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domingo, 25 de janeiro de 2015

Sucesso e fé em São Paulo, "terra das oportunidades"


Vocês sabem que a medida da coisa quando se fala em milagres é a crença. O acreditar. Quem supostamente recebeu um milagre é porque "acreditou" o suficiente ( "Recebi porque acreditei." ). O resultado fala por si. E é por isso que alguns recebem seu milagre, e outros não. Os primeiros, ganharam o bilhete premiado, os segundos não acreditaram o suficiente. Tá certo que não dá pra medir isso como se mede o conteúdo de um copo de água. 
Por isso é que o milagre é a prova da quantidade de fé depositada. A prova é o próprio resultado. Prova da fé, e prova da existência do ser que nos presenteia com favores espantosos e inexplicáveis.

Sobre o esforço e o empreendedorismo individual com foco em metas e superação de obstáculos, ou seja, aquela conversa sobre quem trabalha muito "chega lá" e quem não "atinge os objetivos" é preguiçoso e não é contemplado pela deusa Fortuna, algumas linhas dum texto antigo da Bárbara Gancia vêm bem a calhar:

"CERTA VEZ , perguntei a Olacyr de Morais qual era o segredo do seu sucesso. O rei da soja pensou e pensou e saiu-se com a genial conclusão: "Desde menino, sempre trabalhei de sol a sol".
Ora, não deixa de ser comovente e é sempre bom ter esse tipo de informação, mas fui obrigada a lembrá-lo de que minha empregada também observou estritamente a mesma rotina e nem por isso ficou milionária.(...)
Em tempo, depois de pensar melhor, Olacyr respondeu que seu sucesso se devia à persistência de ter seguido plantando por anos a fio, mesmo quando seus pés de soja não ultrapassavam os 12 cm de altura."

[ Link pro artigo ( mas fãs de Lula e Celso Amorim não devem ler, acho que não vão gostar muito ha ha ha): http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2304201004.htm ]

Exemplifica-se aí que "o sucesso" é medido pelos resultados, não pela quantidade de esforço despendida pelo vivente. No fim do texto, conclui-se que a teimosia é que é a qualidade maior. Só que uma pessoa esforçada nem sempre se tornará um Olacyr de Moraes, inda mais nesse mudo em que 1% das pessoas mais ricas fica com mais grana que os outros 99% ( e ainda tem quem ache que é graças a plantar pés de soja de sol a sol ) . É possível - se é que não é a regra - que haja pessoas mais esforçadas e trabalhadoras ainda, mas que não passarão de mão de obra barata pros Olacyres do mundo

Como é evidente, se você não quiser - ou seja, se seu cérebro não mandar um comando pras pernas - nem atravessar a rua você faz. Isto é a tal "vontade", o "querer" e isto te levará a "atingir o objetivo" de atravessar a rua. Mas isto é um impulso, um comando elétrico, cerebral ou bio-sei lá o que, e sem esse impulso, não haverá o "sucesso" ( atravessar a rua ). A menos que você seja obrigado ou coagido a atravessar a tal rua. 

A simples "vontade" de prosperar não significa porra nenhuma e ninguém pode garantir os resultados, mesmo que você exploda de trabalhar. A propósito disso, lembrei-me da expressão "Karoshi tropical" (*), de Ricardo Antunes.
Dito de outro modo: se você não trabalhar de alguma forma, a menos que aja de formas ilícitas, ou ganhe na loteria, você realmente tem poucas chances na vida de conseguir algum acúmulo material. Mas trabalhar de sol a sol tampouco garante coisa alguma, como geralmente se promete aos esforçados. Um jogador de futebol só faz gol se chutar a gol. Sem isso, diminuem bastante suas chances. Mas nada garante que o jogador que der 30 chutes a gol por partida realmente fará 30 gols. É uma condição sine qua non, não uma relação de causa X consequência infalível.

Então, acho que fica razoavelmente demonstrada a familiaridade entre "fé" e "esforço". Em ambas, a recompensa concreta é que justifica sua devoção e serve mais como prova do sucesso do sistema e propaganda dele. Além de dar água na boca da gente. 
Nos casos em que se despende "fé" ou "trabalho árduo", mas sem atingir o sucesso, é como se não existissem. O trabalho despendido vai garantir, na melhor das hipóteses, que haja uma vida apertada. O pagamento do aluguel, provavelmente, mas não garantirá a compra da casa.


O texto acima [ que postei no Facebook, sendo esta uma versão um pouco aumentada ] é uma ligeira reflexão sobre algo que li, a propósito do aniversário da Cidade de São Paulo. O autor só faltou dizer que só é pobre quem quer e São Paulo dá tudo de mão beijada pra quem se disponha a trabalhar ( e que basta isso ), parecendo aquela visão datada e importada dos EUA, acho que dos anos 50. A gente sabe que não é assim. E quase nunca eu vejo celebrações do aniversário de São Paulo, ou manifestações de amor a esta cidade, que não venham carregadas ou permeadas de xenofobia regional, ou seja, preconceito contra sobretudo nordestinos. Isso considerando que EU SOU BRANCO DE OLHO AZUL E VIVO A VIDA TODA AQUI DESDE QUE NASCI. Ou seja, sou insuspeito, um paulistano "da gema". 
Isto não é, advirto, uma propaganda a favor do ócio, da preguiça, da aposentadoria aos 48 anos de idade e passar o resto da vida no tédio e no álcool. É apenas uma constatação, da qual vocês podem discordar.

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