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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Meios de comunicação de massa pouco informam e mais apavoram a sociedade


Documentário pode ser alternativa na comunicação de risco

Assistir aos grandes noticiários ou ler os principais jornais e revistas podem transmitir a sensação de que vivemos um período de extrema violência e catástrofes. No cinema, principalmente as produções hollywoodianas, também apresentam a mesma mensagem: o medo. Entretanto, o documentário pode ser uma alternativa entre as linguagens comunicacionais para aprofundar as discussões sobre temas relacionados ao risco (a possibilidade de algo acontecer), além de problematizá-lo para demonstrar sua origem de fato ou como fazer para lidar com ele e até combatê-lo.

O documentário de risco é proposto pela pesquisadora, comunicóloga e professora universitária Carla Daniela Rabelo Rodrigues como uma nova categoria de análise dentro da comunicação, pelo seu caráter questionador e reflexivo, em sua tese de doutorado Risco, Comunicação e Cinema – O Documentário de Risco como Potência Narrativa, defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, em fevereiro deste ano.

Para chegar a essa proposta, Carla teve que problematizar o papel da comunicação no universo do Risco. Segundo a pesquisadora, a comunicação é apropriada por outros campos do saber, geralmente como uma ferramenta apenas (produção de materiais de divulgação, campanhas etc), e não como um lugar para diálogos, experimentações em linguagens, construção de conhecimentos individuais e coletivos, e também conexões que provoquem resultados ou mudanças efetivas.

Há várias linhas de estudo sobre o risco, como Sociedade de Risco, Estudos Culturais do Risco , Governamentalidade, Estudos Psicométricos, entre outros. Elas refletem sobre os tempos de perigos, ameaças, indeterminação e também do acaso vivenciados pela sociedade e pelas pessoas.

Apesar de traçar um panorama dos estudos teóricos sobre o risco na área social, Carla se apropriou mais da linha teórica do sociólogo alemão Ulrich Beck. “O risco, para ele, é essa configuração em sociedade de tudo aquilo que foi gerado pelo período industrial, principalmente, essa configuração desordenada, ou seja, a poluição, o desmatamento, o crescimento desordenado, que acaba não prevendo a transposição de recurso, a sustentabilidade”.

Comunicação de risco
A pesquisadora analisou também as narrativas que existem na área de comunicação relacionadas ao risco. “Comunicação de risco, como parte de uma área maior que se chama Gestão de Risco, é comumente entendida apenas como um processo interativo de intercâmbio de informações e opiniões sobre risco entre assessores de imprensa, gestores de risco e partes interessadas. As empresas usam a comunicação de risco para trocar informações e opiniões, além de tentar estabelecer um diálogo com seus públicos para prover conhecimento, minimizar e, de certo modo, regular as possíveis compreensões a respeito das práticas empresariais e seus riscos produzidos. Geralmente são providenciadas ações de relações públicas como materiais de divulgação ou notas para a imprensa. Narrativas ainda questionáveis em seu caráter de relacionamento com os públicos, ética em condutas e resultados efetivos. Lembrando que quando falo em Riscos, falo de riscos à saúde humana, à ecologia, riscos científicos, químicos, nucleares, genéticos, e também os riscos econômicos e políticos de onde muitas decisões globais partem.”

Outra linha apontada na pesquisa é o que Carla chamou de “mediatização do risco”, que também pode se transformar em “mediatização do medo”. São as linguagens empregadas nos meios de comunicação de massa, tanto jornalísticos quanto audiovisuais. “Eles pouco informam e mais apavoram. São sensacionalistas para garantir e alimentar audiência. Em vez de informar, paralisam as pessoas. Muitos desses meios alimentam um esvaziamento da cidadania e um conformismo sem questionamentos, como por exemplo, aceitar comer alimentos com alto teor de agrotóxicos, ou mesmo viver com a possibilidade de ser assaltado sem a busca efetiva pelos motivos que provocam essa situação individual, que é social.”

O levantamento dos documentários foi escolhido pela pesquisadora por ser um tipo de linguagem explorada por cineastas, videastas experimentais, videastas iniciantes, empresas, meios de comunicação (TV, vídeo), Organizações Não Governamentais (ONG), movimentos sociais e outros setores da sociedade que tentam aprofundar e problematizar as discussões sobre algum tema.

“Para falar de risco é preciso aprofundar, contextualizar, explicar os motivos além das receitas do que fazer para prevenir. Apresentar o problema apenas e dizer como a população deve reagir a isso é o mesmo que silenciar possíveis questionamentos sobre os motivos desses riscos existirem e, claro, da possibilidade de se transformarem em um dano não previsto pelas pessoas, mas muitas vezes previstos pelos envolvidos na suposta criação deles. Portanto, é preciso prover a população de mais informação sobre determinado tema para que ela não fique apavorada, para que ela entenda, tome uma decisão e saiba lidar com aquilo. Muitos documentários são alternativas a esse sistema comunicacional de paralisia, eles trazem informações muitas vezes não discutidas na mídia por motivos dos mais diversos”, alerta.

Documentários de risco
Carla pesquisou documentários que operavam em suas narrativas a temática do risco e chegou a duas categorias: o instrumental e o poético, tendo como representantes “O Veneno Está na Mesa (Silvio Tendler, 2011)” e “Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, Agnes Varda, 2000)”, respectivamente.

De acordo com a pesquisadora, “O Veneno está na Mesa” é um documentário mais informativo, mas tem o propósito de mostrar o que não é apresentado na grande mídia: o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil e problematiza a opção por esse modelo do qual não houve participação popular.”Ou seja, nós não decidimos comer alimentos com veneno, e quem decidiu isso por nós? Por que estamos vivendo isso? Quais os efeitos dessa escolha? Como os demais países decidiram sobre uso ou não de venenos?”, indaga.

O documentário “Os Catadores e Eu” também é de denúncia , é sobre o desperdício de alimentos na sociedade de produção e do consumo exacerbado, mas a narrativa é diferente, mais poética, deixa o espectador mais livre em fazer conexões e problematizações sobre o que vê. “É um filme sensível, é poesia sem deixar de lado um caráter questionador em sua narrativa. Ambos potencializam a linguagem documental. Essa ideia de potência do documentário é defendida pelo pesquisador francês Jean-Louis Comolli, um autor que usei nessa tese de doutorado”, afirma Carla.

Por isso, a pesquisadora traz o documentário de risco como uma narrativa audiovisual que discute o risco num caráter questionador e também reflexivo. “Além das muitas possibilidades de distribuição e acesso, seja com exibição na internet, televisão, salas de cinema, escolas, etc, essas narrativas deslocam o olhar acostumado do espectador para um novo lugar político revelador de informações ou percepções ocultadas pela estética imagética do intenso, do espetacular, do catastrófico. Essas possibilidades narrativas são alternativa, ou um outro modo de ver, diante desse sistema de medo que está aí instaurado”.


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