domingo, 22 de novembro de 2015

Os movimentos estranhos da Editora Abril com a Editora Caras




Por Luis Nassif

Alguns pontos chamam a atenção nesse desmonte da Editoria Abril.

Um dos expedientes utilizados por empresas em situação financeira insanável é justamente transferir seus ativos para uma outra pessoa jurídica e deixar a original explodir. Em sociedades anônimas, os acionistas não respondem com seus bens pelas dívidas da empresa.

No caso da Abril, há as seguintes peças do quebra-cabeça:

1. As relações pouco nítidas entre os Civita e a Editora Caras, que está ficando com os títulos da Abril. Até agora transferiu para a Editora Caras "Aventuras na História", "Bons Fluidos", "Manequim", "Máxima", "Minha Casa", "Minha Novela", "Recreio", "Sou+Eu", "Vida Simples" e "Viva Mais", AnaMaria, Arquitetura & Construção, Contigo!, Placar, Tititi, Você RH e Você S/A. Os valores não foram informados. Os Civita têm participação no capital da Caras, mas não se sabe em que percentual.

2. Se o título não é rentável para a Abril, com sua imensa tradição de revistas, por que seria para a editora Caras? Não faz sentido.

3. O fato dos Civita terem faturado R$ 1,2 bi com a venda da Abril Educacional mas não terem aportado um centavo para a Editora Abril.

4. O histórico de impostos atrasados da Abril, que em vários outros momentos se resolveu via Refis e companhia. E agora, não mais.

5. O fato, conhecido, de que a empresa acumula passivos relevantes com o Fisco e com os bancos.

Não se sabe o que ocorrerá com Veja. O proprietário oficial de Caras, Jorge Fontevecchia, teve um diário na Argentina, “Perfil”, similar à Veja em suas baixarias. Fechou. Sua editora depende exclusivamente da revista Caras, que nos últimos anos vêm perdendo tiragem e receita de publicidade.

Por ocasião da morte de Roberto Civita, publicou um artigo com o título “Roberto Civita, mi maestro” ( http://migre.me/saVbe ). Nele narra a influência de Civita sobre ele, as parcerias que tiveram em algumas revistas.

Seria oportuno que Receita e Banco Central começassem a monitorar os negócios dos Civita, da Abril e da Caras.

Pode ser que não seja nada. Pode ser que seja.

Atualização

Analista com conhecimento sobre os movimentos internos da Abril confirma as hipóteses acima e acrescenta:

1. No ano passado a Abril tentou o mesmo movimento com os canais UHF, transferindo para o executivo José Roberto Maluf – que já foi superintendente da Bandeirantes e do Silvio Santos. Apesar de respeitado, Maluf não tinha bala na agulha para a operação. Suspeitava-se que por trás dele estaria a dobradinha Caras-Abril.

2. Este ano, a verba da Abril nas agências de publicidade caiu para 30% do que foi nos anos anteriores. É tsunami. A queda foi generalizada, inclusive na TV Globo, que perdeu 15% em termos nominais. Mas compensou com o aumento da receita na TV por assinatura.

3. A queda foi tão acentuada que a Intermeios – que divulgava dados de receita da mídia – parou de circular, devido ao corte de informações dos grupos de mídia.

4. Não se pode medir a receita de publicidade da Abril pelo número de páginas vendidas, pois o desconto chega até a 90% do valor de tabela.

5. Esta semana o juiz Sérgio Moro estará palestrando para a ANER ( Associação Nacional dos Editores de Revista ) e sendo recepcionado por Giancarlo Civita, o presidente do grupo. No último evento paulistano, foi recepcionado pelo presidente da Gocil – empresa com enormes pendências na Receita Federal.

Por Zé Ranieri

Minha análise é que o grande problema, e o motivo para a transferência desses títulos para a Caras, é que eles simplesmente não tem o "tamanho Abril".

Assim, alguns deles vão para Caras por uma questão de sinergia e outros para que sejam fechados sem respingar na imagem da Abril (ou descontinuados, como gostam de, eufemisticamente, dizer).

No primeiro caso estão títulos femininos voltados para a classe média baixa, de baixo preço e custo de produção (32 a 64 páginas e lombada canoa). Estão nesse cesto os títulos Ana Maria, Minha Novela, Viva Mais, Tititi, Sou+Eu, Máxima e Minha Casa.

Somam-se ao ganho de sinergia as tradicionais Manequim e Contigo!, além das revistas de nicho Bons Fluídos e Vida Simples (essa última sempre foi uma leitura muito prazerosa) . É muito significativa da derrocada da Abril a transferência da sempre forte em publicidade Arquitetura & Construção.

A questão do "tamanho Abril" perpassa a todos os títulos. Dado seu gigantismo, títulos que seriam uma "benção" para editoras médias ou pequenas, simplesmente não dão dinheiro para a editora (da) Marginal.

Quanto à "descontinuação", a experiência mundial demonstra que é só uma questão de tempo para todas. A minha experiência pessoal também (além de trabalhar no ramo editorial, também tive uma revistaria de médio/grande porte de 1997 a 2011, quando o inevitável aconteceu: tive que fechá-la).

Quanto à análise do balanço juntado pelo Rafael, um dado me chamou muito a atenção: o demonstrativo de fluxo de caixa, rubrica assinaturas de revistas, demonstra que houve uma retração de 1/3 nas assinaturas em um ano! (Aqui, cabe explicar que os números aparecem negativos no fluxo de caixa porque, uma vez que o pagamento das assinaturas é antecipado, elas aparecem no demonstrativo como uma obrigação e não como um valor a receber. Esse é um ponto no demonstrativo que quando mais negativo, melhor).

Por Rafael

Uma boa análise da situação da Abril foi feita pelo blog "Coleguinhas, uni-vos", em julho, e pode ser encontrada aqui:


A estratégia teria três focos: (i) os donos estariam transferindo títulos para a outra empresa de modo a ficarem resguardados em um eventual processo de falência; (ii) a transferência seria concentrada em revistas semanais, que exigiriam um número maior de profissionais e uma infraestrutura mais ágil de produção e (iii) os donos manteriam a Veja na Abril por conta do poder de barganha e influência que revista lhes conferiria.

A Abril Comunicações está em situação falimentar, como pode ser verificado nas suas demonstrações financeiras:


Com Patrimônio Líquido negativo e Passivo Circulante (obrigações de curto prazo) quase o dobro do Ativo Circulante (recebíveis a curto prazo) e um negócio em decadência por conta das mudançãs tecnológicas proporcionadas pela Internet, a empresa não deve durar muito mais tempo. 

O que sobra para a editora é apostar na derrubada do atual governo e conseguir recursos públicos que possam diminuir os seus problemas contábeis (pelo menos no curto prazo). Como a situação política não parece se encaminhar para um impeachment (pelo menos até as eleições municipais do ano que vem), é provável que os credores assumam uma postura mais agressiva com a Abril. O fim da empresa deverá ocorrer em duas partes: primeiro, quando os títulos mensais começarem a ser transferidos ou fechados (acontecendo agora, com o fechamento da Playboy) e, segundo, quando vier a transferência da própria Veja. Vai depender da velocidade com a qual os fornecedores ingressarem nos cartórios de protestos.

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