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quarta-feira, 8 de julho de 2015

IMPRENSALÃO em ação; modus operandi



Professor na PUC-SP e na FESPSP, o sociólogo Rafael Araújo fala sobre sua formação acadêmica, suas principais influências e faz uma análise do panorama do ensino da Sociologia no Brasil e do discurso midiático em relação ao governo Dilma ( trecho selecionado )

Como estudioso das relações entre mídia e Política , como você avalia o tratamento dado ao governo Dilma? 
Fiz o meu mestrado sobre televisão e eleições. Desde 2000 estudo a relação entre a mídia e a Política, e, desde 2005, como essa relação tem se adequado à presença da internet. De fato, para quem acompanha e faz a análise da cobertura jornalística da mídia tradicional é bastante angustiante. Vemos claramente a forma como as informações são enquadradas e como o jornalismo contribui para um processo de despolitização da população. Estou fazendo um pós-doc agora sobre esses movimentos que vêm desde 2011 no mundo todo e ganham força no Brasil em junho de 2013. Recentemente, no dia 15 de março, vimos novamente as pessoas indo às ruas. Esse fenômeno é um bom exemplo de como a mídia tradicional trata o governo. Em 2013 as manifestações ocorreram em um período pré-eleitoral, agora ocorrem em período pós-eleitoral. Se em 2013 vimos uma demonstração de como as tecnologias de informação e comunicação podem organizar a multidão, em 2015 vimos o poder de penetração da mídia tradicional na internet. Aquela cobertura midiática, que era nitidamente direcionada, agora tem nas redes sociais a formação dos discursos que lhe convêm. Alguns grupos organizaram os protestos do dia 15 com o auxílio da internet, mas foi a cobertura da TV que fez tanta gente ir até a avenida Paulista. São estratégias muitas vezes invisíveis, como a cobertura que se fez do panelaço no domingo anterior, a mudança do horário do jogo que sempre ocorre à tarde para o período da manhã, o anúncio na Folha de S. Paulo informando dia, hora e lugar da manifestação, até o horóscopo do jornal dizia que o dia era propenso para protestar contra o governo! Enfim, existe um jogo político que aos poucos vai se descortinando. O desconhecimento e a despolitização da população são peças fundamentais nesse jogo. Falar sobre o poder que a mídia tradicional exerce sobre as pessoas é muito delicado. Dificilmente as pessoas se sentem parte disso, não se reconhecem como enganadas ou despolitizadas. E é justamente esse aspecto que deixa tudo tão perigoso. As pessoas se dizem politizadas por ser contra a política, ou por simplesmente ir à rua protestar contra a política. Não se importam em conhecer os processos, o funcionamento do sistema, o jogo de poder envolvido, o contexto geopolítico e econômico. Para a televisão esse desconhecimento é interessante, assim continua fazendo uma cobertura superficial, simplificando o real, e continua tendo audiência. A grande questão, ao final, é essa. Os oligopólios de mídia funcionam a partir da busca pelo lucro. Eles têm um compromisso com o capital e não com a formação ou a informação da população. Obviamente não se declaram assim, apresentam-se como idôneos prestadores de serviço, que representam a população. Mas a verdade é que os verdadeiros representantes da população são os políticos. As pessoas não compreendem o sentido da democracia representativa, veem o processo eleitoral como uma obrigação a cumprir.
O discurso alimentado pela indústria cultural e indústria da informação que constrói uma guerra entre governantes e governados só contribui para que os cidadãos se afastem da coisa pública. Recentemente temos visto o resultado desse processo, um fortalecimento de um discurso de ódio, uma população polarizada e o apoio assustador a pautas conservadoras e até absurdas como a volta de um regime militar. Os meios de comunicação tradicionais têm uma responsabilidade imensa com essa realidade que vivemos. Não é essencialmente um problema com o governo Dilma. O problema está em promover esse afastamento da população da complexidade dos fatos, reforçando que o problema nacional está na corrupção. É realmente uma pauta que afasta os cidadãos da possibilidade de mudança. A oposição, nessa conjuntura, tem se beneficiado. Basta olhar com cuidado que o jogo fica evidente.

Edição 58

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