sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Jaz São Paulo: a "castração hídrica" e o sumiço dos quiosques


Ver ou não ver, eis a questão

Tem um dessses grandes hipermercados tipo WalMart e Carrefour onde, na área interna do prédio, porém externa ao supermercado, funcionam diversos estabelecimentos comerciais. A rede aluga salões e os lojistas implantam ali seus estabelecimentos. Há lojas de roupas, revistaria, agência de viagens, farmácia, até dentista.
No corredor, a rede alugava ainda espaços para quiosques. Havia quioseque de petiscos, equipamentos eletrônicos ( sobretudo de celulares ), perfumaria, sorvete, banca de salgados como empadinhas e rissoles. Funcionava assim há anos.

De repente, do nada, a rede resolveu que os quisques - apenas os quiosques - deveriam sair dali e o prazo para isso não chegou a ser de um mês. No dia 07 de Janeiro já não restava nenhum. Expulsos sumariamente, porém conta-se que isso estava nos contratos. Quem assinou, não levou a sério a possibilidade de ter de sair às pressas um dia. Devem ter pensado que a rede jamais abriria mão daquela fonte de receitas. De fato, quem imaginaria?

Uma grande parte dos frequentadores foi pega de surpresa. Muitos deles estavam em férias coletivas das firmas próximas e quando voltaram, deram com o deserto. Outras pessoas estavam viajando e retornaram recentemente. E se espantaram com o sumiço daqueles quisoques. Nada mais de sorvete. Nada mais de empadinha de camarão.

TOMOU DORIL
Saíram apenas os quiosques. Os lojistas permaneceram, por enquanto.
Um destes lojistas conta que sabia desde sempre que as pessoas passariam ali para obter informações. Mas não sabia que seria soterrado pela pergunta mais imbecil e absurda que alguém podia produzir diante da mais óbvia constatação de que os quiosques não estavam mais ali: "Os quiosques não estão mais ali?"

No começo, conta ele, achou engraçado. Depois começou a se irritar. Em vez das pessoas pelo menos perguntarem "O que aconteceu?" ou "Pra onde foram?", entre outras perguntas razoáveis e pertinentes, a maioria avassaladora pareceu a ele precisar de uma confirmação verbal de que não estavam vendo aquilo que não estava mais lá ( e que por não estarem mais lá realmente não poderiam mesmo ser vistas ).
Às vezes ele respondia com uma encenação: olhava pra fora e depois, com um ar de surpresa, olhava pro perguntador com cara de quem acabou de descobrir: "Putz, é mesmo, não estão!!! Uai, que que será que houve?"
Noutras ele respondia como o Al Jaffee. Chegou a dizer a uma pessoa que os quiosques estavam cobertos pelo "manto da invisibilidade", um projeto militar altamente secreto.
Porém, a resposta que ele adotou como a preferida aludia aquela piada do taxista e do Maracanã: "Olha, ontem à noite eu fui pra casa e elas estavam aí. Hoje quando cheguei não estavam mais. Sei lá o que aconteceu!". Pra ele, esta resposta composta ( "Sumiu" e "mas não sei o que aconteceu, fim de papo, sei tanto quanto você" ) garantiria o sossego.

RESTRIÇÃO HIDRICA
“É racionamento, não é racionamento, é restrição hídrica, não é restrição hídrica”. É mais ou menos assim que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) tem explicado a lambança que fez na administração da água potável que abastece São Paulo e cidades da região de Campinas, como Itatiba, Jarinu, Monte Mor, Paulínia, Hortolândia e Morungaba.

Mesmo antes das eleições que conferiram a reeleição de Alckmin no primeiro turno sabíamos que já estava faltando água em diversos pontos da Capital. A SABESP e o governo estadual negavam. As pessoas que abriam suas torneiras para encontrá-las secas discordavam de governo e SABESP. 
A imprensa ajudava o governo - SOBRETUDO ANTES DAS ELEIÇÕES - com a versão de que o culpado era São Pedro ( o fato de desde o fim de Dezembro estar chovendo bastante e as represas, em vez de verem seus níveis de água crescer apontam para mais quedas meio que desmonta essa versão, de quebra já desmontada por diversos especialistas, alguns da USP inclusive ).
O apagão das torneiras foi tomando corpo. Governo e SABESP ora negavam, ora diziam que eram problemas pontuais que já haviam sido solucionados. Um secretário disse que quem reclamava da falta de água queria mais era aparecer na TV. Governo começou a lançar mão do chamado volume morto das represas, embora há quem defenda que essa água não é exatamente boa pro consumo.

As faltas "pontuais" de água começaram a pipocar por todo o lado, aumentando em número de locais onde faltava e o tempo que duravam essas "faltas pontuais". Começaram então campanhas pela economia de água. E jornais e revistas de diversos temas ( educatvas, femininas, populares ) passaram a publicar matérias sobre economia de água, como economizar. Afinados com o governo estadual, diga-se de passagem. Noutras vezes, estranhamente, começamos a ler matérias e reportagens sobre a falta de água NO BRASIL e também NO MUNDO. Falaram do geral ( BRASIL, MUNDO ) com o aparente objetivo de esconder ou poupar o particular ( SÃO PAULO, SABESP, GOVERNO DE SÃO PAULO, GERALDO ALCKMIN )
O governo negava que haveria racionamento de água. Disse que não faltava água e que não haveria falta. Podem procurar nos portais de notícias. Eu não farei isso por vocês.

SUMIÇO ÓBVIO
A população ia acompanhando o noticiário escasso e geralmente pró-versão do governo estadual ( nenhum dos jornais empregou o tom forte e virulento que costumam usar contra quem não lhes apetece. Noticias do apagão hídrico não eram publicadas diariamente, ou não apareciam em capas bombásticas ) oferecido pela imprensa e, na prática, uns tentando adotar medidas de economia cotidiana enquanto outros não estavam nem aí e mesmo diante do alarme ( contido, mas ainda assim um alarme ) da "possível" falta de água, continuavam com seus hábitos. Vizinhos começaram a discutir quando viam o cara da casa ao lado lavando o quintal e a calçada. Condominios viram casos de brigas entre moradores.

Tal como o sapo colocado na água fria que depois é fervida e ele morre, também os paulistanos começaram aos poucos a se acostumar com a situação, ainda que parecessem não acreditar que - seria o pior dos casos - haveria racionamento. A abundância de água era passado, habitos foram e vêm sendo mudados paulatinamente e, na boa, ninguém se revoltou. Aparentemente compraram a versão de que a culpa é de São Pedro e que, sim, nós somos desperdiçadores de água e precisávamos de um freio em nossa gastança desenfreada. São Pedro veio nos botar na linha...



Jornal "denuncia" em capa as agruras em SP sem no entanto envolver o nome do sacrossanto e intocável #Al_Qmin

Não houve, jamais, uma cobrança direta e implacável aos responsáveis diretos pela coisa. Ao contrário: assista o Datena e ele misturará alhos com bugalhos, enchentes com falta de água, sabe-se-lá por ignorância ou má intenção. Ele jamais falou sobre a distribuição de lucros aos acionistas da SABESP enquanto começava a faltar água nas torneiras. 
A capa do Diário de São Paulo de 15 de Janeiro reproduzida acima é exemplar e merece ser estudada em cursos de Jornalismo e de Comunicação. Todas as "denuncias" feitas acima poderiam e deveriam ser dirigidas ao governo estadual, responsável direta ou indiretamente pela SABESP, CPTM e ELETROPAULO, com exceção das enchentes, MAS NÃO O FEZ. O nome de Alckmin sequer aparece. A reclamação é apenas isso: mimimi. 
Agora, pra falar de ciclovias, espaço é que não falta e artilharia ácida também não e os obuses sempre encontram nomes e cargos. E estes aparecem esplendorosamente nas manchetes e generosas chamadas de capa.

Não que esta tenha sido a única capa e nem este jornal tenha sido o único a fazer isso. A rigor, TODOS OS JORNAIS paulistas agem assim. Nem Alckmin, nem Serra, nem PSDB podem ser molestados ou confrontados. Se isso acontecer, é uma vezinha ou outra e olhe lá. Assim, até eu sou honesto ou competente. Se os jornais não ficam publicando criticas diarias e em capas e manchetes estridentes como fazem com outros, como o leitor deixará de achar que está tudo bem?

O RACIONAMENTO, ENFIM
Para poder cobrar uma multa pelo consumo abusivo de água, o governo estadual foi instado pela Justiça a admitir o racionamento:

"...a juíza Simone Viegas de Moraes Leme, da 8ª Vara da Fazenda Pública, determinou que a multa, de até 100% no valor da conta, só poderia ser aplicada após uma declaração pública do governo estadual a respeito da existência do racionamento (...) " 

Alckmin o fez, mas tirando o corpo fora e responsabilizando a Agência Nacional de Águas pela decisão:

"O racionamento já existe. Quando a Agência Nacional de Água (ANA) determina que você que tem que reduzir de 33 para 17 (metros cúbicos por segundo) no Cantareira é obvio que você já está em restrição. Está mais do que explicitado", disse em um evento da Polícia Militar na zona norte (...)"

Alckmin negou que o racionamento será imposto por um decreto seu. "Já temos a restrição de água estabelecida pela ANA, que é a agência reguladora. Não tem que ter decreto. Isso está mais do que explicitado (...)."

Da mesma forma que São Paulo seria "vítima" de um "cartel" no Metrô e na CPTM - nada sobre as propinas nessas e outras estatais e secretarias sob reposnsabilidade do PSDB, escândalo conhecido como "Trensalão" - o Estado bandeirante também seria "vítima" de uma decisão alheia tomada por terceiros. Antes diziam que tucanos ficavam em cima do muro. Hoje em dia são mestres em tirar o corpo fora.

Por fim, parece que finalmente os paulistas e paulistanos terão a confirmação verbal daquilo que era óbvio, (in-)visível e patente e que poderiam ter dependido menos da confirmação titubeante do governador. Como os quiosques da historia do inicio desse post, estava na cara que a água não estava lá. Não havia nenhum "manto de invisibilidade" cobrindo a água da Cantareira e do Alto Tietê. Quem tem olhos, que veja, dizia o dito popular ( ou bíblico, sei lá eu ).

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