terça-feira, 30 de junho de 2015

Ao atuar tendo como objetivo a satisfação da sede de uma opinião pública claramente manipulada, a Polícia Federal e a justiça tomam um caminho sem volta.




A verdadeira origem de tudo

Eric Nepomuceno

O Brasil – ou ao menos parte substancial da sociedade – anda cada vez mais maravilhado com os passos céleres da Justiça. No afã moralizador e punitivo tão ao gosto de uma classe média ignorante, desinformada pelos meios de informação e deformada pelos chamados formadores de opinião, vale tudo. Esse movimento não é de agora, há antecedentes recentes.

Bom exemplo disso foi o processo levado a cabo durante meses, muito mais dedicado aos holofotes da transmissão ao vivo que à busca da Justiça. Naquela ocasião, além de um julgamento feito ao gosto do freguês, muito bem conduzido por um cidadão – o juiz Joaquim Barbosa – que padecia evidentes sinais dos sérios efeitos de uma enfermidade grave e terminal, a hipertrofia do ego, aconteceu um tribunal de exceção. 

No fim, o país sorriu satisfeito: finalmente foi feita Justiça. Foi?

Agora, a situação se repete, em tom mais amplo e mais contundente. No lugar do histriônico ministro condutor da Suprema Corte, o que temos é um jovem juiz de primeira instância, devidamente acompanhado e amparado por um coro de jovens promotores e procuradores da mesma província. Os métodos – digamos – bem pouco ortodoxos são evidentes: prender figurões e mantê-los presos até que acedam ao instrumento da delação. Uma forma sutil e delicada de tortura: ou delata, ou fica preso. Qualquer pretexto é válido: muito mais do que uma justiça justa, o que importa é dar claras mostras ao país de uma justiça exemplarizante. O importante é dar o exemplo. E, desta forma, obter o aplauso morno de uma sociedade anestesiada.

Não há, é verdade, nenhuma razão para não acreditar no que diz um delator ao afirmar que fez, sim, doações de campanha e a partidos políticos para poder assegurar contratos bilionários. As doações foram feitas obedecendo a todas as exigências legais. Aqui e acolá, coisas da vida, algumas escorregadelas rumo ao caixa dois. Mas, na ampla maioria dois casos, obedeceu-se à lei.

Só que centenas de dúvidas pairam no ar. Por exemplo: só o maldito PT e seus malditos aliados foram beneficiados por esse tipo de manobra? Na oposição, será que só o furibundo senador Aloisio Nunes Ferreira e o obscuro deputado Júlio Delgado cometeram o mesmo pecadilho? Todos os demais souberam preservar seu cuidadosamente construído perfil bonachão de vestais à serviço da moral e da decência?

É compreensível que, por deter a presidência da República, o PT (e seus aliados) tenham controle praticamente total sobre estatais. Portanto, doar à sua campanha e aos partidos convém a quem quiser preservar seus negócios. Como a oposição, a começar pelo PSDB, não exerce controle algum sobre, por exemplo, a Petrobras, é óbvio que não participa da lambança insistentemente apontada como ‘o maior esquema de corrupção da história brasileira’. 

Repetidas à exaustão, afirmações como essa se consolidam em mentes e corações. E enquanto isso, ninguém, nenhum meio de incomunicação, nenhum deformador de opinião pública atenta para uma evidência: todos os partidos, sem uma única exceção, se beneficiam do mesmo esquema agora imputado exclusivamente aos amaldiçoados. 

O PSDB, por exemplo, não tem influência alguma na Petrobras mas governa o estado mais rico e poderoso do país, e até o ano passado governava Minas Gerais. Será que nenhuma grande obra foi realizada nesse período? Será que as grandes empreiteiras só foram vítimas dessa chantagem na esfera federal? Em estados e municípios, alguns riquíssimos, todos os contratos são exemplos angelicais de perfeição moral? [ grifo deste blog ]

Outra coisa: será que ninguém vai mencionar a verdadeira origem desse panorama conspurcado em todos – todos – os níveis da administração pública brasileira, de Câmaras de Vereadores ao Congresso Nacional, passando por prefeituras, governos estaduais e a própria Presidência da República? Será que ninguém pretende colocar na mesa de discussão o verdadeiro alcance dos investimentos feitos pelas empresas de todos os ramos, disfarçados de doações eleitorais e políticas? 

Ninguém é ingênuo, ninguém é inocente nesse minueto alucinado: empresas investem em candidaturas pensando no próprio futuro. Partidos políticos aceitam essa dinheirama sabendo que a conta terá de ser paga mais adiante. A cada ‘doação’ corresponde um contrato. Não existisse a figura esdrúxula da ‘doação empresarial’, e o cenário seria outro, bem outro. 

Ao mesmo tempo, se não fosse a sanha moralizante de uma justiça provinciana que não tem limites, aliada e insuflada por agentes que vão dos ressentidos da derrota nas urnas aos responsáveis por vazamentos irresponsáveis e especialmente dirigidos, a Justiça não estaria sendo vexada a cada dia. 

Ao atuar tendo como objetivo exclusivo o de satisfazer a sede de uma opinião pública claramente manipulada, todos e cada um dos passos dados pela justiça e pela polícia federal que obviamente, indiscutivelmente, age de maneira parcial, o que está sendo pintado é um quadro feio. Bem feio. E que poderá se transformar num monstrengo horroroso. E então, será tarde demais. 


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Guido Palomba: Lei de Talião foi uma das maiores revoluções morais nas relações entre os homens


Lei de Talião: Ainda que possa parecer brutal e desumana, essa lei foi uma das maiores revoluções morais nas relações entre os homens

A lei de talião (talis, e, latim: tal, igual) é uma evolução enorme na história do Direito, uma vez que o castigo alcança apenas o autor do delito, e institui a proporcionalidade entre ofensa e débito, o que não se verificava na fase anterior a essa lei, quando, muitas vezes, não só quem praticou o ato pagava, mas também outros membros da sua família. A lei de talião foi edificada por Hammurabi, rei da Babilônia, senhor da Mesopotâmia, cujo reinado iniciou-se em 1792 a.C. e faleceu em 1750 a.C. Registre-se que durante o seu longo reinado uma das primeiras preocupações foi captar a confiança dos povos vencidos e, para isso, implantou a ordem e os preceitos legais, erigindo o sistema de leis que hoje é conhecido como Código de Hammurabi, com 282 parágrafos, entre os quais está o citado jus talionis, exposto assim, no parágrafo 196: "Se um homem livre destruiu o olho de outro homem livre, destruirão o seu olho"; e no parágrafo 200: "Se um homem livre arrancou um dente de outro homem livre igual a ele, arrancarão o seu dente". Há outras passagens semelhantes como esta: "Se um médico fez em um homem livre operação difícil com escalpelo de bronze e causou a morte desse homem livre, cortarão a sua mão". Outra disposição muito interessante do Código de Hammurabi está no parágrafo 278, que é a primeira junção psiquiátrico-forense da história da humanidade, ao disciplinar disposição legal sobre um mal neuropsiquiátrico, epilepsia (a doença mais antiga que o homem conhece), dando-se, portanto, o primeiro encontro de assuntos da Psiquiatria com assuntos do Direito: "Se um homem livre comprou um escravo (ou uma escrava) e, antes de completar um mês, foi acometido de epilepsia, ele o conduzirá ao seu vendedor e o comprador receberá a prata que tiver pesado".

Nessa fase, já vai se esboçando o castigo como remédio e meio de correção de culpado, à medida que se pressupõe distribuição de justiça. Aí também está embutido o temor, que tem papel crucial na pedagogia da humanidade.

A bem ver, a pena, para ser eficaz, precisa ter, no mínimo, dois atributos fundamentais. Primeiro é ser temida, pois quem teme evita. Então perguntará o leitor: nada mais impõe temor do que a morte; assim, pena de morte não seria ótimo exemplo?

Resposta: não, pois é antieducativa, e educar é o segundo atributo fundamental que a pena precisa ter. Ou seja: temor e educação são requisitos primários da pena. Para terminar, os motivos de a pena de morte, que causa temor, não educar é simples: educa-se, também, pelo bom exemplo e é péssimo combater a morte com a morte. É um mal exemplo o pai- -Estado matar oficialmente e querer que os seus filhos-cidadãos não matem.

Nessa ordem de ideias, à ponderação de que somente seriam executados criminosos que cometeram crimes gravíssimos e são irrecuperáveis, portanto a punição capital funcionando como medida de higiene social, contrapõe-se melhor solução, qual seja: prisão perpétua.

Mas isso é assunto longo, que certamente será abordado outras vezes nesta coluna.

Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo


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sexta-feira, 26 de junho de 2015

A desonestidade da Folha de São Paulo no caso do Habeas Corpus de Lula, por Paulo Nogueira



Mark Twain, um dos primeiros grandes críticos da imprensa, observou o seguinte, mais de um século atrás:

“Existem leis para proteger a liberdade da imprensa. Mas não existe nada decente para proteger as pessoas da imprensa.”

No Brasil destes tempos, esta é, ainda, uma verdade doída e revoltante.

Considere o caso do habeas corpus de Lula.

O senador Caiado, que mente todos os dias em sua louca cavalgada antipetista, colocou no Twitter que já havia um HC na justiça pronto para a decretação da ordem de prisão contra Lula por Moro.

Qual a credibilidade de Caiado? Apenas para lembrar, ele disse ter gravado o apedrejamento da perua em que estava ao lado de Aécio na Venezuela, e o vídeo jamais foi visto.

Num primeiro momento, ele culpou a internet venezuelana. Depois, já no Brasil e com a internet boa de que dispõe, não voltou ao assunto.

Mas a Folha comprou a história de Caiado. E não se deu ao trabalho de checar nada, num trabalho pseudojornalístico nota zero com louvor.

E repercutiu o HC.

Você pode imaginar o tom. Entre outras coisas, a Folha insistia numa tese dela mesma, não amparada em nenhuma fonte citada: Lula estaria dizendo aos amigos que seria o próximo alvo da Lava Jato, depois do presidente da Odebrecht.

É um retrato da imprensa brasileira contemporânea: Lula não fala com ela, mas ela não para de falar em Lula, nunca com fatos, mas sempre com especulações inteiramente desfavoráveis.

Você acredita mesmo que algum amigo de Lula passa para jornalistas da Folha, da Veja, da Globo confidências do ex-presidente?

Ou se trata de inimigos interessados, como Caiado, em forjar um noticiário anti-Lula?

Bem, depois veio o choque de realidade.

O autor do HC é um sujeito que parece fazer disso – habeas corpus – um estranho hábito.

Ele já fez 150, e sempre à revelia das pessoas que supostamente deseja proteger. Uma vez agiu em favor de Diogo Mainardi, então colunista da Veja, um pseudojornalista que ganhou sinistra notoriedade por ter sido precursor numa atividade que garante florescentes carreiras na imprensa: atacar sistematicamente Lula e o PT.

Os brasileiros não sabíamos, e a Folha não investigou o suficiente para informar, que qualquer pessoa pode impetrar um HC em nome de quem queira. (É apenas um sinal do funcionamento obtuso da justiça brasileira.)

E então, conhecidos os fatos, a Folha fez o que sempre faz em situações como a do caso do HC de Lula: deu a correção num espaço ínfimo chamado “Erramos”.

Na Dinamarca, onde a frase de Twain já não vigora há tempos graças aos avanços da sociedade, o jornal é obrigado a publicar a errata no mesmo espaço em que cometeu o erro. E com igual destaque.

Isso leva os jornais a serem bem mais cuidadosos que a Folha na hora de publicar notícias.

Algumas pessoas progressistas haviam saudado um editorial da Folha sobre Eduardo Cunha como um sinal de que o jornal estaria voltando a ser “plural”.

Ri sozinho. Sabia que era o triunfo da esperança sobre a experiência.

A Folha se enquadra numa frase de um outro grande crítico da imprensa, George Orwell.

“A imprensa é controlada por um pequeno grupo de homens ricos aos quais interessa tratar de forma desonesta assuntos delicados.”

DCM

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"Indústria da Multa" paulistana está na idade do vapor e a das infrações está na velocidade da luz, diz especialista em trânsito



CET 'entra' nos bairros para multar motoristas (*)

Alvos dos marrozinhos são os condutores que ignoram as leis e sequer dão seta para virar

Agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfico) vão intensificar a fiscalização, a partir de agosto, em 250 pontos da cidade, entre eles vias movimentadas dentro dos bairros, para flagrar motoristas que desrespeitam as leis de trânsito por não ver a fiscalização. Os agentes pretendem coibir a falta do cinto de segurança, falar ao celular e até mesmo a falta de seta para fazer conversões.

A CET vai usar uma pesquisa que mapeou as infrações de trânsito na capital para fazer fiscalizações mais heterogêneas. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, atualmente os marronzinhos costumam multar motoristas que trafegam pelos grandes eixos, como as avenidas Rebouças, Paulista, Radial Leste e 23 de Maio.

“A diferença da fiscalização aleatória é o efeito surpresa. O motorista precisa ter a sensação de que poderá ser fiscalizado a qualquer momento”, disse, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto. “Assim, mesmo em um bairro distante pode ter um agente na esquina”, ameaçou. 

Proporcionalmente, domingo é o dia da semana com mais motoristas descuidados ao volante, segundo a pesquisa apresentada na reunião do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito de São Paulo. 

O levantamento mostra que 55% dos motoristas cometem ao menos uma infração pelas vias da cidade. Ainda segundo o estudo, realizado entre março e maio de 2015, de cada 4,4 mil infração no trânsito, somente uma resulta multa.

“Se existe uma indústria da multa ela está na idade da máquina a vapor enquanto a das infrações está na velocidade da luz”, afirmou o consultor em Engenharia de Transporte de Pessoas Horácio Figueira, um dos coordenadores do estudo. 

Os tipos de infração pesquisadas foram uso de seta, cinto de segurança, braço para fora do veículo, falar ao celular, desrespeito à faixa de pedestre e semáforo vermelho, à sinalização de pare e falta de capacete para motociclistas. 

A pesquisa analisou 15.370 veículos em quatro cruzamentos nas cinco zonas da cidade. 

A Secretaria Municipal de Transportes também anunciou a instalação 80 lombofaixas ( faixa de pedestre em relevo ) nas alças de acesso das marginais Tietê e Pinheiros para tentar reduzir atropelamentos. 


( * ) NOTA DO BLOG: Embora excelente, a notícia é demasiadamente otimista. Ontem mesmo eu telefonei à CET para pedir a fiscalização de carros sobre a calçada em dois pontos ( doravante identificados como "P1" e "P2" ) viciados do bairro. "Pontos viciados" são locais onde os moradores cometem rotineiramente suas infrações com uma naturalidade impressionante, pois sabem que não serão apanhados. Fazem porque contam com a habitual impunidade com que se acostumaram. Pois bem. Telefonei às 16:00hs, depois novamente às 16:45 e, por fim, às 18:00hs. 
Hoje à tarde telefonei novamente, para conhecer o resultado. 
Bem, vocês lembram que ontem telefonei a primeira vez às 16:00hs? A atendente me informou que o fiscal apareceu lá e não constatou infração nenhuma, ou seja, não havia carro na calçada. 
Sabe a que horas ele chegou no local? ÀS OITO HORAS DA NOITE em um dos pontos ( P1 ) que denunciei, e SETE E QUINZE DA NOITE no outro ( P2 ).
ISSO é a "Indústria da Multa" de que se queixam tanto os paulistanos.

OBS: Hoje NOVAMENTE HAVIA UM VEÍCULO ESTACIONADO no "P1".

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Apresentador Danilo Gentili tem 6 milhões de seguidores falsos no Twitter


O apresentador Danilo Gentili, que se notabilizou como os novos representantes do reacionarismo engraçado, tem 6.138.884 perfis falsos em seu Twitter, quase 60% dos seus 10 milhões de seguidores

Esse levantamento é realizado por uma ferramenta denominada Twitter Audit.

Os perfils falsos fazem parte de uma estratégia bem montada por setores mais reacionários da sociedade para inflar pessoas que interessam por meio de robôs, segundo matéria da Pública.

“Uma conta deste tamanho serve, entre outras coisas, como atrativo para propaganda de produtos — incluindo candidatos. Gentili, embora antipetista de coração, gosta de se declarar apartidário, afirma que políticos são todos iguais, deblatera contra o estado-babá e por aí afora. Na disputa de 2014, no entanto, apoiou Aécio a ponto de imortalizar um tuíte de torcedor no dia da apuração: “Vazaram aqui pra mim que Aécio já ganhou. Fonte quente.”, lembra Kiko Nogueira, que já revelou psiquicamente o ódio de Danilo Gentili.


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O Plano Levy e seu previsível (in)sucesso



O Plano Levy e seu previsível (in)sucesso

Ricardo L. C. Amorim*

Nas análises da grande mídia, as medidas recessivas são um remédio amargo, mas ainda um remédio, capaz de, em um ano, pouco mais, reconduzir o Brasil ao posto de país “emergente”. A leitura é parcial, mas não totalmente incorreta. E aqui repousa a ilusão do Plano Levy: ele é uma meia verdade. Por quê?
«As regras autodetrutivas da finança [...] são capazes de apagar o sol e as estrelas,porque não pagam dividendos.»(John Maynard Keynes – 1933)
A economia brasileira viveu momentos difíceis desde 2011. Diante do que viam, os analistas do mercado financeiro distribuíram previsões catastróficas para os anos ulteriores e encontraram nos grandes jornais impressos e na televisão um espaço precioso para dar voz a seus temores. Esse era o panorama percebido no país até janeiro de 2015. A partir de março e abril, porém, o drama econômico deu lugar, crescentemente, a outros temas e novas manchetes. Agora, os problemas políticos e os escândalos de corrupção passaram a dominar a pauta dos debates, e os números econômicos, antes alarmantes, afiguraram-se menos preocupantes. O que teria mudado a opinião do mercado financeiro e da imprensa em tão pouco tempo?

A mudança de perspectiva dos financistas, da mídia e de boa parte dos economistas manifestou-se a partir da troca de comando da equipe econômica do governo federal e do respaldo dado pela presidenta da República às decisões desse novo grupo. As razões da esperança no novo ministro da Fazenda e sua equipe parecem assentar-se em três motivações adoradas pelos conservadores e pelas classes ricas:
a) todos partilham o pensamento econômico neoliberal;
b) o líder do grupo era executivo importante de um grande banco brasileiro, portanto, visto como um deles;
c) é uma liderança que consegue impor-se a uma enfraquecida presidenta de viés populista.

Assim, fazendo jus às expectativas do capital financeiro, o credo neoliberal do novo ministro fez seu plano de ajuste econômico concentrar-se no mote “estabilizar a economia, marcadamente através dos cortes de gastos do governo federal”, mesmo que isso implique atrasar pagamentos na área da educação e reduzir investimentos em infraestrutura. O motivo alegado é a necessidade urgente de reequilibrar as contas públicas, que estariam caminhando para o descontrole e déficits explosivos, cujas consequências, segundo os neoliberais, seriam o retorno da inflação, a redução do crescimento econômico e a perda de empregos. Ao medo da recessão provocado pela política econômica ortodoxa, o ministro responde rapidamente que se trata de um ajuste, uma atribulação passageira, mas importante para trazer racionalidade às contas em desordem do governo federal. Estranho caminho que promete crescimento, construindo desemprego de homens e máquinas.

As grandes empresas de comunicação do país, seus jornais e TVs correm em apoio à nova política econômica, criando um ambiente ideológico favorável à culpabilização da gestão econômica anterior por todos os males. Repetidas vezes, articulistas e repórteres afirmam, alguns de forma velada, outros explicitamente, que o atual período de agruras é inevitável. Em suas análises, as medidas recessivas são um remédio amargo, mas ainda um remédio, capaz de, em um ano, pouco mais, reconduzir o Brasil ao posto de país “emergente”. A leitura é parcial, mas não totalmente incorreta. E aqui repousa a ilusão do Plano Levy: ele é uma meia verdade. Por quê?

Porque é verdade que as contas públicas federais apresentam problemas e é preciso enfrentar a questão. Destarte, os cortes de gastos no orçamento da União e o aumento de algumas alíquotas de impostos federais terão o efeito esperado de reduzir o déficit público nominal e gerar superávit primário talvez ainda este ano. Ao mesmo tempo, essas medidas aplaudidas pelo mercado financeiro e seus escribas, ao surtirem o efeito desejado, provavelmente darão lugar a mais dois eventos importantes:
a) aumentarão a confiança dos capitalistas em relação à condução da economia, convencendo os financistas sobre a ortodoxia das políticas. Isso permitirá rebaixar as curvas de expectativas de juros, impactando a Selic; e
b) a curto prazo, o governo federal não deve elevar o percentual da dívida pública nominal em relação ao PIB e, a médio prazo, colherá os frutos de uma Selic menor. A soma desses resultados será a melhora na posição de caixa da União.

Não são verdadeiras, porém, as projeções animadas que aos poucos vão se formando entre os executivos do mercado financeiro e os jornalistas que repercutem seu discurso. A crença neoliberal de que o ajuste das contas públicas vai equilibrar as ofertas e as demandas de toda a economia e, em virtude disso, permitir a todos os brasileiros retomar seus projetos, seus empregos e investimentos do ponto onde estavam antes da crise não passa de fantasia. A teoria econômica é rica em descrições da realidade que contestam o pensamento neoliberal, principalmente sua “ingênua” fé de que acelerações ou desacelerações rápidas na produção e no comércio são distúrbios passageiros que, superado um período de ajuste, não interferem na sociedade, e a economia volta ao estado anterior, normal, de equilíbrio.

Isso é ilusão. Uma sociedade que sofre uma recessão ou um período de rápido crescimento nunca mais voltará a ser como foi, e é muito simples entender por quê. Primeiro, os agentes econômicos reagem às situações, sejam boas ou adversas, e se reposicionam de acordo com seus poderes financeiros, produtivos, intelectuais ou políticos. Isso significa queum ajuste recessivo, como o defendido pelos neoliberais para o Brasil, não é apenas um “freio de arrumação” nos preços, mas um profundo movimento subterrâneo na sociedade que envolve queima de pequenos capitais, enfraquecimento de sindicatos e do poder de barganha dos trabalhadores, concentração de mercados sob domínio de empresas poderosas, acumulação de riqueza nas mãos dos detentores de liquidez financeira e, portanto, fortalecimento dos mais ricos em detrimento dos mais fracos. De outro modo, o quadro criado não é completamente negativo ou negativo para todos. As recessões são, como de costume, nefastas aos trabalhadores e ao pequeno capital.

No caso brasileiro, será o grande e talvez o médio capital que sairão fortalecidos do período de crise na economia. Os motivos são fáceis de identificar. Por exemplo, a recessão de 2015, em parte provocada, criará capacidade ociosa relevante, pronta para ser reocupada ao primeiro sinal confiável de aumento da demanda. Antes que isso aconteça, porém,grande quantidade de pequenas e microempresas não suportará a queda nas vendas. A situação disponibilizará, portanto, equipamentos, espaços e mão de obra a baixo custo para quem possuir recursos suficientes para comprá-los. A aquisição desses ativos permitirá ao grande capital ocupar novos mercados no momento em que o crescimento ressurgir. Além disso, os ativos adquiridos significam maior garantia para a tomada de recursos financeiros, assim que os bancos se tornarem mais otimistas.

As oportunidades para o grande e talvez médio capital não se esgotam aqui. Também por causa da recessão e da consequente perda de empregos na economia, os trabalhadores estarão enfraquecidos e dispostos a aceitar qualquer oferta como verdadeiro sopro da sorte, mesmo a baixos salários. Os sindicatos, diante dessa situação, pouco poderão fazer e serão seguidamente derrotados nas rodadas de negociação por melhores condições de trabalho para seus associados. Não é preciso enfatizar, portanto, que o grande capital sairá ganhando em todas as frentes.

Definitivamente, o ajuste acontecerá, claro, mas os grupos sociais subalternos pagarão a conta em favor dos que têm maiores e melhores meios para defender-se da crise. O resultado final, superada a recessão, será uma sociedade mais desigual do que a atual. O equilíbrio surgirá, mas em razão de os grupos sociais mais fortes conseguirem impor perdas aos mais fracos. Assim, a ordem voltará a reinar, mas de acordo com as regras que interessam aos mais poderosos. Enfim, o ajuste não será economicamente neutro como se insinua!

O que pode surpreender alguns é que, diante da recessão exacerbada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a geração de capacidade ociosa em todos os níveis, somada à mão de obra pacificada, tornará mais barata qualquer iniciativa de investimento e, desse modo, a retomada do crescimento. O processo é simples. Em primeiro lugar, os preços dos ativos e da mão de obra estarão tão reduzidos que as oportunidades de inversão passarão a valer a pena, superando as avaliações de risco. O efeito será ainda potencializado em razão da especulação financeira, pois a aceleração da economia fará os bancos disponibilizarem liquidez antes empoçada, facilitando o comércio e valorizando os ativos. Com isso, mais e novos créditos serão concedidos em função dos ativos valorizados dados em garantia. Logo, a atividade econômica reagirá, reduzindo o desemprego. A renda, por sua vez, mostrará crescimento, todavia lento e de curta duração. Mesmo assim, o otimismo será comemorado na grande mídia do país. Enfim, após gerar uma tempestade na economia brasileira, o Plano Levy engendrará as condições para a bonança da parte mais rica da sociedade e, com sorte, a parcela empobrecida poderá conformar-se, adequando-se aos novos tempos.

A sociedade enfrentará ainda outra ilusão disfarçada de ciência durante o ajuste promovido pela nova equipe econômica. Se os custos sociais da política recessiva já serão elevados, o pior ainda está por vir. O discurso invocado pelo ministro da Fazenda em favor de políticas recessivas para racionalizar os gastos públicos e conter a inflação, como o corte no orçamento e a elevação da taxa básica de juros, traz, em si, uma falácia gritante. Inclusive assombra perceber a insistência sobre essa tecla, pois, hoje, é relativamente claro que o problema do aumento de preços no Brasil não é um caso de excesso de demanda.[1] Isso é muito grave, pois, ao insistir na fórmula da recessão, não é desprezível a chance de o país ser obrigado a impor percentuais cada vez maiores de cortes no orçamento do governo e elevar ainda mais os juros dos títulos públicos sem que a inflação reduza seu ímpeto. Afinal, a alta dos preços não resulta da pressão sobre a oferta. Tal política, no limite, pode paralisar a produção e só então, ao engessar a economia, permitir que a subida dos preços seja controlada.[2] Em outras palavras, é possível que a fragilidade do diagnóstico neoliberal conduza o país à brutal queda do PIB.

Há mais. O triunfo do Plano Levy tende a emergir como uma autêntica vitória de Pirro. Ao insistir no combate à inflação por caminhos recessivos, o governo federal manterá a estrutura produtiva do país, marcadamente a fabril, com poucos investimentos e, portanto, não só a caminho da obsolescência, como da dependência em relação às inversões das nações ricas. Por conseguinte, o primeiro sinal de retomada do crescimento encontrará uma economia pouco produtiva e dependente, contando com trabalhadores de baixa renda vivendo sua transição demográfica. Diante disso, a incipiente expansão demandará braços que, hoje desempregados, em pouco tempo serão insuficientes e pressionarão por maiores salários. A elevação da massa salarial, por sua vez, aumentará a demanda, que, por fim, pressionará os mercados de bens e serviços. Mas a estrutura produtiva será antiquada, produzindo em fábricas obsoletas e utilizando serviços de baixa tecnologia. Logo, a oferta será limitada, com baixa capacidade de expansão diante da maior demanda. O resultado é previsível: os preços tenderão a subir novamente.

A inflação, entretanto, faz tremer os mercados financeiros, que passarão a exigir atitudes do governo federal em relação ao que chamam de descontrole dos preços. Seu discurso acusará o crescimento exagerado da demanda e verá, no excesso de gastos governamentais, as causas primárias do fenômeno. Será preciso, portanto, segundo neoliberais e analistas do mercado financeiro, cortar gastos do governo, elevar os juros e, se necessário, oferecer outra vez à sociedade o remédio amargo da recessão. Mas tudo será feito, segundo eles, pelo bem do país. O Brasil viverá, então, mais um crescimento rápido que não se sustentará.

É preciso ter claro, pois, que as preocupações da equipe econômica se concentram na readequação das variáveis macroeconômicas de curto prazo. De outro modo, a estrutura produtiva, as máquinas, a qualificação da mão de obra, os setores industriais, os grupos empresariais, a tecnologia, enfim, tudo que dá a forma e a dinâmica da economia serão exatamente os mesmos ao fim e ao cabo. Não será posto em prática nem sequer pensado nenhum projeto de desenvolvimento produtivo para o país. Em outras palavras: o status quo será mantido e reforçado, e as elites tradicionais continuarão a ditar as regras de acordo com seus interesses particulares. Para a maioria da população, no entanto, o novo “voo de galinha” da economia será exasperador e permitirá crescer o sentimento de ilegitimidade do atual modelo democrático.

Na esteira dos acontecimentos, o Partido dos Trabalhadores, ao qual pertence a presidenta Dilma Rousseff, será culpado, com razão, em todas as mídias por erros na condução da economia, marcadamente o quadro recessivo. E essa definição de um culpado será útil – e duplamente – ao discurso neoliberal, pois, em primeiro lugar, a responsabilidade recairá sobre o PT e será estendida a toda a esquerda e ao pensamento econômico divergente. Isso já reduzirá a força política dos grupos que resistem aos desmandos dos donos do poder econômico e político do país. Em segundo lugar, dará à equipe econômica do Ministério da Fazenda e a seus apoiadores a eterna desculpa conservadora de que um período de ajuste para arrumar a casa é necessário em função dos problemas criados no passado. As escolhas ruins de agora serão descritas como um remédio amargo, mas necessário, para a cura da economia nacional.

Assim será completado mais um curto ciclo econômico brasileiro, velho conhecido dos historiadores. A economia, sim, voltará a crescer sob o Plano Levy, pois, durante a recessão, as oportunidades, aos poucos surgidas graças à redução dos preços dos ativos, superarão os riscos dos investimentos. O problema é que o pequeno capital será vitimado mais uma vez e os trabalhadores perderão suas poucas e recentes conquistas. Os únicos a ganhar nesse processo serão o grande capital e os grupos mais ricos da sociedade. Ninguém mais. O país voltará a crescer, mas crescerá pouco, será mais desigual e provavelmente conterá mais pobres em sua população. Enfim, o sucesso que será comemorado na mídia brasileira como o coroamento da ortodoxia neoliberal, na verdade, significará a reposição das condições de domínio dos tradicionais grupos no poder econômico e político da nação.

À esquerda, depois desses fatos, restará a penitência por desperdiçar, em parte por inabilidade e em parte por arrogância, a chance de iniciar transformações econômicas fundamentais em quase doze anos de domínio sobre a Presidência da República. A partir de agora, as teses de esquerda no Brasil terão de ser reconstruídas, e certamente caberá às novas gerações esse papel. A legitimidade precisa ser recuperada para só então a luta voltada à redução das distâncias sociais no país e a retomada do sonho do desenvolvimento voltarem a ser bandeiras na disputa pelo poder na República.

* Ricardo Luiz Chagas Amorim é doutor em Desenvolvimento Econômico. Foi pesquisador do Ipea e diretor do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. As opiniões expressas neste texto são particulares e não refletem o pensamento de nenhuma instituição ou governo. Mais informações, clique aqui.

N O T A S

[ 1 ] – Talvez não seja claro para o pensamento econômico ortodoxo: novos-keynesianos, novos-clássicos e monetaristas modernos. Entretanto, como explicar, sem utilizar múltiplas hipóteses ad hoc, o fraco crescimento da renda no país (talvez recessão) e o aumento simultâneo dos preços ao consumidor?

[ 2 ] – No limite, a inflação pode até mesmo não ser controlada e tornar-se crônica (inercial), pois os oligopólios costumam elevar seus preços unitários a fim de manter ou reduzir menos seus lucros totais em tempos de menores vendas.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil – Ano 8 – Número 95 – Junho 2015 – Pgs. 4-5 – Internet: clique aqui.

( Extraído do site do Padre Telmo Figueiredo )

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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Genoíno, Por Jasson de Oliveira Andrade



Não sei se é cedo para falar sobre o Genoino. Ainda prevalece a sua condenação no “mensalão petista”. Com o tempo, talvez, conheceremos a verdade: inocente ou culpado? Neste texto pretendo expor fatos para um julgamento, provavelmente, parcial. Vamos aos fatos.

Na mocidade, estudante, Genoino se tornou um guerrilheiro na região do Rio Araguaia. Este fato está relatado no livro “Guerra de guerrinhas no Brasil”, de Fernando Portela. O livro foi publicado pela Global Editora em agosto de 1969, baseado em reportagens do jornalista no Jornal da Tarde, hoje extinto e pertencente ao grupo do Estadão. Nesta guerrilha Genoino esteve preso e foi torturado. Na época ele pertencia ao PC do B. Mais tarde rompeu com esse partido e se filiou ao PT.

No PT, Genoino se elegeu deputado federal por São Paulo. Era o parlamentar que mais conhecia o Regimento Interno. Por isto, era sempre consultado até por seus adversários. No livro “Entre o Sonho e o Poder” (2006), depoimento à jornalista Denise Paraná, ele relata esse bom relacionamento. Este foi o motivo que era respeitado pelos adversários. Em 2002, foi candidato ao governo do Estado de São Paulo, tendo sido derrotado por Alckmin, no segundo turno. Neste mesmo ano, foi eleito presidente Nacional do PT, substituindo José Dirceu, nomeado ministro. Aí começou sua desgraça. Por ocupar este cargo, Genoino, em 2005, é denunciado no escândalo do mensalão.

No referido livro, no Item “Mensalão”, Genoino se defende, afirmando que os empréstimos bancários por ele assinados foram legais e estavam sendo pagos normalmente. Mesmo assim, foi denunciado nesse ano. Em 2/9/2006, a Folha noticiou: “O tucano José Serra saiu ontem [1/9/2006] em defesa de José Genoino, ex-presidente do PT. Para Serra, é “exagerado” chamar o petista de mensaleiro (sic)”. No entanto, o Supremo Tribunal Federal o condenou, em novembro de 2012. Em vista dessa condenação, a jornalista Dora Kramer escreveu um artigo (“Nome a zelar”), publicado no Estadão (6/11/2012), afirmando: “Se alguém provoca lamentos e sentimentos sinceros de solidariedade no PT por causa das condenações no Supremo Tribunal Federal, é José Genoino E NÍNGUÉM MAIS ( destaque meu )”. Adiante ela escreve: “Fala-se com sincero pesar do destino de Genoino. “Não merecia” são duas palavras recorrentes”, afirmando ainda que “o então presidente do PT entrou na história como Pilatos no Credo”. A opinião de Kramer, que escreve artigos contra o PT, é insuspeita, como a do José Serra (PSDB)!

Até mesmo no Supremo houve discordância. Felipe Amorim, em 3/10/2012, noticiou que o ministro Ricardo Lewandowsk pediu a absolvição de José Genoino. Na opinião do ministro, “o réu [ Genoino ] se viu obrigado a enfrentar a kafkiana tarefa de defender-se de acusações abstratas”, concluindo: “Genoino está sendo acusado por condutas estatutárias e inerentes às funções de presidentes de legendas políticas”. O voto dele foi polêmico e sua decisão contestada por muita gente. Ele foi, então, considerado “bandido” e o ministro Joaquim Barbosa, que o condenou, “mocinho”. Já Paulo Moreira Leite, no livro “A Outra História do Mensalão” ( Geração Editorial, 2013 ), tem opinião parecida: “O principal indício contra José Genoino é ter assinado pedidos de falsos empréstimos em nome do partido que presidia [ PT ]. Mas os empréstimos eram verdadeiros, sustenta (sic) investigação da Polícia Federal, derrubando a análise do Procurador Geral da República. Em outra contradição, o PT não só pagou os empréstimos devidos, mas fez negociações supervisionadas (sic) e aprovadas (sic) pela Justiça”.

Esses são os fatos. Agora o julgamento ( culpado ou inocente? ) fica ao seu critério, caro leitor...

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

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Paulo Estânio e a "Indústria da Multa que só multa cidadãos de bem"



Na calçada em frente à sua casa, Paulo Estânio bufava, olhava com raiva para um carro estacionado em frente à guia rebaixada de Paulo, e para o relógio em seu pulso. Em seguida, olhava em ambas as direções da rua. E, de novo, olhava o relógio, o carro, a calçada, a rua. E bufava.
"Putaquepariu!", pensava, enquanto dava mais uma bufada de indignação e cólera.
"Que merda!!!"
"Filhadaputa!!!"
Não é todo mundo em São Paulo que leva na esportiva um carro estacionado em frente à sua guia rebaixada. Tem muito folgado por aí, essa que é a verdade. São Paulo virou uma selva de cada-um-por-si.

Ao verificar que havia um carro em frente à sua casa, em plena guia rebaixada, Paulo Estânio primeiro pensou:
"ÊÊÊ Brasil! Aqui tinha que ser que nem na Indonésia! Que nem nos Estados Unidos! Onde todo mundo segue a lei. Não é que nem aqui, essa zona, esses políticos de Brasília..."

Sim, ele começou a fazer mentalmente o bom, velho e manjado discurso chato que todos escutamos nas padarias, nos bares, nos pontos de ônibus, nas filas do supermercado, nos campos, ruas e construções. 
Logo se cansou de escutar a própria conversa cacete e decidiu chamar a CET. Como sempre escutou falar da tal "Indústria da Multa"- uma forte, atuante e organizada conspiração que visaria tirar o couro do bolso de bons, puros, ingênuos e, sobretudo, inocentes motoristas paulistanos  - que operaria em São Paulo, Paulo decidiu ligar pro 1188 e acabar com a farra do vagabundo que estacionou o carro em frente a seu portão. Se fossem verdadeiros os relatos populares, em dez minutinhos um agente apareceria e ferraria o folgado. Isso na suposição de Paulo. Ocorre que esses relatos populares costumam ser extremamente exagerados. Na verdade, não passam de boatos mentirosos, jamais desmentidos a contento pela CET ou pela Prefeitura de São Paulo. Que nem os boatos sobre o Lulinha e a Friboi. 

"Merda, caralho!!! Faz duas horas e meia que telefonei a primeira vez pra esse lixo da CET, e até agora ninguém vem nessa merda! Putos!"

Os procedimentos da CET para esse tipo de caso são notórios e conhecidos. E jogam por terra toda e qualquer argumentação sobre a existência da tal "Indústria da Multa": o cidadão telefona a primeira vez, faz a solicitação de fiscalização, dá o endereço da ocorrência e pega um número de protocolo. Depois de uns quarenta minutos telefona novamente, dá o número do protocolo e pede para fazer o "reforço" da solicitação. Depois de mais meia-hora é necessário telefonar a terceira vez e fazer igual fez na segunda chamada. E, depois de outros quarenta minutos, telefona pela quarta vez e repete a mesma operação do segundo telefonema. 
Cansativo?
Sim, mas é necessário ressaltar que mesmo após essa via sacra, NÃO HÁ GARANTIAS DE QUE ALGUÉM VIRÁ. Por isso muita gente até desiste. Você fica duas horas esperando e, nesse tempo, o motorista meliante tem todo o tempo do mundo para fazer o que tiver que fazer, voltar pro carro e ir embora sem receber a justa punição. Essa é a "Indústria da Multa" de que tanto se reclama. 

Mas, como esse é um texto semi-ficcional, Paulo Estânio esperou o que geralmente se espera na vida real. Mas, ao contrário do que ocorre na realidade, FINALMENTE APARECEU UM FISCAL DA CET.

E este nem precisou pensar muito. como são pouquíssimos guinchos em operação na cidade, o fiscal da CET ( popularmente conhecido por "amarelinho" ou "marronzinho" ) limitou-se a aplicar ao criminoso a multa merecida, para deleite e satisfação de Paulo Estânio, que pensou:
"Valeu toda essa espera! Quero ver a cara do babaca quando perceber o papel amarelo preso no limpador de párabrisa!"

Aí, ele chegou pro amarelinho e falou:

- Aqui tinha que ser que nem na Indonésia! Que nem nos Estados Unidos! Onde todo mundo segue a lei. Não é que nem aqui, essa zona, esses políticos de Brasília...

O amarelinho balançou a cabeça, murmurou alguma coisa, acenou, aprumou-se e saiu com sua moto.

( *** )

No dia seguinte, o fiscal da CET passava por uma via qualquer, fazendo sua patrulha, aguardando alguma chamada ou convocação, e dá de cara com um carro quase inteirinho estacionado sobre uma calçada. Uma idosa teve que descer na rua ( "leito carroçável" ) e quase que um microônibus a atropela. Uma mulher com um carrinho de bebê teve que fazer a mesma coisa e quase deu tragédia. 

Por sorte, naquele exato momento passava por ali um guincho da CET. O amarelinho acenou, o motorista do guincho viu o colega e foi ver o que ele queria. O amarelinho explicou a situação, mostrou o carro audaciosamente comprometendo a segurança de pedestres, e então começaram a fazer os procedimentos para levar o veículo embora.
Segundos depois, ouviram um grito:
- Ei!! EIII!!! Hey!

Alguém vinha correndo a toda na direção dos agentes de trânsito:
- Puf! Puf! Vocês vão multar...? Puf!
"Sim", respondeu o amarelinho
- Mas ( puf! ) não pode!! Puf!, respondeu o sujeito, todo esbaforido.
- Já multei, cidadão. E agora o veículo vai pro pátio.
- Mas...puf!puf!...por quê? Puf!
- Como assim? Você viu onde deixou o carro? EM PLENA CALÇADA! 
- Mas, unfff...foi só dois minutinhos... Foi rapidinho!!

Quando flagrou o carro naquela situação, a primeira coisa que o fiscal fez foi botar a mão no capô do motor, e atestou que estava GELADO. Logo, o veículo devia estar ali há no mínimo uma hora. O vagabundo estava mentindo para o amarelinho, na cara-dura, só pra se livrar. Filho da puta mau-caráter!

Não teve volta. O carro foi guinchado e o motorista ia comer o pão que o Diabo amassou para recuperá-lo, fora os pontos na carteira.

- MALDITA INDÚSTRIA DA MULTA, AMARELINHO FILHO DA PUTA!!! É SÓ NO BRASIL MESMO!! ESSES POLÍTICOS DE BRASÍLIA, DÓLAR NA CUECA!!! ESSAS MULTAS, ESSES IMPOSTOS, SÓ SABEM ARRANCAR O COURO DO POVO!!!, berrou Paulo Estânio ao ver o caminhão do guincho dobrar a esquina levando embora seu carro.

FIM

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domingo, 21 de junho de 2015

"É ilegal e ofensiva à Constituição a tese de que empresas apenas investigadas, ou acusadas de ilícito, tenham de ser afastadas de licitações ter seus contratos rescincidos", diz Ministério da Justiça


Ministério da Justiça adverte sobre limites de atribuições na Operação Lava Jato

É ilegal e ofensiva à Constituição a tese de que empresas apenas investigadas, ou acusadas de ilícito, tenham de ser afastadas a priori de licitações, esclareceu o ministro Cardozo

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, tornou público neste sábado esclarecimentos sobre questões que dizem respeito estritamento ao campo de atribuições do governo, em relação a Operação Lava Jato e outras investigações em curso.

De acordo com o Ministro da Justiça, "o governo defendeu, defende e garante, a autonomia das investigações feitas pela PF e pelo Ministério Publico Federal, tanto na Operação Lava Jato como em quaisquer outras que estejam em curso".

"É também recorrente a posição do governo no sentido de que decisões que só podem ser tomadas por órgãos judiciais ou por tribunais superiores sejam sempre respeitadas", continuou.

"Porém, o governo não pode deixar de se pronunciar sobre duas questões que dizem respeito estritamento ao seu campo de atribuições", disse o ministro.

"Em primeiro lugar, é importante frisar que é absolutamente ilegal e ofensiva à Constituição Federal a tese de que empresas apenas investigadas, ou acusadas de ilícito, tenham de ser afastadas a priori de licitações ou mesmo ter seus contratos rescincidos", continuou.

"Nós vivemos num Estado de Direito, e portanto o afastamento de empresas nos termos da legislação em vigor, só pode ocorrer legalmente após a realização de um devido processo legal, em que se assegure o direito ao contraditório e a ampla defesa".

"Um afastamento independentemente do direito de defesa, sem um devido processo legal, qualificaria um evidente abuso de poder que inexoravelmente seria revisto pelo Poder Judiciário e ensejaria punição das autoridades que eventualmente tivessem praticado esse tipo de decisão", esclareceu ele.

"Aliás, o embasamento legal é claro, o contraditório e a ampla defesa em processos administrativos está assegurada no artigo quinto, inciso cinquenta e cinco, e a tramitação das licitações na Lei 8666 de 1993".

"Em segundo lugar, é fundamental afirmar que o Plano de Concessões lançado pela presidenta Dilma Rousseff é indispensável ao pais. O país precisa de infraestrutura para o seu desenvolvimento econômico", prosseguiu.

"Portanto, também afirmamos que nos parece inadimissível que se utilize utilize um plano de concessões que sequer teve quaisquer de seus editais ou mesmo suas licitações lançadas como uma alegação para eventuais medidas judiciais", sentenciou.

"É fundamental também que se perceba que esse plano será realizado com total transparência e lisura, e amplo acompanhamento dos órgãos de fiscalização, sendo absolutamento descabido que se possa lançar hoje qualquer suspeita sobre a sua forma de execução", concluiu.


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sábado, 20 de junho de 2015

Importado de Cuba, programa de alfabetização boliviano ensinou mais de um milhão de adultos a ler e escrever em 3 anos


O programa Yo Sí Puedo, importado de Cuba, conseguiu reduzir a taxa nacional de analfabetismo de 13,28% em 2011 para 3,8% em julho de 2014

"Ler e escrever era proibido. Eu morava no sítio em que meus pais trabalhavam e o patrão dizia que se eu fosse à escola cortaria minha língua." A história é lembrada pelo ex-policial Quintim Pulma, 83, vestido elegantemente em um paletó um tanto quanto surrado e um chapéu preto, o que concede ao simpático senhor um ar ainda mais altivo. "Hoje, sim, eu posso estudar para provar para eles que eu sou capaz", afirma após se levantar e se apresentar em nome de seus 38 colegas de estudo, todos idosos, do grupo rural de alfabetização da cidade de El Alto, vizinha à capital boliviana La Paz.

O grupo de quase 40 estudantes da terceira idade é uma síntese dos mais de um milhão de adultos alfabetizados desde a implantação do programa Yo Sí Puedo (Sim eu posso, em tradução livre) na Bolívia, em 2006. A maioria é formada por mulheres, de origem rural, pobres, e acima de 50 anos. Foi focando neste perfil que o programa conseguiu reduzir a taxa nacional de analfabetismo de 13,28% em 2001 para 3,8% em julho de 2014. Este índice, certificado pela metodologia de fiscalização da Unesco, é suficiente para que o Estado Plurinacional da Bolívia seja reconhecido como um país livre de analfabetismo - o limite, para a Organização das Nações Unidas, é de 4% -, o que aconteceu em julho de 2014, quando a Unesco declarou oficialmente a entrada da Bolívia na ilustre lista de países que erradicaram o analfabetismo. Atualmente a taxa de analfabetismo no país é de 3,2%, segundo dados de março de 2015 do governo boliviano.

Baixo custo
A meta foi estabelecida como prioridade assim que o líder indígena Evo Morales foi eleito presidente pela primeira vez, em 2006. Atualmente ele cumpre seu terceiro mandato consecutivo, que dura até 2020. Ao tomar posse pela primeira vez, Morales estreitou relações diplomáticas e ideológicas com os chefes de Estado de Cuba, então Fidel Castro, e da Venezuela, o falecido Hugo Chávez. Da coalizão entre os "líderes bolivarianos" nasceu o projeto. A Venezuela colaborou com aporte financeiro e Cuba cedeu material e profissionais para implementá-lo na Bolívia. Além da própria metodologia Yo Sí Puedo, desenvolvida pela histórica pedagoga cubana Leonela Relys, falecida em janeiro de 2015. De acordo com os dados oficiais cubanos, o método já alfabetizou mais de oito milhões de pessoas em 30 países diferentes (leia mais sobre o método no box).

Na Bolívia, a primeira fase do programa durou apenas dois anos, mas foi a mais intensa e bem-sucedida. Entre 2006 e 2008, a Brigada Cubana-Venezuelana chegou em peso com recursos materiais como TVs, videocassetes, livros, apostilas etc., e técnicos, sobretudo professores, para treinar os mestres bolivianos e na adaptação das cartilhas ao contexto sociocultural do país - como, por exemplo, a tradução para cinco idiomas indígenas, caso do quéchua e do aimará. Nestes dois anos, o milagre aconteceu: a taxa de analfabetos caiu a 3,7% sob um custo operacional muito baixo, de 18 milhões de pesos bolivianos por ano, equivalente a pouco mais de R$ 7 milhões anuais - valor este mantido até hoje.

O programa então foi incrementado com sua segunda etapa, o Yo Sí Puedo Seguir. Neste segundo passo, os alunos já então alfabetizados - processo este que dura, em média, de três a seis meses - iniciam um ciclo de dois anos para se aprofundar em leitura, escrita e matemática, passando por bases das ciências naturais, e se formam no primário. Na Bolívia, o equivalente aos ensinos fundamental e médio (três anos) é proposto em dois ciclos de seis anos, o primário e o secundário.

Foco no professor
Em 2012 veio o revés: o Censo daquele ano confirmou um aumento de 5,02% no número de analfabetos, índice que tirou a Bolívia do seleto grupo das nações sem analfabetismo. "Demos muita atenção ao programa de pós-alfabetização e negligenciamos esforços na alfabetização. Essa pesquisa nos mostrou que não se pode descuidar nunca", explica o ministro da Educação, Roberto Aguilar Gómez. Lição aprendida, o Ministério precisou investir mais no programa. Com o orçamento já estabelecido, a decisão foi aumentar o engajamento do professor, que no Yo Sí Puedo é chamado de "facilitador".

Como em qualquer programa de educação sério, a figura principal é a do professor. Neste caso, é ainda mais: os cerca de 18 mil facilitadores não recebem um centavo pelo trabalho de alfabetização. A recompensa é dada em benefícios como um plano de carreira bem estruturado, que prevê um salário mensal inicial de US$ 300 e um teto, a partir de 20 anos de profissão, de US$ 1.200. Há, principalmente, duas formas para os professores recuperarem o tempo investido no programa: aqueles que já dão aulas regulares sobem de nível (e de salário) a cada cinco anos, mas quem trabalha também como facilitador tem o tempo reduzido pela metade; outro caso é dos professores em começo de carreira, momento em que são exigidos dois anos de experiência na província (em regiões rurais do país) e para não precisarem sair de suas cidades, podem realizar esses dois anos no programa de alfabetização.

A partir de 2012, o governo passou a ser mais maleável quanto à concessão dos direitos e a permitir formatos de aulas ainda menos ortodoxas. Entre os professores aceitos no programa está Keyla Guzmán Vélez, que mora com o marido e o filho de três anos ao lado do Mercado Rodriguez, em um bairro de classe média de La Paz. Ela propôs e insistiu em um modelo de aula individual para cada uma de suas alunas (e seu único aluno homem) durante o horário de funcionamento do Mercado (termo em espanhol para feira de rua), entre suas barracas, frutas e legumes que as senhoras vendem. 

O programa nas ruas
Há duas maneiras de se formarem grupos do Yo Sí Puedo. Uma associação de cidadãos, como moradores de um bairro ou trabalhadores de alguma categoria, se reúnem e congregam pelo menos dez pessoas dispostas a estudarem. Levam, então, a proposta de grupo, com horário e local de aulas incluídos, para o comitê de alfabetização local - há pelo menos um em cada cidade do país - e o comitê procura um facilitador. Este é o modelo que gerou o grupo de idosos que abre esta reportagem.

Outra forma de um grupo de alfabetização nascer é a partir da vontade de um professor de formar uma classe. É o caso da citada professora Keyla, pioneira no modelo de aulas individuais. Recém-formada na graduação de "professora normalista titulada", como é chamado na Bolívia, Keyla optou pela carreira de professora quando o filho Josué ainda era bebê. Para ter direito à licença profissional, ela teria de prestar os dois anos de "província", quando o professor é obrigado a sair da cidade e dar aula no interior, e, consequentemente, se afastar do marido e, talvez, do filho. Decidiu, então, cumprir esses anos como facilitadora do programa contra o analfabetismo, mas teria, ela mesma, de encontrar seu grupo. E encontrou comprando maçãs.

A rua em que mora faz esquina com uma das maiores feiras de rua de La Paz. Notou que aquelas senhoras que passavam dois terços de seus dias trabalhando não sabiam ler, escrever e faziam contas abstratamente. Pronto: teria seu grupo de alfabetização à porta de casa. Não era, todavia, tão simples. As senhoras iniciavam suas atividades no Mercado Rodriguez às 5h da manhã e deixavam o local apenas às 19h, ou seja, dedicavam quase todo o seu dia ao trabalho. Resultado: não toparam formar classes após a jornada de trabalho ou abrir mão do horário de vendas - que mesmo tão longo, rende somente cerca de 200 pesos bolivianos (aproximadamente R$ 90 reais) por dia a cada uma.

"É preciso entender a rotina, a realidade da vida dessas mulheres. Elas acordam de madrugada, deixam os filhos sozinhos, trabalham realmente o dia todo e ainda precisam voltar para fazer as atividades de casa", explica Keyla. "Compreendi que sou eu que tenho de me adaptar a elas, e não o contrário", conclui. Então começou sua peregrinação, subindo e descendo a feira para encontrar quem topasse as aulas em um modelo flexível. Final feliz: um senhor e 25 senhoras aceitaram. Então, Keyla combinou com cada um a melhor hora para o atendimento e todos os dias percorria o mesmo percurso com uma lousa na mão e apostilas em uma bolsa. Parava 20 minutos em uma barraca, uma hora em outra, ensinava subtração aqui, vogais acolá, tudo entre cebolas, cenouras, maçãs e as onipresentes batatas. "Eu trabalho desde os oito anos. Meus pais morreram quando eu era criança e tive de trabalhar, e trabalho muito até hoje. Só pude começar a estudar por causa da nossa maestra, ela que veio até nós", conta Paulina Flores, alfabetizada aos 49 anos e que, agora, vislumbra realizar o sonho antigo de entrar em uma universidade e se formar fisioterapeuta.

Seja nos grupos grandes, como de El Alto, seja nas aulas individuais, como do Mercado Rodriguez, há algo de fundamental para o programa funcionar: dedicação dos alunos. As aulas não ocorrem todos os dias, então é preciso que os alunos sigam em casa todo o programa determinado pelos facilitadores e pela cartilha. O curso de alfabetização exige leitura diária, assim como a prática de operações numéricas de soma e subtração e exercícios de caligrafia. Na pós-alfabetização, curso que hoje contempla a maior parte dos alunos do programa, já se caminha em direção à interpretação de textos mais longos, à elaboração de frases complexas e à execução de multiplicação e divisão, além de noções básicas de geografia, história e biologia.

Sistema de educação alternativa
O próximo passo, agora, é propor uma alternativa para que esses adultos possam seguir estudando. "É frustrante para eles chegarem até aqui, terem esperança de prosseguir e depois dependerem de colégios comuns para estudar", desabafa Keyla. "A alfabetização e a pós-alfabetização não são áreas de trabalho isoladas do sistema educativo, são parte da estrutura da educação alternativa, que é um subsistema dentro do sistema educacional boliviano. Muitos alunos que terminaram a alfabetização e a pós-alfabetização se incorporaram a programas de educação secundária de adultos. No ano passado, muitos desses estudantes conseguiram seus diplomas do ensino secundário, o que lhes dá a possibilidade de seguir os estudos em nível universitário", contrapõe Noel Aguirre, vice-ministro de Educação Alternativa da Bolívia. Segundo Noel, quando se trata de educação de adultos devem existir programas específicos para cada tipo de necessidade. No ano passado, a Associação de Trabalhadoras do Lar os procurou com um pedido: queriam se formar no ensino secundário, mas só tinham disponibilidade nas manhãs de domingo, quando não trabalham. "Nós adequamos o sistema e agora existem grupos de trabalhadoras do lar que estão estudando aos domingos", diz Noel.

Além disso, com o objetivo de adaptar ainda mais o programa à população boliviana, o governo concebeu projetos alternativos para incentivar os alunos a continuar em contato com os estudos, como é o caso das bibliotecas comunitárias, que são criadas próximas aos pontos de alfabetização espalhados pelo país, para que mesmo depois de formado o estudante não perca contato com a leitura. "Há dois anos realizamos o Festival Nacional de Canção Popular, que tem como objetivo que os participantes escrevam suas próprias músicas. Os melhores do país são trazidos a La Paz no Dia Internacional da Alfabetização (8 de setembro), quando eles têm a possibilidade de gravar suas músicas em estúdio. Além do resultado cultural, de valorizar as músicas típicas de cada região do país, esse projeto também se transforma em material educativo de apoio aos novos grupos de alfabetização e pós-alfabetização", conta Ramiro Tolaba, diretor-geral do programa de pós-alfabetização.

Avançar é a palavra de ordem na Bolívia. O avanço educacional é evidente, mas é preciso mais modelos de educação alternativa para permitir que o sonho de ler e escrever realizado por Dom Quintim e Doña Paulina sejam apenas o primeiro de tantos.

Combatendo a evasão escolar
A educação infantil foi também prioridade no programa para erradicar o analfabetismo na Bolívia. O alto investimento em educação (8,7% do PIB, o maior da América Latina) é para que até 2025 o número de analfabetos no país esteja controlado entre 1% e 2%, índice atrelado a outro objetivo: atingir 100% de presença de crianças na escola. O caminho para isto tem nome: Juan Manuel Pinto.

O Bônus Juancito Pinto homenageia um herói boliviano que foi à Guerra do Pacífico com apenas 12 anos. Sua função é semelhante ao do Bolsa Família no Brasil: gratifica monetariamente as famílias que mantêm seus filhos na escola. O valor de US$ 30 é pago anualmente (no mês de outubro) para cada criança que comprovar cumprimento integral do ano letivo.

O resultado já veio: a taxa de abandono escolar caiu de 6,5% em 2005 para 1,7%, segundo dados de 2013. Na educação primária, a meta está em vias de ser atingida, com 99% de cobertura, mas no infantil e secundário, ainda falta: ambos estão com cerca de 70% de alunos com idade adequada.

Relato de reportagem: uma nova chance para escrever a história da Bolívia
Apesar de ser uma vizinha próxima, a Bolívia é, na verdade, completamente diferente do Brasil em termos de cultura. Isso apenas começa a explicar o quão difícil é fazer uma reportagem como essa neste país tão pobre e tão amável.

Desde o começo, a lógica é diferente: para ter acesso aos grupos de alfabetização e às autoridades, é preciso mandar uma carta (sim, por correios) e aguardar a resposta oficial - que nunca veio. Chegamos lá, com a vontade de dar voz a essa gente que está pela primeira vez recebendo a atenção do Estado que faltou em suas vidas inteiras e, na raça e na vontade - e depois de muito chá de cadeira - conseguimos os acessos.

Iniciou-se, então, uma das mais impactantes experiências que vivemos como jornalistas até então. Não bastasse a história de dedicação da professora Keyla, que lutou até conseguir que seu método de aulas individuais fosse aceito e que pinçou uma a uma suas alunas - história essa que por si só já valeria a matéria e a ida à Bolívia -, conhecemos ainda um grupo de 39 idosos em processo de alfabetização.

Depois de quase duas horas de viagem até El Alto, o carro estacionou e vimos aquelas quase quatro dezenas de senhores e senhoras vestidos impecavelmente para mais uma de suas aulas. Arriscamos um cordial "buenas tardes, amigos" e, em contrapartida, fomos surpreendidos: todos, um a um, e mesmo aqueles com dificuldades de locomoção, se levantaram e nos deram um beijo e um abraço. Ouvimos de cada um deles um "gracias" por simplesmente estarmos lá.

Don Quintim Pulma veio até nós, como uma espécie de representante daquele grupo, para entender nossas motivações. Convencido de que estávamos lá para dar voz a eles, desabafou sobre sua infância pobre, sobre as ameaças que o proibiram de estudar e, emocionado, após dizer que havia estudado apenas para provar "a eles do que é capaz", concluiu: "já posso morrer em paz."

A aula nos permitiu ver que o método é eficiente, mas não milagroso. Funciona melhor com aqueles que já tiveram empregos que exigiram mais do lado intelectual ou que frequentaram esporadicamente a escola. E, sobretudo, funciona para os mais disciplinados: a lição de casa regular é fundamental para o bom andamento do curso. Todos se formam, mas alguns com muito mais condição de seguir que os demais. É, antes de mais nada, um programa para dar auto estima a esses adultos e idosos. Sentem-se mais valorizados, sentem-se, pela primeira vez na vida, parte de uma sociedade que os olha com atenção.

Voltamos a entender a Bolívia: é um país predominantemente indígena que foi governado por uma elite financeira e/ou militar até a ascensão de Evo Morales à presidência. Com erros e acertos, foi uma virada histórica para os povos vulneráveis do país. Os índios pobres que não podiam estudar quando crianças, agora podem aprender depois de velhos e até sonhar com um diploma universitário.

A partir deste momento em que a comunidade se abriu tanto para nós, ouvimos, lá do fundo da classe, uma senhora dizer: "No se percam", algo como "não nos esqueçam" - os olhos molharam e a voz tremeu. "No vamos perder", respondemos. E aqui está a reportagem, para que nem nós, nem vocês, esqueçamos deles.

Leonela Relys: a madrinha da alfabetização
O nome de Leonela Relys Díaz está escrito nas cartilhas de pelo menos 30 diferentes nações, entre eles diversos países latinos (incluindo aí o Brasil) e africanos e até mesmo a Espanha e a Nova Zelândia. A pedagoga cubana é a principal responsável pelo desenvolvimento do método Yo Sí Puedo, que alfabetizou mais de 8 milhões de pessoas, de acordo com os dados oficiais de Cuba. 
Leonela nasceu na cidade de Camagüey em 1947 e, ainda prestes a completar 15 anos, participou da primeira campanha de alfabetização da ilha sob regime comunista. Sete anos depois se graduou "maestra", carreira que seguiu nas salas de aula e na academia, até se formar doutora em ciências pedagógicas pela Universidade de Havana. Passou, então, 20 anos na direção nacional de estudos para adultos de Cuba - período em que desenvolveu uma série de projetos que serviriam de base para sua obra prima. 
Após dois anos trabalhando com alfabetização no Haiti, retornou à terra natal com a missão de criar a cartilha de um programa massivo ensinar a ler e escrever em Cuba e que pudesse ser exportado. No mesmo ano, 2001, o Yo Sí Puedo foi colocado em prática da forma como o conhecemos. Seu trabalho foi reconhecido como Heroína da República em Cuba e também pela Unesco com a honraria com o Prêmio Alfabetização Rey Sejong, em 2006. Vítima de câncer, a pedagoga faleceu em janeiro de 2015.

Yo Sí Puedo: o método
O programa de alfabetização regido da maneira original como proposto por Leonela Relys se completa após 65 aulas, divididas em três etapas primordiais: treinamento (10 aulas), ensino de leitura e escrita (42 aulas) e consolidação (13 aulas). As classes são ministradas por professores-facilitadores com o apoio de cartilhas e material audiovisual - cada país produz seu próprio modelo de conteúdo de acordo com a cultura local, mas atendo-se ao programa original cubano. Não há tempo mínimo e máximo para a graduação, embora o período considerado ideal seja de três meses. 
Na primeira etapa (treinamento), os alunos são preparados a partir de suas capacidades orais e psicomotoras para iniciar o trabalho de leitura e escrita e, também nessa fase, são apresentadas as vogais e é feita a relação das letras com os números, símbolos geralmente já conhecidos dos alunos (A equivale a 1, B equivale a 2 e assim por diante). 
No ensino de leitura e escritura avança-se na relação entre letras e números, formando sílabas e palavras. Neste momento do projeto, cuida-se com atenção do estudo das letras em si e dos fonemas. Encerra-se o ciclo com a consolidação, que é autoexplicativa: são propostos exercícios de fixação do que foi aprendido, como relacionar imagens e palavras, construção e compreensão de frases mais complexas e redação. 
Estudantes aptos, então, seguem para o programa de pós-alfabetização Yo Sí Puedo Seguir.


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O tamanho do ódio ao PT, por Jasson de Oliveira Andrade


A imprensa escrita e falada diariamente divulga o escândalo do Lava Jato. Não só divulga como o comenta. Quem ouve, lê e vê tais notícias pensa que só existe este escândalo. Ledo engano. Existem outros, mas que não são divulgados. É o que constatou Jeferson Miola, em artigo publicado no TRIBUNA DO GUAÇU em 26/5/2015, sob o título “A divulgação seletiva de escândalos": “Nos últimos tempos, a sociedade brasileira se defronta com grandes escândalos de corrupção. (...) Pelo noticiário, todavia, fica-se com a impressão de que existe somente a Operação Lava Jato. Não bastasse esta seletividade, a notícia é ainda recortada para vincular Dilma, Lula e o PT à gênese da corrupção no Brasil”. Adiante o autor afirma: “ No caso do metrô de SP [São Paulo], embora seja um esquema montado há mais de década e que atinge a casa de bilhões (sic) em prejuízos, um noticiário acanhado (sic) dá conta de uma apuração apartidária, despolitizada e que não criminaliza agentes políticos, porque joga a culpa em funcionários públicos que “agiam por conta própria”. Fosse do PT o partido no governo em SP durante duas décadas, estaria assegurado o carnaval (sic) midiático massacrante. (...) Embora os implicados na Petrobrás sejam majoritariamente identificados com os demais partidos (só o PP tem mais de 30 envolvidos), o noticiário trata como “petrolão do PT (sic)”. Adiante o articulista demonstra essa divulgação seletiva: “Uma prova prática disso: quem pesquisar no Google notícias sobre estes escândalos percebe a abundância de registros diários sobre a Petrobrás, porém registros esparsos e em quantidade infinitamente menores dos demais escândalos”. Principalmente sobre o “mensalão tucano”, que a mídia denomina “mineiro”, acrescento eu! Quem toma conhecimento desse noticiário, poderá pensar que o ódio ao PT seja por essa corrupção, mas se engana. É o que veremos a seguir.

Marcos Coimbra, no artigo “O tamanho do ódio”, revelou que uma pesquisa recente do Vox Populi aponta: o eleitorado que diz detestar o PT representa 12% do total. Não é pouco, mas menos do que muitos imaginam”. E conclui Coimbra: “O ódio na política atinge um segmento menor do que se pode imaginar. O Diabo talvez não seja tão feio como se pinta”. Adiante constatou: “Mas é razoável supor que muitos [ desses 12% que odeiam o partido ] são antipetistas de carteirinha. (...) Como seria de esperar, o ódio ao PT não se distribui de maneira homogenea. Em termos regionais, atinge o ápice no Sul (onde alcança 17%) e o mínimo no Nordeste (onde é de 8%). É maior nas capitais (no patamar de 17%) que no interior (4% em areas rurais). É ligeiramente mais comum entre homens (14%) que mulheres (10%), Detestam a legenda 20% dos entrevistados com renda familiar maior do que cinco salários mínimos, quase três vezes mais que entre quem ganha até dois salários. É a diferença mais dilatada apontada pela pesquisa, o que sugere que esse ódio tem um real componente de classe (sic)”.

Dois casos de intolerância, um religioso e outro político. No religioso, o Estadão de 17/6/2015 noticiou: “Menina leva pedrada por ser do candomblé”. Na reportagem, essa revelação: “Uma estudante de 11 anos foi atingida com uma pedra na cabeça enquanto caminhava pela rua, após sair de um culto de candomblé na Vila da Penha, na zona norte do Rio. (...) Segundo a avó da vítima (...) dois homens que estavam em um ponto de ônibus, com a Bíblia sob os braços, começaram a insultá-las. (...) O grupo só parou quando a menina foi atingida pela pedra. Ela chegou a desmaiar (sic).”. Esta intolerância religiosa foi condenada pelo deputado Marcos Felício (PSC-SP), que é pastor evangélico. Ele declarou: “Nunca tinha ouvido falar de tal acontecimento partindo de evangélicos. Existem loucos (sic) em todo lugar. Se forem (evangélicos), cadeia (sic) para eles”. O deputado disse ainda: “a ação foi uma barbaridade (sic)”. Outra intolerância, a política: o ódio ao PT está levando fanáticos a agredirem quem veste de vermelho! É o ódio até a camisa vermelha, o que levou Eduardo Guimarães a declarar: “Odeia a cor vermelha? Então se mate, pois ela corre em suas veias”.

Em minha opinião, críticas ao PT ou a outros partidos são normais. Faz parte da democracia. Já o ódio é condenável. Felizmente, por esse levantamento do Vox Populi, o ódio é menor do que se pensa. Ainda bem!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

Publicado no TRIBUNA DO GUAÇU em 20/6/2015

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sexta-feira, 19 de junho de 2015

As novas aventuras da coluna Aécio



Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:

Os jornais de sexta-feira (19/6) tratam como saga a barafunda em que se meteram senadores brasileiros que tentavam intervir em problemas internos da Venezuela. Como se sabe, os parlamentares liderados pelo senador Aécio Neves, do PSDB, candidato derrotado à Presidência da República em 2014, voaram até a capital venezuelana mas não puderam sair da região do aeroporto, que foi bloqueada por manifestantes e agentes de trânsito.

A viagem, em avião da Força Aérea Brasileira, tinha como objetivo oficial uma visita a opositores do governo de Nicolás Maduro que se encontram detidos ou em prisão domiciliar, acusados de organizar protestos violentos contra o regime “bolivariano”. Em termos comparativos, seria o equivalente a ter um senador brasileiro privado de sua liberdade por haver estimulado manifestantes que pregam o golpe militar.

Formalmente, pode-se admitir que a comitiva se encontrava em missão humanitária, com o propósito de averiguar as condições dos venezuelanos perseguidos pelo governo de Maduro, um dos quais, segundo se noticia, estaria em greve de fome. Mas, dado o contexto de confrontação política que se vive no Brasil, não se pode descartar a hipótese de que se tratava de uma versão aérea da “coluna Aécio”, que se desmanchou pateticamente na Praça dos Três Poderes no dia 27 de maio (ver aqui).

O governo brasileiro reagiu formalmente, em termos diplomáticos, ao que se considerou um constrangimento a parlamentares nacionais que usavam uma aeronave da FAB. Mas o incidente não deve passar desses protocolos.

A rigor, também para a chamada opinião pública tanto faz se a comitiva foi vítima de truculência ou se foi se meter em assunto afeto à soberania do país vizinho – aquela parcela da população que acredita em tudo que sai na imprensa vai continuar pensando que a Venezuela é governada por uma tirania comunista.

Interessante é notar a cautela das principais lideranças do PSDB, que observam com certo embaraço a nova bravataria do ex-governador mineiro e seu fiel escudeiro, o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, duas das vozes mais radicais da oposição. Na disputa interna pela candidatura presidencial do partido em 2018, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ganha pontos com essas trapalhadas de seu rival.

O ovo da serpente

Nas redes sociais, a iniciativa de Aécio e seus companheiros de voo é testada por perguntas provocativas. “Na próxima viagem, que tal ir resgatar o brasileiro Islã Hamed, que faz greve de fome há dois meses numa prisão da Palestina?”. “E se deputados venezuelanos viessem ao Brasil pedir a libertação de Vaccari?” No entanto, como se pode depreender em dois segundos de reflexão, não é disso que se trata.

A viagem dos senadores oposicionistas a Caracas é parte do programa de confrontação incessante com o governo petista, com a criação sucessiva de situações de crise. A tentativa de produzir um incidente internacional tem o propósito de alimentar a cultura do ódio no campo político e minar a governabilidade. O tempo e o espaço ocupados pela aventura da nova “coluna Aécio” são roubados de questões como o ajuste nas contas públicas e a redução da maioridade penal.

Por outro lado, pode-se afirmar que atos como esse estimulam a ação de radicais, no momento em que o governo, para atender a exigências de órgãos internacionais, se vê obrigado a se adequar apressadamente às normas do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o combate ao terrorismo. Essa é uma nova frente na qual os setores reacionários do Congresso poderão confrontar o Executivo, pressionando para que movimentos sociais sejam criminalizados.

Não custa lembrar que, por conta das manifestações de rua iniciadas em 2013, três senadores propuseram transformar em crime de terrorismo os protestos durante a Copa do Mundo de 2014. Até mesmo um parlamentar petista, o senador Walter Pinheiro, da Bahia, entrou nessa canoa furada. Recentemente, este observador foi alertado para mensagens postadas no Facebook por um empresário e publicitário famoso, que pregava o assassinato de autoridades.

Consultada sobre a investigação de fatos como esse, a Agência Brasileira de Inteligência deu a seguinte resposta: “A área de Contraterrorismo da ABIN tem atuação ampla, que abrange não apenas ações de grupos terroristas publicamente estabelecidos. Atos de violência contra a sociedade cometidos por motivação política são também objeto de interesse desse departamento da ABIN”.

No contexto de radicalismos estimulado pelos pitbulls da mídia, a patética provocação dos senadores oposicionistas contribui para aquecer o ovo da serpente.


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