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domingo, 26 de abril de 2015

A roupa nova do governador


Era uma vez uma terra longínqua, onde o partido de um certo governador dominava a cena política - e o poder naquele Estado - desde o longínquo ano de 1994. Ele e sua turma faziam o que queriam.
Sobre ele ainda não dá pra falar, mas conta-se que muitos da turma dele se lambuzavam nos cofres estaduais. Mas, como a casa legislativa era totalmente dominada pelo partido do governador e sua turma, nenhuma denúncia era investigada. Não havia Comissões Investigativas, elas eram tratoradas. Ou melhor, passava-se uma carruagem sobre elas.
Havia imprensa livre. Livre para proteger o governador e sua turma. 
E não havia previsão de que o governador e sua turma deixariam a cadeira livre um dia. Lembrava muito o PRI mexicano.
O segredo de tamanha longevidade no poder? Certa vez passavam por ali dois viajantes que resolveram tentar descolar uns trocos naquela terra. Convenceram o soberano da época a recebê-los, sob a argumentação de que traziam boas novas que interessariam ao governador e sua turma.
E assim, foram recebidos em audiência. O soberano foi logo no ponto:
- Que "boas novas" trazem vós, viajantes?
- Somos mestres em Comunicação e Propaganda, Majestade Estadual!, disse um.
- Mestres! Somos mestres!, disse o outro.
- "Mestres"? Ora, nesse caso irei enviá-los às masmorras! É assim que tratamos os mestres aqui em nossas terras!
- Er, não é esse tipo de "mestre", bondoso governador!
- Não, amável soberano. Somos outro tipo de mestre!
- Mmmm... Da próxima vez escolher-de-eis melhor sua palavras!, retrucou o augusto soberano, inventando na hora o "escolher-de-eis".
- Certamente, majestade!
- Queira nos perdoar!
- Assim é melhor. Continuem, vós, "mestres de outro tipo"!
- Temos uma maneira infalível para que vossa augusta e magnânima majestade, os seus correligionários e demais membros da corte e aspones, permaneçam o tempo que desejarem ocupando o trono governamental.
- Sim. Infalível!
- Mmmm. Isso me interessa deveras. Prossigueis com vossa explanação...
- Custará alguns cobres de vosso cofre estadual, Vossa Grandiosa Governabilidade.
- Mas valerá a pena, excelso majestoso.
- Nós aqui em Tucânea não gostamos de ter despesas excessivas - rebateu o Governador Real - e o símbolo de nossa gestão deveria ser uma tesoura, digo, uma guilhotina. Ou um cinto. Por acaso esse método infalível envolve a construção e manutenção de escolas para os campônios? Remuneração justa para os mestres, em vez de masmorras? 
- Sois um pândego, se me permite um chiste, Vossa Tucanidade.
- Seríeis um sucesso se tivesse um show de stand-up, Nobre Líder. 
- Aqui nestas veias não circula apenas sangue azul. Admiro as formas superiores de cultura.
- Percebe-se de longe.
- Certamente. Este povo tem sorte em elegê-lo.
- Cortai vós essa bajulação!, respondeu o soberano, enrubescendo. Digam logo seu preço. 
- Notamos que vóis não sois muito vaidoso, como é o soberando de uma terra que acabamos de visitar, e para quem vendemos belíssimas peças de roupas.
- Não me interessa essa lengalenga, viajante. O PREÇO!
- Já haviamos negociado com vosso Primeiro Tribuno Real. Ele está informado de tudo, cabendo a vós apenas dar o aval real e soltar a bufunfa.
- Para não aborrecê-lo com tratativas demoradas e aborrecidas, o Tribuno Marinho poupou-o destas questãs comezinhas. Acertamos previamente com ele.
- Ora! Quanta consideração!
- Sois um homem ocupado.
- Seu tempo vale ouro...
- Pois bem, fecharemos o acordo e a palavra do Governador tem o valor da Lei. Concedei-me estes tão valiosos ensinamentos e passem no guichê real para receberem seus proventos. A ordem está dada. Agora desembuchem.

E assim foi feito. Os viajantes ensinaram o governador a, antes de tudo, usar de sua influência e simpatia junto à imprensa livre daquela terra. Que usasse os cofres reais nessa empreitada, ainda que na esmagadora maioria dos casos não fosse necessário. Se preciso for, deveria recorrer a mesadas generosas pela boa imagem nos meios internéticos. Um merengue era de bom tom.
Em seguida, - o maior de todos os ensinamentos - deveria ser estimulada a vaidade e o orgulho daquele povo. Por mais burro e imbecil que fosse, deveria ser tratado como uma gente esperta, mais esperta que as gentes das terras de outras paragens. 
Se existisse um déficit brutal de inteligência naquele povo, isso deveria ser transformado em superávit. O povo deveria se ver daquela forma positiva. Deveria acreditar naquilo. Em sua superioridade sobre os demais. Numa espécie de destino manifesto. Deveriam ser convencidos de que os demais povos morriam de inveja, por serem sujos e incompetentes. 
Aprenderiam a raciocinar da seguinte forma: "Eles são pobres e vagabundos porque não sabem escolher seus líderes, mas nós sabemos. Por isso somos lindos e ricos, por nosso mérito. Nosso brilhante governo reflete deveras o nosso próprio brilhantismo. Tal governo brilhante deverá permanecer por muito e muito tempo, como simbolo real e concreto de nossas próprias qualidades superiores. Somos gratos por pertencermos a essa terra e por termos um governo tão bom como nós mesmos somos."

E assim se fez. Tal povo foi paulatinamente sendo convencido de que apenas um povo inteligente seria capaz de eleger um governo tão brilhante. A escolha do povo por aquele grupo de governo deveria ser declarada prova incontestável de esperteza.
Como ninguém queria passar por burro, estúpido ou imbecil, o governador de então garantiu, pro futuro, a permanência de sua turma no centro do poder daquela terra por muitos e muitos anos, o cetro sendo passado de mão em mão, sem sair daquele círculo. E todos viveram felizes para sempre. O povo está nu.

FIM

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