quarta-feira, 13 de maio de 2015

O emissário de Amaury Kruel e a minha demissão do SAMDU, Por Jasson de Oliveira Andrade



O impressionante depoimento do então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, em 2013, acusando que o então comandante do II Exército Amaury Kruel recebeu seis maletas com dólares para trair o então presidente João Goulart ( Jango ), causando sua deposição, além desta revelação, trouxe-me outra: o seu emissário na trama, o oficial Militar Tito Ascoli de Oliva Maya, presidiu, em agosto de 1964, o Inquérito do SAMDU ( Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência ) de São João da Boa Vista, onde eu trabalhava desde 23 de novembro de 1953.

Esse Inquérito foi o mais estranho e misterioso que já vi em minha vida. Tive um contato muito rápido com Tito Ascoli, que nem me lembro de sua fisionomia. Nunca tinha ouvido falar dele a não ser agora, em 2013. Se ele, como emissário de Kruel, também recebeu dólares, não foi informado pelo Major Iramá, mas talvez sim. Nada há de oficial. No entanto, é uma hipótese lógica. 
Se no “caso dólares”, há mistério, na minha situação no inquérito SAMDU, também, conforme relatei no meu livro “Golpe de 64 em São João da Boa Vista”.

No meu livro, à página 22, consta: “Em agosto [de 1964] respondi a uma Comissão e Inquérito do Samdu, presidida pelo coronel Tito Ascoli de Oliva Maya. Ele não me ouviu (sic). Pediu apenas que fizesse a minha defesa de acusações que me eram feitas [por quem?]. Como me defender, se não sabia do que me acusavam? Mesmo assim, SUPONDO o que poderia ter causado o inquérito, me “defendi”: a minha “defesa” está datada de 11 de agosto de 1964. Como desconhecia as acusações, fiz minha defesa, baseando-me em suposições”.

Já na página 63, no texto “Demissão do SAMDU”, eu escrevi: “Alguém devia ter caluniado Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã( Franz Kafka, O Processo ). A minha demissão do Samdu tem algo de kafkiano. Até hoje desconheço o motivo dela. Entre as várias pessoas que responderam ao inquérito daquela autarquia federal, apenas eu fui demitido. As explicações que recebi, não oficialmente, mas de alguns amigos, basearam-se em acusações tão fantásticas (sic) que me fizeram lembrar o personagem Josef K. de Kafka. Enquanto não tiver acesso aos autos do inquérito [que é secreto!], eu nada poderei dizer sobre o motivo de minha demissão, a não ser que ela foi política (sic)”. Adiante eu revelei: “Apesar dessa “defesa” fui demitido do Samdu. (...) Passei dificuldade, sem dinheiro. Os funcionários do antigo Samdu (os médicos e outros servidores) contribuíam por mês para a subsistência de minha família”. 
Essa privação por que passei, devo ao coronel Tito Ascoli de Oliva Maya, o emissário de Kruel! O mistério do Inquérito e da minha estranha demissão só o coronel poderia esclarecer, mas ele faleceu em 1980. Jamais saberei o que ocorreu!

Não pretendia escrever nada sobre o assunto. Só o fiz para que os defensores da volta da Ditadura, poucos, possam conhecer como se procedia naquela época.

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

Publicado na GAZETA GUAÇUANA em 12/5/2015

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