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quinta-feira, 21 de maio de 2015

O escritor Rubem Fonseca e o Golpe de 64, Por Jasson de Oliveira Andrade


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Rubem Fonseca é considerado um dos melhores escritores do Brasil, com repercussão no Exterior. Um de seus livros, “Feliz Ano Novo”, bem recebido pela crítica literária, lançado em outubro de 1975, teve sua publicação e circulação proibida em todo território nacional, por despacho do então ministro da Justiça, Armando Falcão, no governo do presidente (ditador) Ernesto Geisel, sob a alegação de “exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes””, ou seja, foi considerado pornográfico. O jornalista Carlos Castelo Branco, no Jornal do Brasil, em 24/12/1976, escreveu: “Condenar como pornógrafo um dos melhores escritores brasileiros da atualidade (sic) é repetir um erro monótono no qual a incompetência oficial (sic) tem incorrido sistematicamente ao longo do tempo em diversos países”. Já o senador Dinarte Mariz, da ARENA (partido da Ditadura), na Folha de S. Paulo, em 7/1/77, declarou: “ Suspender “Feliz ano novo” foi pouco. Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia (sic) e quem lhe deu guarida também”. Somente no final de 1989, já na Democracia, Rubem Fonseca teve decisão favorável do Tribunal Regional Federal, liberando a obra. Quem lê essas informações, pensará que a proibição de “Feliz Ano Novo” se deu porque Rubem Fonseca era contra o Golpe de 64, o que não é verdade, como veremos.

O jornalista Jerônimo Teixeira, em reportagem na revista VEJA (23/12/2009), sob o título “Maldito (sic) passado” fez essa surpreendente revelação: “(...) o embate com a ditadura [ proibição de seu livro “Feliz Ano Novo” ] foi precedido por um epísódio ainda hoje recalcado (sic) em sua biografia: Rubem Fonseca participou de uma instituição que forneceu estofo ideológico ao golpe que em 1964 apeou o presidente João Goulart do poder. Exerceu cargo de direção no Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais [ IPES ], que tinha entre seus membros proeminentes o general Golbery do Couto e Silva, uma das figuras mais cavilosas (sic) da ditadura. Fonseca admite sua participação no Ipes até 1964, ano do golpe – mas uma pesquisa recente da historiadora Aline Andrade Pereira revela documentos (sic) que atestam a participação do escritor no Ipes até pelo menos 1970. (...) O próprio Rubem Fonseca apresentou sua versão dos fatos em um artigo publicado na Folha de S. Paulo em 1994. De acordo com sua história, o Ipes esteve dividido em duas alas – uma delas fiel aos princípios democráticos (sic) e a outra favorável ao golpe. Fonseca dá a entender que se alinhava com a turma da democracia (sic) – e que não teve mais nada com o instituto depois de 1964. Não foi bem assim: na tese de doutorado, defendida neste ano [2009], a professora Aline Pereira levanta documentos conservados no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro que atestam a participação (sic) do escritor muito depois do golpe. (...) Recibos provam (sic) a contribuição financeira de Rubem Fonseca até 1970. (...) Mas a manipulação das datas que o autor promoveu no artigo de 1994, sugere algo mais: sua colaboração com uma entidade golpista parece ser matéria sensível, talvez até um dilema moral (sic) para o escritor”. 

Jerônimo Teixeira termina assim seu texto na VEJA: “No ambiente democrático que sucedeu à abertura, no qual tantos remexeram nas feridas abertas na ditadura [ O Globo, Folha, Estadão, entre outros ] teria sido mais salutar que o escritor arejasse sua história no Ipes, em vez de ocultar datas”. 
O jornalista tem razão. Por isto ele deu esse título à sua reportagem: MALDITO PASSADO. Também acho!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

PUBLICADO NA “GAZETA GUAÇUANA” EM 21/5/2015


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