terça-feira, 27 de outubro de 2015

Quarenta anos do assassinato de Herzog, por Jasson de Oliveira Andrade


Há quarenta anos, em 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, após sua prisão no dia anterior, morreu torturado no DOI-Codi, do II Exército, em São Paulo. O triste aniversário não foi esquecido.

Nos quarenta anos do assassinato, o Estadão, numa feliz iniciativa, publicou três artigos sobre o assunto. Marcelo Rubens Paiva, autor do excelente livro “Ainda Estou Aqui”, no qual ele relata a morte, também por tortura, de seu pai, o então deputado Rubem Paiva, cujo corpo até hoje está desaparecido, escreveu um texto sob o título “O tiro no pé”. Neste texto ele afirma: “A morte de Herzog teve um propósito: nos uniu. Suicidaram a ditadura naquele dia”. Ele relembra: “Os deputados da Arena, braço civil do regime militar, Wadih Helu [ falecido em 7/6/2011, aos 93 anos ] e José Maria Marin, este mesmo que está preso na Suíça, acusado de participar de uma rede de suborno e lavagem de dinheiro nas entidades superiores do futebol, tinham discursado incriminando o jornalista [ Herzog ] a operar uma célula do Partido Comunista na emissora financiada pelo Estado”. Aí começou o calvário de Herzog, culminando com o seu assassinato.

O jornalista Marco Antonio Rocha, no texto publicado no ALIÁS (Estadão), de 25/10/2015, sob o titulo “Dias de Terror”, faz um relato da prisão de Herzog, seu companheiro de jornalismo. Ele também foi ouvido pelos militares, mas só não foi preso e torturado, graças a intervenção do proprietário do Estadão. Ouviram-no e depois o soltaram. Entre muitos fatos por ele relatados, escolhi o que se vai ler a seguir: “No sábado [25/10/1975) pela manhã ouvimos pelo rádio a notícia de que Waldimir Herzog tinha se “suicidado” nas dependências do DOI-Codi. (...) Acho que foi a primeira vez na minha vida adulta que chorei de fato, e muito (sic), já aos 39 anos de idade. Não apenas pela perda de um amigo fraterno, gentil e franzino e do grande jornalista. Mas pela trágica ironia. Menino judeu, Vlado fugira para a Itália, com a família, durante a guerra, para escapar da ferocidade nazista na Croácia onde nascera. (...) Contou-me uma imagem do final da guerra quando, na estrada perto da aldeia, viu um batalhão das SS alemãs que se retirava. Pois, na vida adulta, foi barbaramente seviciado e assassinado (sic) pelos “SS” do DOI-Codi em São Paulo”. Herzog escapou do nazismo e foi torturado e morto no Brasil em 1975!

Outro artigo é de autoria de Audálio Dantas, na época presidente do Sindicato dos Jornalistas, sob o título “Silêncio Eloqüente”, publicado no mesmo jornal e na mesma data. No texto, Audálio faz um interessante relato do culto em homenagem póstuma à Herzog, ocorrido na Catedral da Sé. Entre os celebrantes estavam: D. Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright. Encontrava-se presente ainda o cardeal arcebispo de Olinda e Recife, d. Helder Câmara. Segundo Audálio, ele “permanecera no altar durante toda a celebração, em silêncio. A ditadura militar proibira a simples menção de seu nome pelos veículos de comunicação”. Audálio perguntou a ele sobre o motivo do silêncio. D. Helder respondeu: “Há momentos, meu filho, em que o silêncio diz tudo”, acrescentando: “A ditadura começou a cair hoje”. Dantas comentou: “O tempo se encarregaria de demonstrar que ele [D. Helder] estava certo”.

Quarenta anos sem Herzog. Tristes lembranças e uma alegria: devemos ao assassinato dele a democracia no Brasil. Sua morte não foi em vão!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

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