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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Paulo Estânio e a "Indústria da Multa que só multa cidadãos de bem"



Na calçada em frente à sua casa, Paulo Estânio bufava, olhava com raiva para um carro estacionado em frente à guia rebaixada de Paulo, e para o relógio em seu pulso. Em seguida, olhava em ambas as direções da rua. E, de novo, olhava o relógio, o carro, a calçada, a rua. E bufava.
"Putaquepariu!", pensava, enquanto dava mais uma bufada de indignação e cólera.
"Que merda!!!"
"Filhadaputa!!!"
Não é todo mundo em São Paulo que leva na esportiva um carro estacionado em frente à sua guia rebaixada. Tem muito folgado por aí, essa que é a verdade. São Paulo virou uma selva de cada-um-por-si.

Ao verificar que havia um carro em frente à sua casa, em plena guia rebaixada, Paulo Estânio primeiro pensou:
"ÊÊÊ Brasil! Aqui tinha que ser que nem na Indonésia! Que nem nos Estados Unidos! Onde todo mundo segue a lei. Não é que nem aqui, essa zona, esses políticos de Brasília..."

Sim, ele começou a fazer mentalmente o bom, velho e manjado discurso chato que todos escutamos nas padarias, nos bares, nos pontos de ônibus, nas filas do supermercado, nos campos, ruas e construções. 
Logo se cansou de escutar a própria conversa cacete e decidiu chamar a CET. Como sempre escutou falar da tal "Indústria da Multa"- uma forte, atuante e organizada conspiração que visaria tirar o couro do bolso de bons, puros, ingênuos e, sobretudo, inocentes motoristas paulistanos  - que operaria em São Paulo, Paulo decidiu ligar pro 1188 e acabar com a farra do vagabundo que estacionou o carro em frente a seu portão. Se fossem verdadeiros os relatos populares, em dez minutinhos um agente apareceria e ferraria o folgado. Isso na suposição de Paulo. Ocorre que esses relatos populares costumam ser extremamente exagerados. Na verdade, não passam de boatos mentirosos, jamais desmentidos a contento pela CET ou pela Prefeitura de São Paulo. Que nem os boatos sobre o Lulinha e a Friboi. 

"Merda, caralho!!! Faz duas horas e meia que telefonei a primeira vez pra esse lixo da CET, e até agora ninguém vem nessa merda! Putos!"

Os procedimentos da CET para esse tipo de caso são notórios e conhecidos. E jogam por terra toda e qualquer argumentação sobre a existência da tal "Indústria da Multa": o cidadão telefona a primeira vez, faz a solicitação de fiscalização, dá o endereço da ocorrência e pega um número de protocolo. Depois de uns quarenta minutos telefona novamente, dá o número do protocolo e pede para fazer o "reforço" da solicitação. Depois de mais meia-hora é necessário telefonar a terceira vez e fazer igual fez na segunda chamada. E, depois de outros quarenta minutos, telefona pela quarta vez e repete a mesma operação do segundo telefonema. 
Cansativo?
Sim, mas é necessário ressaltar que mesmo após essa via sacra, NÃO HÁ GARANTIAS DE QUE ALGUÉM VIRÁ. Por isso muita gente até desiste. Você fica duas horas esperando e, nesse tempo, o motorista meliante tem todo o tempo do mundo para fazer o que tiver que fazer, voltar pro carro e ir embora sem receber a justa punição. Essa é a "Indústria da Multa" de que tanto se reclama. 

Mas, como esse é um texto semi-ficcional, Paulo Estânio esperou o que geralmente se espera na vida real. Mas, ao contrário do que ocorre na realidade, FINALMENTE APARECEU UM FISCAL DA CET.

E este nem precisou pensar muito. como são pouquíssimos guinchos em operação na cidade, o fiscal da CET ( popularmente conhecido por "amarelinho" ou "marronzinho" ) limitou-se a aplicar ao criminoso a multa merecida, para deleite e satisfação de Paulo Estânio, que pensou:
"Valeu toda essa espera! Quero ver a cara do babaca quando perceber o papel amarelo preso no limpador de párabrisa!"

Aí, ele chegou pro amarelinho e falou:

- Aqui tinha que ser que nem na Indonésia! Que nem nos Estados Unidos! Onde todo mundo segue a lei. Não é que nem aqui, essa zona, esses políticos de Brasília...

O amarelinho balançou a cabeça, murmurou alguma coisa, acenou, aprumou-se e saiu com sua moto.

( *** )

No dia seguinte, o fiscal da CET passava por uma via qualquer, fazendo sua patrulha, aguardando alguma chamada ou convocação, e dá de cara com um carro quase inteirinho estacionado sobre uma calçada. Uma idosa teve que descer na rua ( "leito carroçável" ) e quase que um microônibus a atropela. Uma mulher com um carrinho de bebê teve que fazer a mesma coisa e quase deu tragédia. 

Por sorte, naquele exato momento passava por ali um guincho da CET. O amarelinho acenou, o motorista do guincho viu o colega e foi ver o que ele queria. O amarelinho explicou a situação, mostrou o carro audaciosamente comprometendo a segurança de pedestres, e então começaram a fazer os procedimentos para levar o veículo embora.
Segundos depois, ouviram um grito:
- Ei!! EIII!!! Hey!

Alguém vinha correndo a toda na direção dos agentes de trânsito:
- Puf! Puf! Vocês vão multar...? Puf!
"Sim", respondeu o amarelinho
- Mas ( puf! ) não pode!! Puf!, respondeu o sujeito, todo esbaforido.
- Já multei, cidadão. E agora o veículo vai pro pátio.
- Mas...puf!puf!...por quê? Puf!
- Como assim? Você viu onde deixou o carro? EM PLENA CALÇADA! 
- Mas, unfff...foi só dois minutinhos... Foi rapidinho!!

Quando flagrou o carro naquela situação, a primeira coisa que o fiscal fez foi botar a mão no capô do motor, e atestou que estava GELADO. Logo, o veículo devia estar ali há no mínimo uma hora. O vagabundo estava mentindo para o amarelinho, na cara-dura, só pra se livrar. Filho da puta mau-caráter!

Não teve volta. O carro foi guinchado e o motorista ia comer o pão que o Diabo amassou para recuperá-lo, fora os pontos na carteira.

- MALDITA INDÚSTRIA DA MULTA, AMARELINHO FILHO DA PUTA!!! É SÓ NO BRASIL MESMO!! ESSES POLÍTICOS DE BRASÍLIA, DÓLAR NA CUECA!!! ESSAS MULTAS, ESSES IMPOSTOS, SÓ SABEM ARRANCAR O COURO DO POVO!!!, berrou Paulo Estânio ao ver o caminhão do guincho dobrar a esquina levando embora seu carro.

FIM

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