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sábado, 8 de agosto de 2015

Ataque a haitianos em São Paulo: era previsível



Em outubro do ano passado eu tinha lido uma matéria na revista Exame, da Editora Abril, sobre os haitianos que estavam conseguindo postos de trabalho aqui no Brasil. Comentei, depois, no Twitter:

Quase um ano depois, leio que seis haitianos foram feridos a bala ( OBS: VER CORREÇÃO NO FINAL DO TEXTO ) em ataques cometidos na região do Glicério, Centro de São Pulo. De acordo com relatos registrados ( com uma semana de atraso ) pela imprensa, antes de atirar, o agressor teria gritado: "Vocês, haitianos, estão roubando nossos empregos" 

Seria eu um gênio? Um profeta? Um Uri Geller? Um Edgard Cayce?

Não. Eu apenas nasci, cresci e moro nesta Capital, há mais de 40 anos. Por ser branco, às vezes pessoas me confessam, revelam, ou comentam, coisas que não preciso enumerar aqui, mas os senhores podem imaginar. Por me verem como um semelhante com fenótipo europeizado, me confidenciam seus preconceitos, muitas vezes na forma de singelos comentários "en passant". 


Como a maioria nem sempre tem coragem de exibir seu preconceito, xenofobia ou puro racismo abertamente, fazem comentários jocosos e, muitas vezes, nem percebem que estão se traindo, como se a necessidade de extravasar esse racismo fizesse "vazar" gotas involuntárias desse sentimento.

Na minha experiência de convívio, geralmente as vítimas costumam ser os nordestinos brasileiros, em seguida negros e, na sequência, mulheres e gays. Na maioria das vezes, o preconceito é contra pobres. 

Como eu moro, a maior parte de minha vida, em um orgulhoso bairro que adora exibir suas credenciais européias, suas raízes não-brasileiras, e é um bairro de classe-média, então fiquem a vontade para imaginar quais são os alvos da ira dessa gente. Acho que minha "sorte" nessa vida foi ser pobre, pros padrões deste bairro, de modo que, se eu fosse dirigir meu ódio contra pobres, deveria em primeiro lugar cometer suicídio. Assim, eu jamais me considerei parte disso, nunca fui membro do "clube dos exclusivos". 

Com o recente advento de comediantes racistas que não admitem seu racismo e obtiveram considerável sucesso profissional, de certa forma, exibir um racismo ou preconceito na forma de "fã de humor" passou a ser a tábua da salvação pros racistas. Muitas vezes simplesmente negam serem racistas. Mas, como disse alguém, no Brasil o racismo se revela em sua negação. Assim, puderam cinicamente exibir e promover mensagens de racismo e preconceito escorados no argumento de que não se pode restringir o direito à liberdade de expressão. . É um tema espinhoso. Vejam que até a ACLU defendeu a liberdade de a Ku Klux Klan expor seu pensamento racista e supremacista, baseando-se na Primeira Emenda da Constituição Americana.


Bem, então eu testemunho que, pelo menos de acordo com o que vivi até hoje em São Paulo, na minha opinião, a cidade de São Paulo, quiçá o Estado, são lugares onde o racismo, nem que seja disfarçado, é aceito e vivido, transmitido e retransmitido. Ponto. E nem quero lembrar de tempos passados, quando grupos diversos de skinheads pregavam seu ódio supremacista "paulista" ou "paulistano" ou, apenas, "branco". Pareciam excêntricos radicais, grupos violentos de fora da sociedade. Se o racismo na cidade era amplo, ao menos era disfarçado, e esses grupos sobressaíam não por serem diferentes no racismo, mas por se recusarem a esconder esse sentimento e, mais do que isso, de fazer dessa recusa sua profissão de fé e sentido de vida.

E digo isso na condição de branco e paulistano da gema. Como disse acima, por ser pobre talvez eu tivesse grandes chances de ser um ressentido, tipo, "eu que sou branco não tenho nada, mas esse negão ( ou "esse baiano" ) tão aí, com casa, com carro...". Mas, felizmente, nada disso aconteceu comigo, pelo menos isso eu tenho a meu favor. 

Pode ser cisma minha, mas sempre capto um mal-disfarçado traço de xenofobia quando sou obrigado a ouvir algum interlocutor que goste de exibir e frisar orgulhosamente suas linhagens européias, sejam latinas, sejam eslavas, seja o que for. 
E, por isso, também me sinto pouco a vontade quando me perguntam "de onde é minha família" e sou obrigado a dar uma de "Policarpo Quaresma" e responder que "eles não sei, mas eu sou brasileiro". 
Não por eu gostar de ser brasileiro, ou por não gostar, mas é porque é a verdade.

Mas, voltando aos haitianos...

Eu acertei, não foi? E acertei qual seriam as desculpas, a do "estão roubando nossos empregos". É mais claro que a água do volume morto que a Sabesp enfia em suas goelas submissas. 
E é claro que se fossem nórdicos ou americanos brancos "roubando" esses empregos, ninguém falaria nada. Mas são negros paupérrimos. 

Acertei porque era óbvio. Porque eu escuto as coisas. Eu trabalho há mais de 20 anos em comércio, e escuto o que as pessoas falam, resmungam, reclamam. Eu já sabia. Só faltava alguém puxar o gatilho.


Eu preferia ter acertado outra coisa, outra previsão, gostaria de ter acertado a MegaSena, mas o lixo humano sempre é dado a hábitos e repetições, movido a clichês, tornando sempre fácil a qualquer observador minimamente relapso adivinhar quais serão suas próximas jogadas. 

PS: Fora da ordem mundial

Calma que eu ainda não terminei.

Bom, chegamos num ponto em que gente (sic) como Caiado ou Agripino protestam contra a corrupção. Trata-se de uma evidente subversão e verdadeira corrupção: corruptos venais protestando contra a corrupção. Se apoderam da coisa e subvertem seu sentido, corrompem-na. Protestar contra a corrupção já teve um sentido, hoje tá mais parecendo coisa do Super-Homem Bizarro

Dessa forma, com as coisas chegando nesse ponto, e contaminando, talvez irreversivelmente, a sociedade com essa corrupção, subversão e hipocrisia, eu já não me surpreenderia se os autores dos atentados com morte contra os haitianos sejam pessoas que já tenham sofrido algum tipo de agressão racista ou de xenofobia e encamparam o discurso. Desculpem, pode parecer um pensamento perverso, mas eu não espero nada de bom. Nunca esperei, mas atualmente tá realmente muito difícil. De qualquer maneira, pros haitianos covardemente agredidos, isso é o de menos.

CORREÇÃO AO TEXTO, 11.08.2015 
Agora fiquei sabendo que as informações iniciais estavam erradas: os tiros foram de chumbinho e não houve morte, conforme esta notícia de ontem, 10 de agosto: Haitianos atacados no centro de SP passam por cirurgia para retirada de bala de chumbinho
Que bom, isso muda alguma coisa, MENOS A ESSÊNCIA DOS ATAQUES. 
Resta saber se a polícia paulista conseguirá descobrir os responsáveis ou se o desfecho será igual ao massacre de sem-teto ocorrido uns 10 anos atrás na Rua Tabatinguera ( que fica bem perto do Glicério, aliás ), em que tudo ficou por isso mesmo. A menos que eu esteja redondamente enganado, não deu em nada.


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