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domingo, 11 de outubro de 2015

Saúde mental: O mito do desequilíbrio químico no cérebro, Por Michele Muller


Não existe nenhuma comprovação de que a que depressão, TDAH e outros distúrbios mentais sejam causados por baixa produção de certos neurotransmissores. Até quando esse mito será sustentado pela mídia e até por profissionais da saúde mental?

Muito pais mostram, inicialmente, grande resistência em medicar seu filho diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Até serem informados que os estimulantes corrigem um problema que seria causado por um desequilíbrio químico no cérebro da criança. A teoria da baixa produção de dopamina, divulgada pelos laboratórios, foi recebida com entusiasmo por médicos, psicólogos e professores quando surgiram os medicamentos que provocam aumento nos níveis desse neurotransmissor. Afinal, agora poderiam corrigir, de forma prática e rápida, o "problema" da falta de uma substância no cérebro das crianças desatentas e inquietas.

Essa é a ideia que continua imperando nas diversas áreas ligadas à saúde mental infantil e à educação. Ao conversar com pais de crianças diagnosticadas com TDAH, muitos ainda comparam a necessidade de estimulantes à de reposição da insulina em diabéticos. O fato é que não existe nenhuma comprovação das raízes biológicas do transtorno. O que existem são especulações que se contradizem. E mesmo que se chegue em um consenso, a pouca produção de determinados neurotransmissores já pode ser descartada das possibilidades, pois há anos é repetidamente derrubada por inúmeras pesquisas.

Talvez por ser assimilada tão facilmente pela população, talvez por acender a esperança de uma cura rápida e simples, o desequilíbrio químico tornou-se a explicação mais aceita não apenas para o TDAH, mas para quase todo o tipo de transtorno mental - sendo a depressão e a esquizofrenia os dois grandes pilares que sustentam essa hipótese.

Convenientemente divulgada pelos laboratórios ainda antes do lançamento das marcas famosas de fluoxetina e principal argumento de muitas campanhas publicitárias nos países em que a propaganda de psicotrópicos pode ser feita diretamente ao consumidor, a teoria ainda está longe de ser enterrada. Na tentativa de derrubar o mito, o diretor do Instituto de Saúde Mental americano (National Institute of Mental Health - NIMH), Thomas Insel, já declarou que "as noções iniciais de que transtornos mentais são desequilíbrios químicos estão começando a ficar antiquadas". Isso foi em 2011. Muitos anos antes - em 2003 - o psiquiatra e pesquisador de Standford, David Burns, já havia revelado que mesmo tendo dedicado anos de sua carreira à pesquisa do metabolismo da serotonina no cérebro, ele nunca havia se deparado com "nenhuma evidência convincente de que algum transtorno psiquiátrico, incluindo depressão, seja ocasionado por uma deficiência de serotonina no cérebro". Quanto tempo vai levar para que os profissionais da saúde mental no Brasil abandonem esse argumento?

A popularização dessa hipótese colabora com o uso indiscriminado e irresponsável de psicotrópicos. Pode estar entre os fatores que explicam o aumento expressivo do uso de antidepressivos na última década em todo o mundo. De acordo com o National Health and Nutrition Examination Survey (2008), atualmente 23% das mulheres americanas tomam esses medicamentos - um índice que reflete a realidade ocidental, em geral. A certeza de que "produzem pouca serotonina" leva muitas pessoas a acreditar na cura milagrosa das drogas até no caso de depressão leve e moderada - em que esses medicamentos têm resultados comprovadamente iguais aos de placebos.

Autor de diversos livros sobre medicação psiquiátrica e consultor do Instituto Nacional de Saúde Mental, o psiquiatra Peter Breggin destaca que são as drogas que causam o desequilíbrio químico - e não o contrário. E o resultado desse desequilíbrio está evidente nas diversas reações de abstinência que sofrem os pacientes ao largar as medicações psiquiátricas.

No caso dos antidepressivos mais comuns, por exemplo - os ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina) - o neurotransmissor, liberado pela célula pré-sináptica, tem seu canal de receptação bloqueado. Assim, ao invés de concluir seu ciclo natural e retornar ao neurônio pré-sináptico, ele é acumulado entre as sinapses. No entanto, os neurônios têm receptores que monitoram o nível de serotonina na sinapse e como o cérebro é plástico, ele naturalmente vai regular a produção do neurotransmissor. Portanto, os antidepressivos causam - e não ajustam - o desequilíbrio químico. Evidências apontam que sua ação sobre a via serotoninérgica provoca o nascimento de novas células nervosas no hipocampo - região afetada nos casos depressão profunda. Isso explicaria o tempo, de cerca de três semanas, que os antidepressivos levam para começar a agir nesses casos.

O metilfenidado - estimulante usado para "corrigir" o TDAH -têm ação quase imediata sobre alguns dos sintomas comuns de crianças hiperativas. Assim como a cocaína, faz com que a dopamina se acumule nas sinapses por muito tempo, levando as células pré-sinápticas a liberar quantidades cada vez menores do neurotransmissor. Com o tempo, o cérebro ajusta a produção de neurotransmissores e a criança desenvolve tolerância à medicação, precisando de doses maiores. O desequilíbrio então realmente se estabelece, o que leva os médicos a receitar outras drogas para compensá-lo.

A ponte do equilíbrio transformou-se numa corda bamba num mundo de tantos excessos. Buscá-lo passou a ser um desafio que coloca em jogo a saúde física e mental. A ação prática das pílulas pode ser tentadora - e até necessária em alguns casos - mas ela acabou se tornando mais um perigoso excesso da sociedade, mais um ponto de desequilíbrio, disfarçado de solução.

Para se certificar se tudo isso compensa em longo prazo, uma equipe de 18 pesquisadores, com apoio do Instituto de Saúde Mental americano (NIMH), investigou o desempenho de 579 crianças diagnosticadas com TDAH no período de oito anos. Maior pesquisa já realizada com essa finalidade, o "Estudo Multimodal de Tratamento para TDAH", publicado em 2009, concluiu que depois de um ano e meio, mesmo com o aumento contínuo de dose, as crianças medicadas não apresentaram melhor desempenho em nenhum aspecto com relação às que não receberam medicação. Depois de um tempo, portanto, restam apenas os efeitos colaterais do desequilíbrio provocado pela droga.

"A verdade é que ninguém sabe qual deveria ser a quantidade 'correta' de diferentes neurotransmissores. O nível dessas substâncias é apenas um fator em um complexo ciclo de influências que interagem, como vulnerabilidade genética, stress, hábitos no pensamento e circunstâncias sociais", escreve Christian Jarrett em Great Myths of The Brain (Os Grande Mitos do Cérebro).

MICHELLE MULLER é jornalista especialista em neurociências e linguagem, escreve para revista Psique

ARTIGO PUBLICADO EM BRASILPOST e Revista Psique Ciência & Vida ed. 117


TEXTO CORRELATO:


O médico psiquiatra José Elias Aiex Neto já está em sua quarta publicação. Desta vez, o médico denuncia a indústria farmacêutica e a mercantilização da psiquiatria em seu novo livro, Psiquiatria Sem Alma. O Megafone entrevistou o autor sobre o conteúdo do livro lançado há um mês em Foz do Iguaçu.

Megafone - O que o motivou a escrever Psiquiatria sem Alma?
Aiex - Foram vários estímulos, porem o mais importante dele foi o fato de estar insatisfeito com a situação da especialidade médica em que milito, que se transformou em objeto de manipulação pela indústria farmacêutica multinacional, que patrocina uma verdadeira banalização do uso de medicamentos psiquiátricos, muitas vezes sem necessidade. Além do papel da indústria neste mister, temos ainda a cumplicidade da muitos colegas médicos, que se deixam seduzir pelos benefícios oferecidos pelos laboratórios farmacêuticos para que receitem tais medicamentos, muitas vezes iatrogenizando (causando efeitos colaterais que são altamente prejudiciais) e viciando pessoas.

Megafone - Por que "sem alma"?
Aiex - Porque o significado da palavra psiquiatria, de origem grega, é “arte de curar a alma”. Os médicos estão esquecendo do psiquismo e buscando justificar o uso de medicamentos dizendo que transtornos mentais são decorrentes de desequilíbrios químicos ocorridos no cérebro, sem valorizar as situações de vida e a personalidade das pessoas.

Megafone - A mente humana ainda é um mistério para os pesquisadores. O senhor acredita que a indústria se aproveita disso para vender medicamentos?
Aiex - Sem dúvida. A psiquiatria trabalha no campo da subjetividade, o que faz com que não existam certezas nesta área. Assim, cada médico tem sua interpretação a respeito do sofrimento das pessoas. Como os médicos são seres humanos e, como tais, sujeitos a influências diversas, a indústria utiliza tal subjetividade para “convencer” os mesmos a receitarem seus medicamentos.

Megafone - Qual o objetivo dos propagandistas de medicamentos que visitam os consultórios médicos?
Aiex - Os propagandistas de medicamentos vão aos consultórios dos médicos fazer negócios. O médico é “estimulado”a receitar remédios de seu fabricante e ganha brindes diversos, que vão desde canetas a viagem internacionais para congressos.

Megafone - Existe diferenças entre a medicina psiquiátrica no Brasil e em outros países. Os médicos brasileiros realmente têm abusado das prescrições?
Aiex - Os médicos brasileiros estão no caminho percorrido pelos seus colegas dos EUA, onde a assistência à saúde é muito dependente da iniciativa privada. Em países onde a assistência à saúde é estatizada, como no Reino Unido, a diferença é muito grande, pois os médicos de lá são muito bem remunerados pelo governo para cuidar da saúde de seus habitantes.

Megafone - Como isto é controlado pelo governo brasileiro ou como deveria ser controlado?
Aiex - O governo brasileiro não tem controle sobre isso. A única solução seria a estatização total da saúde e o desenvolvimento de uma política nacional de medicamentos, para que deixemos de ser dependentes dos outros países, principalmente dos EUA.

Megafone - Sabe-se do crescente número de crianças utilizando remédios para a chamada "hiperatividade". Como são feitos esses diagnósticos? Os medicamentos utilizados para isto podem causar efeitos colaterais, quais?
Aiex - Os diagnósticos são feitos superficialmente, pois as consultas são rápidas. Há um estudode psiquiatras e neurologistas da USP, Unicamp, do Instituto Glia de pesquisa em neurociência e do Albert Einstein College of Medicine (EUA), que colheram dados em dezesseis estados do Brasil e no Distrito Federal, de 5.961 jovens, de quatro a dezoito anos, que foram diagnosticadas como sendo portadores de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). O resultado da pesquisa revelou que quase 75% das crianças e dos adolescentes brasileiros que tomavam remédios para déficit de atenção, o derivado anfetamínico metilfenidato, não tiveram diagnóstico correto. Entre os efeitos colaterais causados pela droga estão taquicardia, perda do apetite e o desenvolvimento de quadro bipolar ou psicótico em pessoas com predisposição.

Megafone - Que efeito os antidepressivos podem provocar quando utilizados sem critérios?
Aiex - Os antidepressivos produzem uma série de efeitos colaterais, mesmo quando usados adequadamente. Toda pessoa que toma antidepressivo terá perda de libido e ganho de peso ao longo do tratamento. Além disso, algumas pessoas poderão desenvolver sintomas mais graves, como delírios, alucinações, agitação, insônia e tedências suicidas. O uso inadequado de antidepressivos pode levar a uma síndrome chamada serotoninérgica, que pode levar a convulsões, diarreia, espasmos musculares, quadros psicóticos e até o coma, que pode levar à morte.

Megafone - O senhor utiliza psicoterapia em seus pacientes? Quando este procedimento é indicado?
Aiex - Eu sempre procuro tratar meus pacientes com acompanhamento psicoterápico, seja feito por mim ou por psicólo(a). Geralmente os tratamentos em saúde mental devem ser feitos através de equipes multiprofissionais, que incluam, além de psiquiatras e psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e terapeutas ocupacionais.

Megafone - Fique a vontade para fazer suas considerações.
Aiex - No livro eu aponto para a existência de um esquema psicopático por trás de tudo o que foi relatado, e que faz parte da realidade mundial, dentro da qual a hegemonia do capital sobre a vida das pessoas provoca adoecimento psíquico e as soluções que se apresentam são gestadas a partir do mesmo modelo gerador de doença. Alerto ainda para a grave crise mundial que se avizinha, com a instalação do caos, exortando o leitor a lutar pelo resgate da assistência humanizada da saúde, preservando-a da barbárie, para que ela possa dar resposta adequada às pessoas em sofrimento psíquico gerado pelo caldo de cultura que levou a humanidade a tal estado de coisas.Conclamo a todos a lutar contra os valores prevalentes na sociedade atual: individualismo, competição pelo ter, consumismo e imediatismo, pois eles estão nos adoecendo e nos levando a uma situação de anestesiamento por substâncias químicas, sejam elas legais ou ilegais, como os medicamentos psiquiátricos. Não podemos deixar que a sociedade torne realidade as obras ficcionais como o livro “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley e do filme “Matrix”.“Os valores prevalentes na sociedade atual estão nos adoecendo e nos levando a uma situação de anestesiamento por substâncias químicas”

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