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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Os jiadistas ao serviço do imperialismo, por Thierry Meyssan


Os governos ocidentais já não fazem segredo sobre a utilização dos jiadistas. Foi assim que a Otan derrubou Mouamar el-Kadhafi utilizando, para tal, a al-Qaida como única infantaria no terreno ; Israel afastou a Força das Nações Unidas no Golã e substituiu-a pela al-Nusra ; a Coligação internacional anti-Daesh deixou cair Palmira para prejudicar a Síria. Mas, embora se compreenda os objectivos dos ocidentais, não se consegue perceber porquê e como os jiadistas podem servir o Tio Sam em nome do Corão.

Muitas vezes, podemos interrogar-nos como é que o Pentágono e a CIA fazem para manipular milhões de muçulmanos e enviá-los a baterem-se pelos interesses do Tio Sam. Certo, determinados líderes são agentes pagos, mas, de modo geral, os jiadistas acreditam bater-se e morrer para ir para o Paraíso. A resposta é pueril: partindo da retórica da Irmandade Muçulmana é possível a evasão da realidade humana, e enviá-los para matar, seja quem fôr, desde que se agite um “lenço vermelho” diante dos seus olhos.

Oficialmente, o Emirado Islâmico não reconhece, mais, a autoridade de Ayman al-Zawahiri e separou-se, portanto, da al-Qaida. Contudo em muitos lugares, como em Qalamoun, continua a ser impossível de os distinguir, com os mesmos jiadistas reivindicando as duas etiquetas ao mesmo tempo.

Claro, pode-se objectar que esta discussão não passa de uma diferença entre personalidades ; Abu Bakr al-Baghdadi querendo apenas ser chefe no lugar de comando. No entanto, se as duas organizações têm exactamente as mesmas práticas, desenvolvem discursos muito diferentes.

O seu ponto comum, são os slogans da Irmandade Muçulmana: «O Alcorão é a nossa Constituição», «O Islão é a solução». A via piedosa é pois muito simples. Pouco importa que o Criador nos tenha feito inteligentes, deve-se em qualquer circunstância aplicar a Palavra de Deus como uma máquina. E quando a situação não é abordada no Livro, basta simplesmente quebrar tudo. O resultado é, obviamente, catastrófico e em nenhum lado estas organizações têm sido capazes de estabelecer o princípio das premissas da sociedade perfeita, que eles proclamam como seus desejos.

A sua história torna-os diferentes. De 1979 a 1995, isto é, desde a operação da CIA no Afeganistão até à Conferência árabe popular e islâmica de Cartum, os mercenários de Osama Ben Laden lutaram contra a União Soviética com a ajuda declarada dos Estados Unidos. De 1995 a 2011, quer dizer, da Conferência de Cartum até à «Operação Tridente de Neptuno», a al-Qaida tinha um discurso contra «os judeus e os cruzados», ao mesmo tempo que prosseguia a sua luta contra a Rússia na Jugoslávia e na Chechénia. E, após 2011, ou seja, desde a «Primavera Árabe», apoia a Otan na Líbia e Israel na fronteira do Golã. De um modo geral, a opinião pública ocidental não acompanhou esta evolução. Ela está convencida do perigo de um mítico expansionismo russo, persiste em atribuir os atentados do 11-de-Setembro aos jiadistas, não percebeu o que se passou na Líbia e na fronteira israelita, e, de relance, mantém a ideia errada que a Al-Qaida seria uma organização terrorista anti-imperialista. Os árabes, por sua vez, não se baseiam em factos, antes escolhem, segundo o caso, a realidade ou a propaganda ocidental, de maneira a inventarem para si mesmos uma narrativa romântica.

Por seu lado, o Emirado Islâmico afasta-se do Corão e aproxima-se dos neo-conservadores. Ele garante que os inimigos prioritários são outros muçulmanos : os xiitas e seus aliados. Ele esquece, pois, o episódio bósnio durante o qual a Legião Árabe de Ben Laden era apoiada, à vez, pelos Estados Unidos, pela Arábia Saudita e pelo Irão. Mas, quem são então os aliados dos xiitas? a República Árabe Síria (laica) e a Jiad Islâmica palestiniana (sunita). Por outras palavras, o Emirado Islâmico luta, prioritariamente, contra o Eixo da Resistência ao imperialismo. De facto, ele assume ser um aliado objectivo dos Estados Unidos e de Israel no «Médio-Oriente Alargado», mesmo quando teoricamente declara ser seu inimigo.

A maleabilidade das duas organizações reside na ideologia de base, ou seja a da Irmandade Muçulmana. É, portanto, lógico que a quase totalidade dos chefes jiadistas tenha sido membro, num momento ou outro, de uma filial ou outra da Irmandade. Do mesmo modo é lógico que a CIA não só tenha apoiado a Irmandade Muçulmana egípcia, desde a sua recepção na Casa Branca pelo presidente Eisenhower em 1955, como todas as suas agências no exterior e todos os seus grupos dissidentes. Em última análise, o califado com o qual sonhava Hassan el-Bana, e que Ayman al-Zawahiri e Abu Bakr al-Baghdadi pretendem concretizar, não é a reprodução da Idade de Ouro do Islão, mas, sim, o reinado do obscurantismo.

O que Laurent Fabius confirmava em 2012, quer dizer antes da divisão entre a Al-Qaida e Daesh, declarando a propósito : «No terreno, eles fazem um trabalho óptimo!»


Tradução 


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