sábado, 23 de janeiro de 2016

A internet e a calúnia: o idílio está acabando, por Nirlando Beirão


A calúnia é uma brisa, um sopro leve muito gentil que, despercebido, 
sutil, ligeiramente,  docemente, começa a sussurrar. 
De início lentamente, em murmúrios, sibilante, vai rastejando, vai rodando; na mente da gente se introduz coim destreza, e a cabeça, e os nervos aturde e inflama. 
Em desordem vai saindo, em desordem vai crescendo, faz-se forte pouco a pouco,,voa já de um lado ao outro; como um trovão, uma tempestade que, no centro do bosque, agita o ar, chirria e de horror o sangue te gela. 
No fim, transborda e estoura, propaga-se, redobra-se e produz uma explosão, como um tiro de canhão, um terramoto, um temporal, um tumulto geral, que faz o ar ribombar. E o pobre caluniado, aviltado, pisado, flagelado por toda a gente, com tal azar, soçobra.
(“Ária da calúnia”, cantada por Don Basilio, da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, libretto de Cesare Sterbini)
Chico Buarque está processando duas figuras que o caluniaram, e a sua família, nas redes sociais.
Uma delas, um certo pecuarista que era um dos baderneiros na agressão ao cantor à porta de um restaurante do Leblon, certamente deve achar que Rossini é atacante do Milan ou então treinador italiano de algum time inglês (o dito-cujo iria reiterar a grosseria contra Chico, depois da palhaçada de rua, via internet).
O outro, rapaz de trato, deve saber quem foi Rossini e, pelo visto, se sente muito à vontade nas artes sevilhanas da calúnia. Caluniou e quis pedir desculpas – com novas calúnias.
A decisão de Chico Buarque – o qual até então costumava rir dos toscos xingamentos via web – pode marcar, por seu simbolismo, uma troca de mão no trânsito fácil das ofensas odiosas e da violência gratuita que impregnam as redes sociais.
Liberdade de opinião, sim – calúnias à parte.
O que dizem e repetem sobre Chico é um daqueles motes da intolerância política e da ignorância proposital: querem atrelar suas convicções a benefícios do dinheiro público. Mas exatamente à Lei Rouanet.
Só diz isso quem tem muita má fé para vender. A Lei Rouanet veio do governo Collor para revigorar a antiga Lei Sarney. Não foi inventada pelo tal lulopetismo. Foi, aliás, magnanimamente usada durante o governo FHC. E isso não tem nada demais.
Trata-se de um dispositivo de renúncia fiscal pelo qual o governo abre mão de arrecadar impostos para que as empresas possam patrocinar projetos culturais. Quem desembolsa o dinheiro, portanto, não é o governo – é a iniciativa privada.
É um instrumento importante para irrigar projetos alternativos que, se fossem simplesmente buscar espaço segundo as leis malthusianas do mercado, jamais sairiam do papel ou chegariam ao palcos.
A calúnia é maior ainda porque Chico Buarque nunca buscou esse tipo de patrocínio. Nem precisa. Reduzir a vasta, polifônica, generosa obra de nosso maior poeta-cantador a uma barganha de proveitos partidários seria coisa digna de indenização, punição – mais que isso, de cadeia. Se a Justiça, ele própria, não fosse tão comprometido com uma única causa.
De todo modo, é bom que os falsos valentões da internet se acautelem.
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