tentavam ressuscitar o garoto sem sucesso. Com eles, vieram um monte de carros da polícia, muitos deles que nem precisariam estar ali. Era algo em torno de cinco horas da tarde, horário de nossos programas policialescos cotidianos.

O pobre garoto, vitimado pela imprudência e por alguma falta de sorte, era a estrela dos programas sensacionalistas da tarde. As imagens de helicóptero não hesitavam em mostrar as tentativas de ressuscitação e, depois, o corpo coberto com uma lona escura. A família provavelmente nem havia sido informada ainda (a notícia linkada diz que ele estava com um amigo, voltando para casa de bicicleta, após passar o dia em uma piscina com a família), e milhares de pessoas estavam horrorizadas vendo a morte do jovem.

Isso levanta a discussão: qual o limite dos programas policialescos? O que eles acrescentam à sociedade? Por que eles não podem ser proibidos? A televisão, especialmente a aberta, tem tornado bem mais rígidos os seus limites de alguns anos pra cá. Na década de 90 tínhamos Banheira do Gugu e Sushi Erótico nas tardes de domingo, além de coisas horríveis como redes de TV que mostravam na hora do almoço escombros do Fokker 100 da TAM ou do avião dos Mamonas Assassinas. Isso foi saindo da grade menos pela rejeição das pessoas e mais porque os órgãos regulamentadores viram que era necessário impor limites a esse tipo de coisa. Não havia mais lugar para esse tipo de espetáculo assombroso.

Mas daí veio a Internet, e com ela, a ideia de que qualquer interferência na programação televisiva, por mais sutil que seja, é CENSURA. Pra piorar, associaram isso à histeria que dá o tom em tudo o que envolve o PT, e o discurso ficou mais ou menos algo como “VAMOS MOSTRAR TUDO MESMO E SE NÃO DEIXAREM É ESSE MALDITO PT COMUNISTA CENSURADOR”

O sensacionalismo usou a histeria de uma parcela da população para vencer. Pior que isso: ele também forma políticos. Não é um acaso que Celso Russomanno, deputado mais votado de São Paulo e potencial prefeito da cidade em 2017, tenha saído desses programas. José Luiz Datena, que também quer a prefeitura de São Paulo, também quer ser prefeito.

O problema é que esses programas são um enorme desserviço à sociedade. Por diversos motivos:

Louvação sistemática a uma polícia truculenta e a uma mentalidade que deseja transformar a truculência em assassinatos ( não é à toa que a PM de São Paulo matou em 2015 como não matava desde 2006, naquela crise do PCC )

Espalhamento de uma cultura do medo, que mostra crimes sistematicamente para que as pessoas DESEJEM policiamento ostensivo toda hora e em todo lugar, abrindo mão de sua liberdade por medo de uma violência que existe, mas é obviamente exagerada.

Discriminação a diversos grupos sociais, em especial os que questionam a polícia de qualquer forma. Manifestante vira “baderneiro” e pobre vira “bandido” quase em associação automática. E essa mentalidade é espalhada para milhares de pessoas todos os dias.

Sensacionalismo grotesco, incluindo aí imagens de pessoas mortas e cenas fortes em um horário em que qualquer criança de 3 anos de idade tem acesso ao controle da TV.

Promoção política dos apresentadores e de suas posições preconceituosas: Datena e Russomanno são só a ponta do iceberg, dezenas de políticos com cargo eletivo ( deputados federais e estaduais e vereadores, especialmente ) já foram apresentadores desses tipos de programas de TV um dia.

Existe um boato na Internet dizendo que o Uruguai “proibiu programas policiais”. Na verdade, o que eles fizeram foi muito melhor que isso: eles regulamentaram. Pelo teor dos programas, eles só podem ser apresentados entre as 10 da noite e as seis da manhã. A mesma lei que regulamentou o uso de maconha no país regulamentou isso. Foi uma estratégia complexa contra o tráfico. E, aparentemente, funcionou. O país zerou as mortes relacionadas ao tráfico de drogas desde que a lei entrou em vigor. Isso ocorreu por um motivo bem simples: a estratégia fracassada da guerra às drogas, com forte repressão policial, foi abandonada.

E, acredite: os programas policialescos são importantíssimos nessa estratégia de guerra às drogas. Porque são eles que passam para a população essa sensação de que é necessário confiar na polícia para que ela possa “fazer essa guerra em paz”. Mas em algum tempo a guerra deixa de ser contra as drogas e passa a ser contra qualquer coisa que incomode a polícia, de gente saindo para trabalhar às 5 e meia da manhã manifestantes querendo que a passagem de ônibus não aumente.

Enquanto houver esse monte de programas policialescos mostrando sangue e entranhas em horário nobre, vai ter quem defenda a truculência policial mesmo nos casos mais pueris. Então o primeiro passo é seguir o exemplo do Uruguai e levar esses programas sensacionalistas para um horário mais restrito. Porque eles só prejudicam a sociedade.


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