domingo, 4 de janeiro de 2015

"A tecnologia pode ajudar na sala de aula?" , Por Arthur Meucci


A coluna anterior, sobre Ética na docência, gerou retornos positivos e propostas de reflexão para novas colunas. Sabendo de minhas pesquisas de campo, me perguntaram se o uso de tablets e smartphones em sala poderia tornar as aulas mais dinâmicas e interessantes. Afinal, eles já são uma realidade e estão presentes no cotidiano familiar dos jovens brasileiros das escolas particulares de massa1 e no universo social de algumas poucas escolas públicas do Estado de São Paulo. O Decreto Estadual no 52.625, de 15 de janeiro de 2008, proíbe o uso destes aparelhos em sala de aula, porém as escolas têm dificuldades em aplicá-lo. Estariam as escolas e o Estado na contramão da História e da evolução da Educação?

Antes de responder a essa pergunta, porém, é preciso esclarecer um pressuposto: qualquer processo educativo só é possível graças a dois agentes: o educador e o educando. Nenhuma estratégia pedagógica será eficaz se não envolver e mobilizar quem ensina e quem aprende. B. F. Skinner provou que nenhuma máquina educativa funciona corretamente sem o planejamento e a supervisão de um especialista, e também sem o interesse de quem vai se submeter a ela.

O uso de smartphones e tablets em escolas particulares que incorporam essa tecnologia apresentou três problemas: 1) a distração dos alunos com os jogos e redes sociais, 2) a escassez de ferramentas que possam agregar ao planejamento da aula (essas escolas só disponibilizam as apostilas digitais nos tablets) e 3) a perda de interação com os professores e colegas de classe - no momento em que as instituições sociais e o mercado perceberam a importância do trabalho cooperativo para realizar projetos e superar problemas, esses aparelhos induzem os alunos ao individualismo. As salas destas escolas têm uma diminuição considerável de problemas de comportamento, mas isso se deve à abdução da atenção que esses aparelhos geram ao proporcionar entretenimento. Em resumo, o uso das atuais tecnologias só agrega um poder de marketing que seduz a classe média pequeno-burguesa.

Quando falamos de Educação pública estadual e municipal, devemos incluir mais um fator que exclui o bom funcionamento destas tecnologias: a ausência da internet wi-fi de qualidade e de livre acesso nas escolas. Esses aparelhos precisam da internet para funcionar adequadamente, e muitas escolas não contam com esse recurso - e as que possuem o utilizam somente para serviços burocráticos da instituição.

Sobre a incapacidade da escola de fiscalizar o uso dos celulares em sala de aula, devemos responsabilizar os coordenadores e diretores das escolas por não aplicarem as devidas punições aos alunos e a seus responsáveis. Quando penso nesse problema, lembro dos franceses e alemães, que também proibiram o uso de celular nas dependências escolares, mas com sucesso. Lá confiscam o celular, suspendem o aluno e notificam os pais. Eles argumentam que a Educação pública de qualidade custa caro para o Estado, e quando os professores param suas aulas por causa desses aparelhos ocorre desperdício de tempo (que envolve dinheiro) e o aprendizado dos demais alunos, que respeitam as regras, é comprometido. Apesar da nossa Educação pública não ser de qualidade, também ocorre desperdício de tempo do docente e prejuízo do bom andamento da aula. A escola deveria suspender os alunos que infringem a lei e notificar os responsáveis por meio do Conselho Tutelar em caso de reincidência - pois são os adultos que descuidam da educação dos seus filhos ao lhes entregar esses aparelhos.

Acredito que eReaders como o Kobo e o Kindle podem substituir as apostilas impressas, além de fornecer outros títulos cedidos pela Secretaria da Educação, se tornando uma opção muito mais objetiva, barata e interativa, substituindo as bibliotecas físicas - podendo, assim, democratizar o acesso aos livros, independente da região onde o aluno mora. Também diminuiria os esquemas de corrupção na compra dos materiais didáticos.

Apesar do meu panorama ser pessimista em relação a esses aparelhos, eu vislumbro uma opção tecnológica que pode melhorar muito o ensino público: a lousa digital interativa. Ela oferece ao professor uma infinidade de recursos audiovisuais que podem enriquecer as aulas e prender a atenção dos alunos, além de proporcionar uma maior interação da classe (o que é pouco viável com os tablets). O professor também pode postar suas aulas (com som, se ele quiser gravar e sincronizar com as atividades na lousa) gratuitamente no Moodle, para que os alunos tenham material de estudo e possam repor eventuais faltas.

Outra vantagem é que a lousa digital interativa é muito mais barata do que a opção de comprar tablets para os alunos, além de funcionar sem internet ou com o acesso restrito oferecido pela escola. As empresas que vendem esses aparelhos fornecem treinamento contínuo aos professores, ajudando a adaptar seus antigos planos de aula para o universo digital. Os docentes serão estimulados a se atualizarem e a repensarem suas didáticas junto com os colegas. Ferramentas como os eReaders e as lousas digitais interativas são opções tecnológicas viáveis, de baixo custo, inclusivas, eficazes e com potencial enorme para melhorar a qualidade do ensino público.

1 Eu me refiro às escolas privadas destinadas aos lhos da classe média, que economicamente não tem recursos financeiros ou capital relacional para matricular seus lhos em escolas particulares de elite. A organização e o quadro docente destas escolas pouco se diferenciam das públicas, e os dados do Enem mostram que seu desempenho é similar ou inferior ao ensino estadual ou municipal.

ARTHUR MEUCCI É MESTRE EM FILOSOFIA PELA USP, DOUTORANDO EM EDUCAÇÃO, ARTE E HISTÓRIA DA CULTURA PELO MACKENZIE E MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO FILOSÓFICA SCIENTIAE STUDIA. PROFESSOR CONFERENCISTA DA ECA/USP E DO CURSO DE ÉTICA E MEIO AMBIENTE DO PEC/FGV-SP E CONSULTOR DO ESPAÇO ÉTICA.


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