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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

" Je suis Charlie??", por Lucia Helena Issa



" Je suis Charlie??" Só hoje, depois de 7 dias em alto mar, consigo escrever sobre a vergonhosa charge da revista francesa Charlie Hebdo, que sugere que se o menininho sírio Aylan não tivesse morrido afogado, durante a fuga de uma guerra, ele teria se tornado um "estuprador".

Vou confessar uma coisa a vocês: Muitos aqui sabem que tenho uma origem metade francesa e metade árabe, e que sempre me orgulhei dessa mistura, que faz de mim quem eu sou. 

Mas depois da charge de Charlie e das atitudes hipócritas do governo francês, que compra petróleo do ISIS, fortalecendo o grupo, enquanto bombardeia crianças na Síria, tenho cada vez mais vergonha de minha parte francesa e vontade de honrar cada vez mais minha parte árabe. Depois do atentado, que me deixou, sim, arrasada, escrevi que " liberdade de expressão" não podia ser ridicularizar a figura de Jesus ou de Maomé, mostrando-os em posições sexuais e em desenhos de péssimo gosto, alimentar o ódio a um grupo religioso com milhões de pessoas pacíficas, como os muçulmanos ( muçulmano = religião, não é uma etnia ou raça) que conheci e vivem pacificamente aqui e na Europa.

Charges assim expressam apenas o ódio que uma parte dos franceses sente pelos muçulmanos, mesmo depois de a França ter destruído a Argélia na guerra pela colonização do país, matado milhares de muçulmanos de vários países colonizados, de uma forma animalesca ( tenho uma foto histórica que retrata os franceses DECAPITANDO os muçulmanos na Argélia e posando com suas cabeças como se fossem troféus. Leia sobre o que os franceses já fizeram contra crianças, homens e mulheres muçulmanas nos anos 40, 50, 60, durante o domínio francês).

Na época do atentado a Charlie, rompi relações com um casal de amigos que postavam em sua página frases de ódio aos muçulmanos, generalizações idiotas de quem nunca viajou para um país árabe ou sequer viajou para a França para perceber o que acontece com muçulmanos ( eu sou cristã, morei na Europa, fui casada com um italiano e sempre fui maravilhosamente tratada na Europa, mas testemunhei o que minhas amigas muçulmanas vivem), e vê o mundo do seu sofá, tomando cerveja e alimentando o seu ódio aos" diferentes".

Hoje tenho cada vez mais a certeza de que acertei ao não cair na modinha patética do " Je suis Charlie" e ao não colocar a bandeira da hipócrita França no meu perfil. E mesmo no dia do atentado, uma parte de mim, triste e em luto como jornalista, pois nada justifica atentados, confrontava essa uma outra parte de mim, que se recusava a dizer "Je suis Charlie". 

Eu estava certa. Jamais serei Charlie. E eu diria ao chargista dessa semana da revista Charlie que o menininho sírio morto poderia ter se tornado um médico, um jornalista ou um grande empresário como MEU PAI é hoje. Sim, meu pai, filho de refugiados sírios-libaneses que atravessaram de navio um mundo em guerra, para viver aqui no Brasil, é hoje proprietário de uma rede lojas no estado de São Paulo,que emprega centenas de brasileiros! Meu pai, o menininho sírio pobre, lindo e batalhador, fez a diferença no país que o recebeu! Já o chargista que alimenta o ódio... Quem é ele mesmo?

Lucia Helena Issa, no FACEBOOK

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