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sexta-feira, 5 de junho de 2015

A maligna Editora Abril agoniza em praça pública


Em 1989, a revista Veja deu uma capa que provocou uma barulhenta polêmica.

Cazuza estava morrendo de AIDS, e seu emagrecimento avassalador vinha sendo acompanhado por todos em fotos. Na etapa final, Cazuza parecia uma caveira.

A capa da Veja estampava Cazuza na etapa final com a seguinte chamada: agonia em praça pública.

A Veja matou em vida Cazuza.

Era um tempo em que os autores não assinavam textos na Veja. Aos curiosos, quem escreveu o texto final foi Mario Sergio Conti, um dos jornalistas mais maldosos que conheci. (Hoje, MSC faz os espectadores dormir num programa de entrevistas na Globonewzzzzzzzz.)

Bem, mas o que eu ia dizer é que, passados cerca de 25 anos, a Veja poderia dar uma outra capa na mesma linha agônica.

Apenas, em vez de Cazuza, o personagem seria a Editora Abril, que publica a Veja.

A Abril parece também estar com AIDS, não na versão controlável de hoje, mas no modelo fatal dos dias de Cazuza.

O emagrecimento da editora é extraordinário.

Nesta semana, no que já se tornou uma rotina, mais revistas foram fechadas (ou despachadas para a semimorte na Editora Caras, da qual os Civitas são sócios) e mais demissões foram feitas.

Entre alguns ex-abrilianos, houve uma comoção.

No Facebook, uma jornalista veterana que trabalhou mais de vinte anos na Abril postou a informação e disse que sentia vontade de chorar.

Mas ponderaram a ela que a Abril de hoje em nada parece com a Abril de um passado já remoto.

A alma da empresa se transformou, ou se revelou, ainda não tenho meu diagnóstico definitivo, mesmo tendo passado 25 anos na empresa.


A Veja faz mal ao país. Pratica um jornalismo criminoso – ou de exceção, como definiu seu diretor Eurípides Alcântara, seja lá o que isso representa.

Mente, distorce, estimula o ódio e a divisão entre os brasileiros. Investe sem pudor nenhum contra a democracia, como se viu na capa lançada um dia antes do segundo turno das últimas eleições. O único objetivo era interferir, com um golpe sujo, no resultado.

A Veja se infestou de discípulos de Olavo de Carvalho, o que significa uma visão de mundo ultraconservadora, homofóbica e outras coisas sinistras do repertório dos olavetes.

A ex-abriliana chorosa se confortou quando lhe foi dito, por algumas pessoas, que já não era a Abril dela.

Ela reconheceu que já não lia nada da Abril fazia muito tempo, por discordar inteiramente da linha da Veja e da empresa. “Sequer em consultório de dentista”, afirmou.

A Abril agoniza em parte como resultado da emergência da Era Digital, e em parte como fruto da inépcia de seus donos.

Como um dinossauro, a editora não conseguiu se adaptar aos novos tempos. Demorou para aceitar que a internet ia engolir a mídia impressa (e as demais, como agora ficou claro).

Numa de minhas últimas conversas com Roberto Civita, pouco antes de eu sair da Abril, ele me perguntou, aflito: “Onde estão as fotos como as da Life?”

Ora, elas estavam, e estão, na internet, mas Roberto não conseguia enxergá-las.

Hoje, você vê a Abril fazendo bobagens extraordinárias na internet. Uma das maiores, e escrevi sobre isso, é a TVeja.

Veteranos jornalistas têm conversas intermináveis sob uma câmara em geral estática, numa negação completa à cultura digital.

No canal da TVeja no YouTube, você encontra os resultados desse voo cego. Visualizações miseráveis, às vezes na casa das dezenas.

É claro que ninguém da Veja e da Abril se deu ao trabalho de pesquisar melhores práticas mundiais de tevê no jornalismo digital.

Quanto dura a agonia?

Revistas têm consistentemente cada vez menos leitores e cada vez menos anunciantes.

Como carruagem ou filmes para máquinas fotográficas, revistas se transformaram num produto em extinção.

E o que Abril sabe, ou sabia, fazer era revistas.

É previsível que num prazo entre curto e médio sobrem do quilométrico portfólio da Abril umas três ou quatro revistas, e mesmo assim condenadas, elas também, à morte.

Veja, Exame, talvez a Claudia, talvez a 4 Rodas, e vamos parando.

Um próximo passo inevitável vai ser a saída do caro prédio da Marginal do Pinheiros.

A Abril alugava as duas torres. Já devolveu uma, e não deve tardar a entregar a outra também.

Quanto aos funcionários, os que sobreviveram aos cortes recentes sabem que podem perfeitamente estar no próximo. E isso faz da Abril uma empresa tóxica para trabalhar.

Uma coisa particularmente bizarra é que mesmo agonizando e fazendo bobagens notáveis, a Abril, pela Veja, dá aulas diárias ao governo de como administrar o país.

Parece o Estadão, que uma vez publicou um editorial no qual dizia: “Como vínhamos alertando a Casa Branca etc etc.” Os Mesquitas não conseguiam deixar de pé seu jornal, e mesmo assim ofereciam conselhos ao presidente americano.

Não creio em outra vida, em nada disso. Sou um clássico e irremediável ateu.

Mas fico aqui pensando que Cazuza bem que merecia, de algum lugar, observar a Veja sofrer a agonia em praça pública que ela impiedosamente colocou na capa sobre ele em 1989.


LEIA TAMBÉM:

A decadência do Império da Editora Abril: reestruturação, fragmentação e falência


Nesta terça-feira (2/6), a Editora Abril iniciou um novo processo de reestruturação da empresa. Entre as mudanças estão a venda das revistas Placar, Contigo, Você SA, Você RH, Ana Maria, Tititi e Arquitetura e Construção para a Editora Caras, que no ano passado já tinha absorvido outros dez títulos — Aventuras na História, Bons Fluidos, Manequim, Máxima, Minha Casa, Minha Novela, Recreio, Sou+Eu, Vida Simples e Viva Mais.

IMPRENSA apurou que a Educar para Crescer será descontinuada. A Guia Quatro Rodas será incorporada às revistas Viagem e Turismo, Veja São Paulo e Veja Rio. A Contigo terá apenas a versão digital, deixando de circular no impresso. Haverá também uma reorganização das redações. De acordo com o site Máquina do esporte, a nova editora também ficará com todo o acervo fotográfico e de textos da Placar.

A Editora Abril focará em quatro áreas diferentes: Veja, que será comandada pelo diretor Eurípedes Alcântara; Exame, por André Lahoz; revistas femininas, por Paula Mageste e Llfestyle, por Alecsandra Zapparoli.

Sendo assim, todas as redações serão reunidas por núcleos de atuação em andares diferentes. Com a mudança todas as edições de Veja ficarão no mesmo andar; Exame e Exame.com juntas em outro; o núcleo de femininas em outro espaço e as lifestyle num quarto local. Além disso, todas as redações da empresa vão passar a atuar de modo convergente na produção de conteúdo, seja online ou offline.

Motivos

Em comunicado oficial, a editora Abril afirmou que as mudanças ocorrem por necessidade de operação mais simplificada – através da migração para conteúdos digitais – e pela chance de atuar mais próxima às necessidades do mercado.

“Nossos valores não mudam, continuamos acreditando nos mesmo princípios que construíram nossa credibilidade, mas chegou a hora de mudar o modo de operar. Estamos adotado um novo posicionamento perante o mercado, com foco nas necessidades dos anunciantes, que vem exigindo mais agilidade e, sobretudo, flexibilidade de formatos e mídias para chegar a resultados mais eficientes de negócios”, disse Alexandre Caldini, presidente da Abril.

Visando o novo posicionamento, a empresa ainda anunciou que serão criadas três unidades de comando: conteúdo, marketing e receitas. A primeira segue ligada ao conselho editorial formado por Victor Civita Neto, Thomaz Souto Corrêa, José Roberto Guzzo, Giancarlo Civita e Eurípedes Alcântara. O marketing será chefiado por Tiago Afonso, que assumirá o cargo de Diretor de Marketing. O setor de receitas será comandado por Rogério Gabriel Comprido, que assume a posição de Diretor Comercial.

Demissões

De acordo com Meio&Mensagem, os cortes atingiram 120 funcionários de diversas áreas. À IMPRENSA, o Sindicato dos Jornalistas de SP não confirmou os números, mas diz que terá uma assembleia com os funcionários da Editora no início da noite desta terça (2/6).


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2 comentários :

Anônimo disse...

No caso da Inveja e da Ed. Fechol se trata de metástase mesmo.

Humberto Capellari disse...

Isso aí, Anônimo. Já vão tarde.

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