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segunda-feira, 25 de maio de 2015

O racismo dos filhos de imigrantes no Brasil contra os haitianos, Por Túlio Milman ( Acompanha: texto pessoal do blogueiro )


É estarrecedor. Netos e bisnetos de imigrantes torcendo o nariz para a imigração haitiana. Ainda mais no Brasil. Ainda mais no Rio Grande do Sul. Durante a semana, ao apoiar o acolhimento aos caribenhos, ouvi de tudo. “Ignorante, mal-informado, mal-intencionado.” Senti vergonha de ler o que li e de ouvir o que ouvi. Não por mim. Estou acostumado às críticas. Senti vergonha pelo passado. Talvez porque conheça bem duas histórias.


A segunda história que conheço bem é a da minha família – a mesma das famílias de milhões de gaúchos. Imigrantes miseráveis, sem dinheiro e cheios de esperança que cruzaram o mar e o mundo em busca de uma nova vida. Aqui chegaram, aqui foram acolhidos, aqui viraram iguais aos outros e iguais entre si.

Os tempos eram outros, argumentam. Sim, eram outros. Mas os dramas e a essência das pessoas são os mesmos. É o ângulo pelo qual enxergo a questão. O direito à liberdade é o mesmo. O sonho é o mesmo.

Quando os europeus chegaram, faltava mão de obra. Hoje, sobra. Mesmo assim, é impossível que um país tão grande não consiga organizar esse novo fluxo imigratório.

Criar incentivos para a colonização de áreas menos habitadas, estimular o preenchimento de vagas em locais onde elas estão disponíveis.

Há uma outra questão camuflada nesse debate. Camuflada, mas fundamental. O racismo. Se os novos imigrantes que chegam ao Brasil e ao Rio Grande fossem loiros de olhos claros, a celeuma seria bem menor. Mas são negros, são pobres, são sós. Têm nomes estranhos e falam uma língua estranha, o creole.

Outro dia, fui abastecer meu carro em um posto de Porto Alegre. A frentista era haitiana. Orgulhosa por estar trabalhando. Vi o brilho no olho dela. Me lembrei dos meus avós. E saí me perguntando como seres humanos podem esquecer tão rapidamente das suas próprias trajetórias.

O Haiti não é aqui.

Aqui é o Brasil.

Não temos o direito de negar a essa gente as oportunidades que nossas famílias tiveram em um passado não tão distante. Nem que tenhamos que nos sacrificar um pouco mais para isso.


LEIA TAMBÉM:

"Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free, BELLO!"

Um dos meus problemas com minha ascendência européia é que eu nunca me importei com ela. Nunca me interessei em saber direito porque os italianos vieram pra cá ( Sampa ) ou os iugoslavos ou sei lá que porra de raça e nem quis saber de procurar algum tipo de cidadania, como foi moda uns tempos atrás. 
Quando era mais jovem e algum bicho dágua vinha me perguntar de onde vieram meus antepassados, eu até respondia. 
Depois, mais velho e desconfiado comecei, ao longo do tempo, a notar um eventual ranço de xenofobia na pergunta, e a resposta que eu ainda não tinha dado já vinha com uma espécie de aprovação subliminar prévia, e passei a responder ( invocado ) naquelas de "Eles não sei. Eu sou brasileiro". 
Nada de orgulho, apenas fato. 
Da mesma forma é um fato que eu sou branco de olho azul. Não tenho como mudar isso, e nem pretendo. Mas não vou gostar de espaguete por causa disso ou cultivar um saudosismo artificial em relação a uma terra onde nunca estive. Minhas raízes estão aqui. Somente aqui. 
E eu não celebro ter nascido em determinado bairro ou sou grato por ter nascido aqui ou acolá. Não sou "buona gente". Embora, se eu jogasse de acordo com essas regras, minha vida teria sido, digo, estaria sendo MUUUUITTOOO mais confortável.
De modo que fico muito irritado quando gente com quem convivo ( forçosamente, por causa do trabalho ) vem com um papo-furado pseudo-humanista de que "a gente" (sic) mal tem condições de cuidar de "nossos" (sic de novo) pobres e ficam mandando esses haitianos [ leia-se: pretos pra caralho e pobres pra caralho ] pra São Paulo", quando tais neohumanistas não conseguem esconder vários preconceitos e xenofobia paulistana contra "nossos pobres", sobretudo os nordestinos, favelados, os que recebem Bolsa-Família, estejam eles aqui em Sampa, estejam lá na "terra deles" ( o "Norte", que é como muitos se referem ao Nordeste ).
Infelizmente, a gente precisa ser social para ganhar a vida nessa cada vez pior bosta de cidade. Eu não sou politicamente correto ou um campeão dos direitos humanos, as pessoas do dia-a-dia é que estão virando umas merdas e o orgulho ( da boca pra fora? ) de ser uma cidade "que abriga de braços abertos, com um franco e generoso abraço e um brilhante sorriso no rosto, todas as raças, nações, povos e etnias" e o caralho a quatro sempre me pareceu propagada do Itaú de 25 de Janeiro. 
Não sei o que pode ou deve fazer o Brasil com os refugiados que vêm para cá, que tipo de tratado o país assinou e que tipo de compromisso deve cumprir, mas nunca ninguém vai me ouvir mandá-los de volta ou jogá-los ao mar. Tenho inúmeros defeitos, mas esse não é um deles. 
E não adianta mudar de emprego, isso é que é pior.

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