quinta-feira, 18 de junho de 2015

Estado de violência, estado de hipocrisia


As vezes a gente precisa primeiro responder perguntas extremamente básicas e diretas - e muitas vezes pulamos essas perguntas - antes de tomar algumas decisões e fazer algo a partir daí. Quem fez terapia sabe como perguntas diretas e aparentemente simples conseguem ser as mais difíceis de se responder.

Primeiro, vou usar a metáfora de um prédio construido sobre solo arenoso ou uma base fraca. 
Então uma pergunta básica que se deveria fazer - todos nós deveríamos fazer - é: o que é violência? 
Parece simples responder, mas nem todo mundo teria facilidade. Não quero uma simples definição, mas sim que sejam apresentados cenários "de violência". tipo, quando estamos diante de casos de violência?

A percepção do que é violência não brota livremente da cabeça das pessoas. 
Se existisse um acompanhamento disso, seria fácil perceber que de uns tempos pra cá a mídia ESCOLHEU SELECIONAR e DESTACAR casos de crimes envolvendo supostos menores, mesmo casos que não envolveram riscos à integridade física das vítimas. Até jornal de bairro tem se prestado a isso.

Eu trabalhava com um cara que me infernizava o dia todo, relatando as coisas que lia no jornal. Ele "constatou" que NINGUÉM VAI PRESO NO BRASIL, tipo, "o país da impunidade" (sic). 
Porra, temos a segunda ou terceira maior população carcerária do mundo e "NINGUÉM VAI PRESO"? E a quantidade absurda de gente presa que JÁ DEVERIA ESTAR SOLTA? "Ninguém vai preso"? Brilhante, Sherlock! Genial, Einstein!

É simples criar uma "realidade": basta, por exemplo, falar o tempo todo no noticiário ( ou NOS PROGRAMAS POPULARES DE ENTRETENIMENTO, como um ontem da Rádio Globo AM-SP ) sobre a redução da maioridade penal para crimes hediondos ( ah, como seria bom se SONEGAÇÃO se tornasse crime hediondo...! ) e RECHEAR de casos de ASSALTOS envolvendo menores e, vez ou outra, um latrocínio ou estupro cometido por um suposto menor. Martele à vontade. Fale da "impunidade". O pessoal vai ficando tão de saco cheio que então passa a apoiar até a Solução Final. 
Sim, tá cheio de manipulação. Geralmente se lê "o que está escrito no jornal", mas o ideal seria também "ler o jornal".

Curioso, mas nem tanto, é que "violência" ( respondendo a pergunta que fiz ) geralmente acaba significando "latrocínio" ou algum outro crime que envolva propriedade e, grosso modo, a "bandidagem", o "crime" ( "eles, criminosos" versus "Nós, cidadãos de bem" ): "Menor matou pra roubar celular". 
A gente vive numa sociedade em que maridos matam mulheres porque acham que possuem direito de fazer isso. Mortes de trabalhadores rurais que nunca são resolvidas. Mortes/execuções por PM que nunca são resolvidas. Mortes de travestis e homossexuais que nunca são resolvidas. Gente "comum" ( o cidadão respeitado que ganha 4 mil cruzeiros por mês e paga os impostos do governo ) pega uma arma, uma faca e mata outra no bar ou no trânsito, ou em brigas de vizinhos. Assassinatos em festas de família, em casamentos. Ajustes de contas. Mal-entendidos que terminam em mortes ou golpes de jiu-jitsu.

Sim, o Brasil ( ou melhor, as próprias pessoas, "o Gigante que acordou" ) é um país extremamente violento, mas precisa primeiro definir que tipo de "violência" se deseja combater. 
Eu sou contra a redução simplesmente pelo fato de que os "comuns" são extremamente violentos, e não porque a ONU ou UNESCO são contra ou a favor.
Vivemos num tipo de sociedade na qual se você pedir pro motorista tirar o carro da faixa de pedestres você corre sério risco de tomar um tiro na cara. Se você der mole na hora de atravessar a rua tem gente que JOGA O CARRO EM CIMA DE VOCÊ. Você pode apanhar por pedir pra alguém botar os fones de ouvido no transporte público. Na verdade, existe uma ENORME TOLERÂNCIA COM A VIOLÊNCIA no Brasil, e parte das próprias pessoas. Não é bem uma visão de esquerda, né? Mas nem de direita também. É minha.

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