sábado, 3 de janeiro de 2015

Dinheiro é tudo na vida? Por Patrícia Yumi Nakagawa


Em países economicamente desfavorecidos, como o Brasil, existe a prevalência da desigualdade social, decorrente do grande índice de desemprego e subempregos, deixando a população em situação de intensa pobreza. Não há dúvidas de que tal realidade compromete a qualidade de vida, pois em nossa cultura capitalista, há sobreposição do valor do capital acima de outros valores.

Somando-se a isso, a cultura incute a associação entre felicidade e dinheiro. Facilmente entra-se em contato com grande contingente de publicidade que veicula a ideologia de que o que é adquirido pelo dinheiro é o valorizado.

Certa vez um adolescente que viveu por quatro anos na rua comentou: “Você sabe o que um garoto de rua quer?”. Em seguida ele mesmo respondeu: “O que quero não é diferente do que outros meninos querem... Todo mundo fala que tênis da Nike é bom, o Playstation... Eu quero a mesma coisa”.

Diante dessa valorização do capital, muitos ficam “viciados” em trabalho, deixam de conviver com a família e alegam que trabalham para dar “boas condições de vida” aos familiares. Aqui pergunto: o que é necessário? Será o capital? Qual o valor do trabalho?

Muitas vezes, o trabalho é visto como veículo para dar acesso aos produtos disponíveis para consumo. O trabalho, porém, também é oportunidade de transformação de si, do meio em que se vive, principalmente quando remete a um significado. É importante que a atividade profissional faça parte da construção de identidade e realização no campo pessoal e social. Quando isso não ocorre, o trabalho pode ficar desprovido de seu valor simbólico, seu sentido é questionado e o espaço que ocupa na vida é revisto.

Falta de sentido, frustração, inutilidade das reivindicações, formam a imagem do trabalhador que não se orgulha e fica constrangido de ser “mecanizado”, pois está preso às tarefas. Deixa de desenvolver seu potencial, sob o risco de perder o emprego, já que vivemos num mundo dominado pela competitividade, onde se cultua a condição de que caso a pessoa não aceite as imposições, outro o fará.

De certo modo há verdade nisso, se as pessoas estão ausentes em sua subjetividade, se tornam substituíveis, pois a tarefa técnica pode ser feita por outro. Muitos acabam tendo vivência depressiva, alimentada pela paralisação e isso marca a vitória da produtividade desvinculada do envolvimento e do significado do trabalho para o sujeito.

Diante das pressões exercidas como: produtividade alta, sobrecarga de funções, relações de poder, baixo reconhecimento, a maioria constrói estratégias de defesa para lidar com elas. Alguns reclamam, outros adoecem ou faltam ao trabalho ou expressam falta de motivação e comprometimento.

As relações acabam ocupando grande espaço dos laços sociais, a maioria passa mais tempo convivendo com as pessoas do trabalho que com a família e amigos. Nesse sentido, o que ocorre nessas relações adquire muita importância.

As relações no trabalho adquirem importância e o que acontece nesse ambiente pode colaborar na construção da identidade, pois traz a possibilidade de direcionar desejos. Quando isso não é possível, pode gerar intensa frustração na vida do sujeito, pois não existe a divisão entre o que a pessoa é na vida lá fora e no trabalho. Os recursos que o sujeito utiliza no trabalho podem ser ampliados para as relações familiares, levando-o ao risco de repetir o mesmo funcionamento. Assim, a pessoa pressionada demasiadamente pode, em momentos de crise, sentir-se pressionado constantemente, reagindo sintomaticamente.

Existem aspectos que merecem destaque. Quando há recusa das diferenças, insistência na homogeneização, no consenso de conduta e discurso, o trabalhador pode ficar privado de sua diferença, portanto, não consegue se apropriar do trabalho. O cuidado a ser tomado reside na repetição de reclamações ou queixas que servem para a manutenção dos conflitos na equipe, desvirtuando a atenção sobre o real motivo das dificuldades: o sofrimento.

É importante explicitar que qualquer sintoma é multi-determinado, tem conexão com a história do sujeito, com a forma como cada um reage às pressões do trabalho e tem relação com o laço estabelecido com cada “colega”, que suscita ou faz lembrar traços que admiramos, nos incomodamos etc. Desse modo, é importante lembrar que a relação estabelecida com o trabalho e com outros trabalhadores pode levar a algumas conseqüências.

Uma organização que intimida funcionários, sem capacitar ou trabalhar conflitos, favorece aparecimento de ansiedades, angústias e medos na equipe. Quando a empresa é muito competitiva, pode gerar diminuição do espírito de equipe, acarretando relações pouco éticas e desleais, onde paranóia e competitividade podem ser elementos freqüentes.

Em algumas instituições há falência de pactos no social: fofoca, mecanismos destrutivos da imagem do outro, injúrias. Por outro lado, pesquisas afirmam que fofoca em ambiente de trabalho, nas relações informais, nas conversas no café, pode promover aproximação entre funcionários e auxiliar na produtividade do profissional. Nem sempre o boato aborda informações destrutivas.

Outra instituição que lida com a diferença, valorizando o indivíduo, pode promover desenvolvimento colaboração e integração e tende a funcionar de outro modo. Nesse sentido, pode-se afirmar que em parte somos responsáveis pelo sistema e por sua manutenção, quando nos ausentamos de nossa responsabilidade em fazer diferença, enfrentar conflitos, tão necessários à nossa transformação. Portanto, refletir sobre o que nos leva a reagir de determinada maneira é bom começo para modificar dificuldades vividas.

Patrícia Yumi Nakagawa é psicanalista, membro da equipe PalavraEscuta –www.palavraescuta.com.br .


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