terça-feira, 31 de março de 2015

Volta ao passado?, Por Maurício Pestana


Há pouco mais de 50 anos, quando João Goulart fora empossado Presidente da República após a renúncia de Jânio Quadros, setores da direita saíram às ruas protestando contra o que chamavam de "avanço do comunismo" em nosso país. Organizações em defesa da Família e da Propriedade se encontravam na linha de frente das manifestações, e contavam, a exemplo de hoje, com figuras consideradas de pesos da comunicação. 

No início de suas carreiras, estes comunicadores se apresentavam como sendo de esquerda, mas o tempo mostraria o caráter golpista e de direita deste meio, como foi o caso do jornalista Carlos Lacerda.

As manifestações ocorridas na Avenida Paulista pedindo o impeachment da presidenta Dilma e a volta do Regime Militar se apresenta como uma caricatura mal feita do início do movimento de 1964, e impressiona como os personagens se assemelham na forma, cor e conteúdo. 

Contavam com apoio de parcela expressiva da mídia e empunharam bandeiras parecidas como as de meio século atrás, como fim corrupção, a volta dos militares e a extradição de algumas lideranças de esquerda para Cuba.

A tal Marcha da Paulista é tão caricata que, ao contrário da maioria das manifestações ocorridas na Paulista que caminham da Consolação para o centro da cidade, seguiu na direção contrária. A Marcha dos Caras Brancas desceu a Brigadeiro sentido Ibirapuera - região nobre de São Paulo, provavelmente para que no final do manifesto ficassem mais perto de suas casas no arborizado, seguro e policiado bairro dos Jardins.

Tirando o caráter golpista e reacionário da manifestação, o movimento serve de alerta, embora não haja clima para golpe num país que não concentra mais a maioria de sua população no campo e analfabeta como em 1964 e tem bem na memória o que representou os 20 anos de autoritarismo e o cerceamento dos direitos. 

O simples fato de um grupo ensaiar um pedido de volta a esse passado nefasto já serve de alerta para lembrarmos que às vezes na história da humanidade os personagens se modificam, mas os episódios se repetem.

MAURÍCIO PESTANA é Jornalista, escritor e cartunista. Atualmente ocupa o cargo de secretario adjunto da secretaria da promoção da igualdade Racial da cidade de São Paulo


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