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domingo, 9 de agosto de 2015

Males de nosso tempo: adictos da velocidade


Certa vez - na verdade foram duas - eu tive crises extremamente dolorosas dum troço que eu sequer sabia que exisitia, o ciático. E como demoraram a passar, coisa de um mês cada uma. Pra me virar na cama parecia que eu ia desmaiar de dor. Dor de chorar. 

Nessa fase, com cerca de um ou dois anos entre estas crises, eu fazia um tratamento contra a ansiedade braba no HC , nas Clinicas. Tinha um problema sério: se faltasse em três sessões eu perderia tudo. E demorei muito tempo pra conseguir a vaga, então perdê-la, nem pensar. 

No dia da semana em que tinha consulta, eu tinha que levantar muito vagarosamente e muito tempo antes, me entuchar de remédios contra a dor, botar roupa e tudo o mais, pegar um cabo de vassoura cortado que servia de bengala. E v-a-g-a-r-o-s-a-m-e-n-t-e ir ao ponto do busão, pegar o busão, viajar com dor, às vezes de pé, que sentado piorava tudo, na hora de levantar já tinha me acostumado na posição e então levantar era muito doído. 
Depois descer no Ana Rosa, pegar o Metrô até Clínicas, descer aqueles túneis todos até o complexo hospitalar e coisa e tal. Depois, para voltar, tinha que ir me arrastando lentamente o caminho de volta, equivalente ao de ida. E era no horário de pico.

Aquelas pessoas TODAS ELAS APRESSADAS, aquela multidão, aqueles carros.

E eu, parecendo um idoso, EM OUTRO RITMO. Eu parecia um espectro perambulando entre os vivos. 
E passei esse sufoco várias vezes. E foram duas crises de duração de cerca de um mês, cada uma.

Foi ruim?

Não.

Lembram que eu disse que tratava ansiedade? Eu tinha um velocímetro dentro da cabeça. Ela corria. O coração corria. Tudo era acelerado. Eu andava muto rápido fugindo não sabia do quê.
A lentidão provocada por aquela condição da ciática me transformou. Foi tão útil pra minimizar minha ansiedade quanto a terapia e os remédios. E, ainda que seja impossível não ficar acelerado de vez em quando, meu velocímetro já não anda mais a 100, 120, 160 km/h. No começo foi duro, eu PENSAVA rápido, ANDAVA rápido, REAGIA rápido a ameaça nenhuma, a objetivo algum. A pressa mental e orgânica estava incrustada em mim. Nem respirar direito eu respirava.
Justiça seja feita, eu ainda ando rápido, mas tento ver isso como um exercício aeróbico. Meus batimentos cardíacos, por exemplo, mantêm-se normais. Antes, eles disparavam mesmo eu estando em repouso...

Assim, quando a Prefeitura decide reduzir a velocidade em vias da cidade, entendo bem o que os contrários sentem. São adictos da pressa e da velocidade. Mas, aos poucos, acostumarão. E melhor que seja por decreto da Prefeitura, porque dor ciática, vou te falar, viu.

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