quinta-feira, 26 de março de 2015

Geisel, o “esquerdista” que quase sofreu um Golpe, Por Jasson de Oliveira Andrade


Um fato histórico foi revelado por Elio Gaspari, no livro “A Ditadura Encurralada”. À página 425, consta: “Na noite de 27 de junho [1977], amparado em decisão judicial, Ulysses Guimarães, os líderes do MDB nas duas Casas do Congresso falaram ao país em rede nacional de rádio e televisão, Denunciaram as arbitrariedades do governo. (...) Ulysses Guimarães recorrera às suas frases de efeito: “O AI-5 é forte para cassar mandatos conferidos pelo povo, mas é fraco para cassar a inflação que flagela o povo”. (...) O deputado Alencar Furtado foi além. Dissera o seguinte: “O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana, para que não haja lares em prantos, filhos de órfão de pais vivos – quem sabe? – mortos talvez. Órfãos do talvez e do quem sabe. Para que não haja esposas que enviúvem com maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez”. O pronunciamento da oposição, principalmente do líder Alencar Furtado, repercutiu mal entre os militares da Linha Dura (direita), liderada pelo ministro Sylvio Frota, que enviou um telegrama aos quartéis. Elio Gaspari assim comentou essa atitude do ministro: “O telegrama – um manifesto (sic) à frota - é um primor de ambigüidade a serviço da anarquia (sic). A tortura (sujeito oculto da fala de Alencar Furtado) alimentava uma crise militar (sic), estimulando a desordem e sugerindo o emparedamento do presidente da República. (...) Geisel disse ao Golbery que iria tirar Frota. E foi o que aconteceu, com uma hábil estratégia de Geisel.

Gaspari relata o que ocorreu: “Em Brasília o dia 12 de outubro de 1977 era feriado em louvor a Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. (...) Ás 8h30, logo depois de chegar ao palácio, Geisel mandou comunicar ao ministro do Exército, que desejava vê-lo ainda naquela manhã. Tiveram o seguinte diálogo: “Frota, nós não estamos mais nos entendendo. A sua administração no ministério não está seguindo o que combinamos. Além disso, você é candidato a presidente (sic) e está em campanha. Eu não acho isso certo. Por isso preciso que você peça demissão. (...) “Eu não peço demissão – respondeu Frota. (...) “Bem, então vou demiti-lo. O cargo de ministro é meu, e não deposito mais em você a confiança necessária para mantê-lo. Se você não vai pedir demissão, vou exonerá-lo”. Frota tentou uma reação, convocando uma reunião com o Alto-Comando, mas a estratégia de Geisel deu certo ao se reunir com ele no feriado Nacional: Frota não encontrou ninguém, seus amigos estavam viajando! Foi mesmo demitido. Caso tenha pensado em Golpe com a Linha Dura (direita), fracassou!

O escritor ultraconservador Olavo de Carvalho, o único que tem coragem de assumir que é direitista, em 2/3/2012, no Diário do Comércio, comentou que naquela época “Geisel deu sua virada à esquerda” (sic) e que “a única resistência que apareceu vinda do campo militar por meio do valente general Sylvio Frota, foi logo sufocada sob acusação de “golpismo” e aplausos gerais ao presidente triunfante que estrangulara a “linha dura” [direita militar]”. Em outro artigo, escrito em 15/10/2007, “Incomparáveis”, ele escreveu: “Frota permanecia rigidamente fiel ao objetivo do movimento de 31 de março de 1964, que era livrar o país do comunismo (sic). Geisel abriu caminho para que os comunistas tomassem o país de volta (sic)”. Ou seja, Geisel era um perigoso comunista!

Se a “linha dura” tivesse derrubado Geisel, a direita iria dizer que tinha salvado o Brasil do comunismo, do esquerdismo de Geisel. É assim que pensa a direita golpista brasileira! Seja contra Jango ou contra Geisel.

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu.

PUBLICADO NA “GAZETA GUAÇUANA” EM 26/3/2015

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