sexta-feira, 7 de novembro de 2014

“Crise hídrica em São Paulo era uma tragédia anunciada” ( Newton Azevedo, Conselho Mundial de Água )


Para governador do Conselho Mundial de Água, Newton Azevedo, falta de água no Estado poderia ter sido mitigada; tendência é de melhora no nível dos reservatórios

O discurso do vice-presidente da ABDIB e Governador do Brasil no Conselho Mundial da Água, Newton Azevedo, no Seminário Inovação: Metas e Desafios, organizado por Brasileirosnesta semana, em São Paulo, foi o único que teve interrupções de plateia. Enquanto ele criticava a forma como os brasileiros enxergam os recursos hídricos do País e o gasto exagerado por parte de empresas, um agricultor distante do palco se manifestou dizendo que “sem água não é possível alimentar as pessoas nas grandes cidades”. “Na minha fazenda, no Mato Grosso do Sul, a gente não tem opção: se não usar bastante água, não tem soja, milho, álcool e outras várias coisas para vocês do Sudeste”, vociferou o homem.

A água, de fato, gera um dos principais debates do momento do Brasil: o Estado mais rico do País, São Paulo, vive uma grave seca. O reservatório que abastece a cidade, o Cantareira, iniciou a semana passada com 12% da sua capacidade, já usando um estoque extra, chamado de volume morto. A previsão é que chova mais de 100 mm na região durante o mês de novembro, e mesmo assim o sistema continuará com nível baixo. “Nós temos um conceito equivocado de que tem água pra todo mundo no Brasil, e assim gastamos que nem doidos. Gastamos algo como 150 litros de água por habitante todos os dias. Em um País desenvolvido ou em bom status de desenvolvimento, dá pra gastar metade”, disse Newton, durante sua palestra. “É uma questão cultural fundamental que não se resolve do dia pra noite. Vamos mudar os livros, mudar o ensino e mostrar para as próximas gerações que não temos tanta água assim como parece. Desde cedo aprendemos sobre as bacias do Amazonas, os rios, o Aquífero Guarani, mas jamais se imaginou que ali em Moema faltaria água”, completou.

Após o seminário, Newton falou com Brasileiros sobre a crise hídrica no Estado e sobre o que podemos extrair de outras crises pelo mundo. Leia a seguir:

Brasileiros – Como o senhor está vendo a crise hídrica no Estado de São Paulo?

Newton Azevedo: Na semana passada tivemos uma reunião – que acontece de quatro em quatro meses – e um dos assuntos debatidos, até colocado por mim, que sou brasileiro, foi a crise que vivemos em São Paulo. O Conselho Mundial de Água, como não poderia deixar de ser, ficou assustado. Para nós, que somos brasileiros, assusta, imagina para quem vê lá de fora, o Brasil com aquele conceito de que nunca falta água aqui. É difícil explicar para eles que o Estado de onde se concentra 53% do PIB brasileiro está em uma situação de seca. Isso acelerou a discussão de mudanças climáticas e a busca por soluções de curto prazo que devem ser implementadas, além de soluções estruturais que levam mais tempo. Vamos elaborar um documento em breve com sugestões e se colocando à disposição para disponibilizar outras alternativas que foram realizadas pelo mundo.

O debate sobre a água dominou a campanha eleitoral para o governo de São Paulo. Há algum culpado?

Eu sempre digo que o tamanho da encrenca é tão grande que não podemos achar que há um único culpado. Um avião não cai apenas por um motivo. Eu acho que aconteceu uma série de coisas, entre elas a mudança climática, que afetou o índice biométrico como nunca tinha afetado nos últimos anos. É claro que houve uma politização do assunto, como não deveria deixar de ser, mas eu acho que agora é hora de olhar para frente. Nos últimos dias – passada a emoção e falando com mais razão – o tema ganhou mais densidade, e, assim, eu consigo visualizar um horizonte melhor. Cada um tem uma participação nisso: governos estaduais, federais, comitês de bacia, academia, enfim, todo mundo tem uma contribuição a dar.

Mas era previsível que ia faltar água?

Eu diria que era uma tragédia anunciada, sim. Uma tragédia que poderia ter sido mitigada. Lógico que teve uma variável que a gente não tem controle que é São Pedro fazer chover (risos), mas algumas coisas poderiam ter sido feitas para mitigar o problema. Mas não é dizer que deveriam fazer algo em São Paulo, no Rio de Janeiro ou pelo governo federal. Eu acho que faltou uma integração maior, mais transparente, mais visível, de todos os órgãos que têm responsabilidades sobre os recursos hídricos do Brasil.

A saída dada pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, de tirar água do rio Paraíba do Sul, é adequada?

Eu acho que sim. São saídas que precisam ser feitas com urgência. A gente já viu a última declaração do presidente da ANA (Agência Nacional de Águas), Vicente Andreu Guillo, caracterizando isso como possível. Temos que deixar falar a razão, o bom senso, a vontade política, pensando em políticas públicas e não na política que contaminha as pessoas e prejudica ainda mais a sociedade.

O Conselho Mundial de Água trabalha com problemas parecidos em outros lugares do mundo?

Sim. Temos problemas graves em Singapura, na Ásia, na própria Califórnia, nos Estados Unidos, em Israel também. Temos muitos exemplos de água de reúso, como o governador Alckmin sugeriu esses dias, outras soluções para cidades de grande concentração de pessoas, na agricultura. Não que eu tenho ficado contente com a crise, mas ela chacoalhou e acordou todo mundo para um assunto que a gente sabia que em breve poderia acontecer…

O Brasil não participava do debate enquanto outros lugares já estavam procurando soluções.

Os outros lugares já admitiram que são locais de escassez hídrica. Israel é um exemplo. E nós vivíamos naquela benesse dos céus de que tínhamos água demais, que nunca faltaria, quando na verdade nós temos muita água em locais onde vivem poucas pessoas e pouca água em locais onde vivem muitas pessoas.

Mas essa visão de suficiência hídrica saiu daqui ou o exterior colocou sobre nós?

Isso é coisa nossa. O que também é verdade: se você fizer uma conta do volume de metros cúbicos de água para a população que nós temos, é uma maravilha. O problema é que essa conta não fecha, porque o importante é ter água perto de quem consome.

O transporte que encarece.

Exatamente. E tem indústria, agropecuária, todas essas coisas. É uma análise integrada.

O Conselho já tocou no assunto do Aquífero Guarani?

Também. Isso só veio agora com a crise. Todo mundo começa a dizer “olha, temos rios enormes, temos o aquífero, tal”. Foi um impacto para quem está lá fora e sempre viu o Brasil como rico em água. O brasileiro herdou isso e só agora ficou claro que não é bem assim.

Dá pra tirar água do Guarani?

Claro! É viável, mas também não é apenas furar lá e pegar a água. Tem legislação, tem licenças, não pode contaminar o lençol e para isso se instala uma série de técnicas. Tem uma associação, que é a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), que cuida desse assunto do aquífero. Então a gente está percebendo que começou um movimento para encontrar soluções para a crise e também criar estrutura para que esse problema não aconteça novamente.

Vocês têm uma previsão positiva ou negativa para o Sistema Cantareira?

Positiva, até porque se ficar pior só se tira água de canequinha de lá (risos). Eu acho que a tendência é melhorar. O governo do Estado de São Paulo está fazendo um esforço que a gente admira e o governo federal, passado esse momento de jogo de futebol, também está tendo um papel importante. Eu tenho certeza que agora também vai entrar um período de chuvas, não tão grande como gostaríamos, mas o suficiente para estabilizar o nível dos reservatórios, contando, é claro, que a população diminua o consumo. É um exercício de cidadania.


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