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domingo, 24 de janeiro de 2016

Golpistas não desistiram de Getúlio. Não vão desistir de Dilma




Antes de reler textos a respeito do segundo governo Vargas eu achava que, superado o impeachment, como parece que está superado, tanto é que Temer já se recompôs com o governo, Dilma teria fôlego para levar o governo para a frente. Já não estou tão seguro disso. Suspeito que, tal como fizeram com Getúlio, eles também não vão parar de querer derrubar Dilma. Quem são eles? São as mesmas forças, por exemplo, que derrubaram, por meio dos militares, o imperador Dom Pedro II logo depois que ele libertou os escravos, dando um enorme prejuízo aos fazendeiros que detinham o poder econômico então e que passaram a ter que pagar pela força de trabalho que era gratuita – depois que se adquiria o escravo, é claro. Foram eles que instigaram o marechal Deodoro da Fonseca a derrubar um monarca progressista, amado pela população, culto, amigo de grandes personalidades da época e que trouxe ao país o telefone, entre outros legados. Nada disso adiantou, quando decretou o fim do trabalho escravo foi exilado para não ser executado e encerrou um período que preparava o país para um futuro promissor.

A queda de Getúlio – seu suicídio, forçado, pois a outra opção seria deixar o poder à força – deu-se pela combinação de dois elementos altamente inflamáveis: acusações de corrupção e aumento em 100% do salário mínimo. Ele foi suicidado depois de uma escalada de acontecimentos cujo maestro sempre foi Carlos Lacerda. Deputado e dono do jornal carioca "Tribuna da Imprensa" levou um baque em seus negócios com a criação da "Última Hora", que, comandado pelo grande jornalista Samuel Wainer e escrito pelos melhores jornalistas da época rapidamente se transformou no melhor jornal do país. Lacerda iniciou uma campanha sórdida contra Wainer, acusando-o até de não ser brasileiro (só brasileiros na época podiam ter jornais) e de ter arranjado 280 milhões de cruzeiros empestados no Banco do Brasil por ser amigo de Getúlio. Toda a agitação começou aí. Lacerda passou a usar todos os meios de comunicação de então, seu jornal, rádios, a recém fundada TV Tupi do antigetulista Assis Chateaubriand e, principalmente, os comícios em praça pública para fustigar Getúlio impiedosamente, e sempre sem provas, apenas no gogó. Em setembro de 1953, três meses depois de instalada a CPI da Última Hora, ele disse o seguinte no centro do Rio:

"O governo está abalado pelos escândalos que ele próprio fingia ignorar como se pudesse ignorar o dinheiro que entra pela porta dos fundos na própria casa".

"No Dia da Pátria o sr. Getúlio Vargas nos chamou de caluniadores profissionais e prometeu punir corruptos e corruptores. Ora, muito bem, até que enfim o sr. Getúlio Vargas pretende punir corruptos e corruptores! Mas onde estava ele quando a corrupção campeava e as portas do Banco do brasil se abriram para dali sair dinheiro para um estrangeiro e um aventureiro se locupletarem"?

"Se ele diz que é calúnia o que fazia o sr. Lutero Vargas em toda essa história do Banco do Brasil"?

"Nós não queremos desrespeitar o sr. Getúlio Vargas. Para isso é indispensável que ele tire seu filho dessa sujeira! É indispensável que ele promova a punição imediata dos que envolveram seu filho nessa sujeira! É indispensável que ele deixe de panos quentes e ele, que não teve escrúpulos para rasgar a constituição, rasgue a Última Hora"!

"Onde estavam os regulamentos do banco, onde estavam os regimentos e os parágrafos quando o banco despejou 280 milhões na mão de um falido reincidente"?

"Foi bom que isso acontecesse! Porque é a ressurreição moral de um povo que não quer se deixar abater pela corrupção!"

"Cobremos a quem votou no sr. Lutero Vargas para que vão buscar com ele o produto do roubo que ele fez no Banco do Brasil".

"Até agora, de todas as providências anunciadas pelo governo a única vítima fui eu porque perdi a televisão".

"O Poder Executivo é o único que está ausente ao chamado do povo para apuração das responsabilidades".

"Nós não somos cobradores do Banco do Brasil. O que nós cobramos é uma outra dívida, é uma dívida de honra do sr. Getúlio Vargas. Essa dívida de honra não é o ministro da Fazenda entre um buraco e um pôquer irá pagar. Essa dívida de honra quem tem que pagar é o honrado presidente da República".

"Homens como nós deram-lhe o seu voto, confiaram nele, confiaram-lhe a presidência da República. Nós fizemos o possível para que isso não acontecesse. Mas aconteceu. E porque aconteceu nós não queremos que ele saia do poder pela força. Nós queremos que ele saia no fim do mandato. Mas há duas coisas intoleráveis. Uma dessas coisas é a condição de não ficar no poder nem uma hora a mais quando seu poder terminar! A condição é sair o sr. Getúlio Vargas do poder no dia exato em que a constituição manda, coisa rara na sua vida pública. A outra condição é usar o poder o menos possível para não abusar dele pela força do hábito".

"Nós queremos que o Banco do Brasil não fique aberto para as aventuras político-financeiras nem da família nem da quadrilha de Vargas"!

Acusações pesadas. Sempre sem provas. Tudo isso acontecia numa cidade pequena demais para tanto tumulto. Era tudo muito próximo. Getúlio podia ouvir o discurso de Lacerda da sua varanda, se quisesse. Desconfio que Juscelino construiu Brasília escaldado pelo que houve com Getúlio. O Rio era uma panela de pressão. No deserto do Planalto os presidentes não ficariam tão vulneráveis. Ele só não previu que os primeiros a se aproveitarem disso seriam os golpistas generais de 64.

A CPI, comandada pelo então deputado, depois colaborador entusiasmado e ministro da ditadura militar de 64, Armando Falcão, concluiu que irregularidades em empréstimos do Banco do Brasil à imprensa havia, mas não exclusivamente com Samuel Wainer, e sim com todos.

No entanto, a escalada contra Getúlio continuou até que foi instalado um processo de impeachment na Câmara dos Deputados, em junho de 1954. Getúlio ganhou essa parada no voto, facilmente até, mas seus opositores não pararam. Logo depois, a 5 de agosto deu-se o episódio da Rua Tonelero, que passou para a história como tentativa de assassinato de Lacerda por parte de integrantes da guarda particular do presidente. Há fundadas suspeitas, no entanto, de que tudo não passou de uma grande fraude, como tantas na história do Brasil.

Primeiro, porque tudo o que não interessava a Getúlio era, àquela altura, mandar matar Lacerda. Para que, se ele tinha acabado de vencer a batalha do impeachment? Está claro que o atentado interessava mais a Lacerda, que, como disse no comício aí acima fez de tudo para Getúlio não ser eleito e estava fazendo de tudo para abreviar seus dias. Levar um tiro no pé – se é que levou, há controvérsias – seria o seu sacrifício "para salvar a pátria", como gostava de afirmar no auge de seus acessos de demagogia.

Segundo, porque todo o inquérito foi açambarcado pela Aeronáutica, que passou a investigar, interrogar e julgar os acusados naquilo que ficou conhecido como a "República do Galeão", utilizando métodos que não têm muito a ver com a justiça propriamente dita, dentre os quais suspeitas de tortura. É um episódio que ainda demanda estudos dos historiadores. Devido a isso, não acho que podemos ter segurança a respeito dessas investigações feitas à margem da lei, como está reconhecido em documentos da época.

A cena do crime, tal como está descrita oficialmente deixa muitas dúvidas. Lacerda é alvejado ao sair do carro, na porta do seu prédio, acompanhado por seu filho e pelo major Vaz, que lhe prestava segurança a poucos metros de distância, tanto é que em seguida o major entra em luta corporal com o pistoleiro. Como então se explica que um pistoleiro profissional tenha acertado no pé de Lacerda, e não no corpo, alvo bem maior que um pé, e que só foi atingido porque o agressor atirou em direção ao chão a tão curta distância? Se Vargas queria mesmo matar Lacerda, como a vítima declarou logo depois, teria mandado contratar o melhor atirador do país e não o pior. Ou seria incompetente no quesito encontrar bons pistoleiros para matar desafetos?

Depois, as circunstâncias do atentado. O atirador foi cometer o crime a bordo de um táxi que fazia ponto no Palácio do Catete, gabinete e residência de Vargas. Os conspiradores seriam tão idiotas a ponto de cometer uma burrice dessa? Usar um táxi do ponto do palácio? Arriscar-se a envolver uma testemunha? Não teria sido mais profissional utilizar um carro roubado, para despistar?

Há, enfim detalhes no episódio que levam a desconfiar se aquilo não foi uma armação do próprio Lacerda, seu último esforço para derrubar Getúlio, já que nem a CPI, nem o impeachment tinham dado certo.

Não estou prevendo que o que houve com Lacerda poderá acontecer com Cunha, hoje a principal pedra no sapato do governo e resultar numa onda de acusações contra a presidente. A história não se repete. Já sabemos. O que quero dizer é que, coincidentemente ou não, depois de derrubar Getúlio (obtendo o seu sangue) as mesmas forças derrubaram João Goulart, seu herdeiro, dez anos depois e a presidente Dilma é outra herdeira de Getúlio, abençoada por Lênin e por Brizola. E, tal como Getúlio aumentou o salário mínimo em 100%, o governo dela e o de Lula pendem para as classes trabalhadoras, por mais que seus detratores, muitos dos quais ex-petistas não acreditem.

O que quero dizer é que, tal como no caso de Getúlio, a corrupção está sendo usada como pretexto para tentar derrubar uma presidente, tanto é que Getúlio se matou e a corrupção não morreu, continuou cada vez maior, como vemos agora. E Lacerda, o grande arauto da moralidade dez anos depois do discurso acima aderiu ao golpe militar.

O que eu quero dizer é que as forças que tentam derrubar a presidente não vão desistir depois do impeachment passar.

Todo cuidado é pouco.

...

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