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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Gregório Sonso ( conto )


Certa manhã Gregório Sonso acordou de sonhos intranquilos, e encontrou-se metamorfoseado num bicharoco asqueroso, peludão e cheio de patas. Estas, numerosas e finas em comparação com o volume do resto do corpo.

- Mas, o q-que aconteceu comigo?

Sim, Gregório ainda possuia uma mente, digamos, humana. Uma consciência ainda humana.
Seu segundo pensamento humano foi:

- M-mas que lugar é este?

Este, no caso, era uma espécie de caixa de vidro e dentro dela se encontrava Gregório. A caixa, por sua vez, repousava sobre uma espécie de bancada na qual espalhavam-se diversos apetrechos "de cientista", como microscópios, bicos de Bunsen e tubos de ensaio diversos. Em volta de si, um cenário gigantesco. Um típico laboratório de filme B, que nada tinha a ver com os laboratórios high-tech da vida real. Mas o Autor do texto não se importa com esses detalhes.

Mal passou seu apavoramento diante daquela nova e ainda incompreendida situação, Gregório Sonso viu-se diante de outro momento aterrador: uma mão gigantesca o apanhou. Seria a morte certa?  Talvez, no fim das contas, a morte fosse um alívio. Mas o dest, digo, o Destino tinha outros planos, ou melhor, Planos para Gregório Sonso. A morte não viria tão cedo. 

Antes disso, havia a Ciência. A mão que apanhara Gregório pertencia a um cientista. O cientista usaria Gregório em sua nova experiência..
Botou Gregório sobre a bancada. Gregório insintivamente tentou fugir. 
- Pára, aranha!, gritou o cientista, um bigodudo de nacionalidade não identificada.
Gregório parou. O cientista pegou-o.

- Então é isso em que me transformei? Numa aranha?, pensou Gregório. 

De volta ao local certo da experiência, Gregório aguardava ansioso a ação seguinte do cientista. Este, então, tirou uma perna da aranha chamada Gregório. Este urrou de dor, na língua das aranhas:
- UÃÃÃÃÃRGHHH!!!
- Anda aranha!Anda!, ordenou o cientista.
Urrando, Gregório andou. Tentou fugir novamente mas não conseguiu.
O cientista anotou: "O espécime aracnídeo com 7 pernas anda."
- Claro que anda, filho da puuuutaaaa!!!, berrou Gregório, sem que o cientista escutasse o protesto do bicho.

Em seguida, o cientista tirou outra perna da aranha. Perdão, de Gregório.
- AAAAHHHHHHGHHHH!!!, urrou Gregório novamente. "Caraalhooooquedooorrrr!!!", gemeu ele.
Insensível à dor de seu objeto de pesquisa, novamente o cientista ordenou:
- Anda aranha!Anda!
Moído de dor, Gregório andou.
"A aranha com 6 pernas anda.", anotou o cientista.

Em seguida tirou outra perna de Gregório, que chorou:
- BUÁÁAÁÁÁÁ! PÁRA COM ISSO MEUDEUS!!!
Mas nem Deus nem o cientista escutaram as súplicas de Gregório. O homem de jaleco estava mais preocupado com suas pesquisas. E novamente ordenou:
- Anda aranha!Anda!
Sem outra opção, Gregório andou.
O cientista anotou: "A aranha com 5 pernas anda". 

E assim continuou fazendo. Quando Gregório estava com uma única perna o cientista a tirou e ordenou: 
- Anda aranha, anda! 

Dessa vez a Gregório não andou. Impossível. Em vez disso, lembrou-se, como um filme, de quando era criança. E das criaturas que torturou. Insetos. Pássaros. Gatos. Cães. Sapos. Peixinhos de aquário. 

Seria aquilo uma retribuição? Um karma? O pagamento?

Enquanto Gregório fazia seus questionamentos metafísicos e existenciais, o cientista refletia sobre seu experimento recém-concluído. Fazia anotações, cálculos, consultas a livros. Preparava os relatórios.

Finalmente, o cientista termina seus apontamentos e finaliza o relatório. Olha pra Gregório, que jazia diante dele e diz:
- Você foi bem, rapazola!
- O-obrigado!, respondeu ironicamente Gregório. O cientista não ouviu.
- Quer saber o que descobri?
- Ah, tanto faz! Já me fodi mesmo!, retrucou Gregório. Novamente o cientista não ouviu.
- Que bom. Lerei pra você, então.

"Bem", raciocinou Gregório, "no fim das contas talvez esse meu martírio não tenha sido em vão. Quem sabe ajudei a curar a AIDS, o câncer?"
Esse pensamento confortou Gregório.

- Pois bem, aranha...
- Siiimmm???!!! Que conclusões geniais você tirou, graças a nossos esforços conjuntos, parceiro? Eu, entrando com o corpo e você, com este cérebro brilhante, esta capacidade intelectual superior e acadêmica...
-...depois de exaustivos testes e criteriosas experiências, este pesquisador descobriu que aranha sem pernas fica surda!"

Ao escutar aquilo, Gregório arregalou seus oito olhos e, inconformado, berrou como qualquer pessoa que tivesse uma parte de seu corpo arrancada berraria :
- SEU SÁDICO E IMBECIL FILHA DA PUTA!!!!!! PRECISAVA ARRANCAR MEUS MEMBROS E ME TORTURAR FEITO UM DESGRAÇADO PRA TIRAR UMA CONCLUSÃO QUE NEM UM RETARDADO SERIA CAPAZ DE TIRAR!!!??? ISSO É CIENTISTA?? VOCÊ NÃO SABE NEM SOMAR 2 MAIS 2, SEU VERME!!!!

- Bem, hora de tirar esse jaleco, me arrumar e ira pra casa, que hoje foi um dia muito produtivo, disse o cientista. E quanto a você, meu amiguinho...
- ME MATA, POR FAVOR!!!!
Antes de concluir a frase, o cientista se dá conta e fala, dessa vez consigo mesmo:
- Que besta sou eu. Ele é surdo. Não escuta o que eu falo.
- ME MATAAAAAAAA!!!

FIM

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